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IH
— Qual é a experiência de vocês com serviços de
datacenter?
FAGUNDES — Em
2000, fizemos uma RFQ (request for quotations,
requisição de orçamentos) para decidir se nossos
aplicativos de e-business iriam para um web hosting.
Desde 1999 temos algumas iniciativas no datacenter
da Ford, que é de categoria B. Os aplicativos
de e-business, uma vez que queríamos colocar as
vendas de carros e o relacionamento com fornecedores
na web, exigiriam que tivéssemos um datacenter
de categoria A, com toda a segurança física, grupos
geradores redundantes, ar-condicionado redundante
e tudo o mais. Então, confrontamos o investimento
para transformar o nosso datacenter com as oportunidades
de hosting fora da Ford. Concluímos que, num período
de cinco anos, seria mais interessante fazer o
hosting fora da Ford. Mas teve uma curva de aprendizagem,
nossa e do provedor, para tudo funcionar bem.
IH — Vamos à outra montadora,
a General Motors.
PINTO — A
vocação da GM é de terceirização. O modelo de
negócios da área de TI da GM diz que nós não executamos,
não operamos, não damos suporte, não damos manutenção,
não desenvolvemos, não construímos aplicativos
e não operamos esses aplicativos. O legado é terceirizado,
o datacenter é terceirizado. Um pedaço dos aplicativos
roda em Plano, no Texas, e um pedaço, no Brasil.
O pedaço do Texas é de sistemas comuns, que servem
a todos os países. Quando resolvemos fazer hosting,
assim como a Ford, decidimos por um datacenter.
Um pouco do nosso hosting ficou em Raleigh (capital
da Carolina do Norte) e um pouco no Brasil. A
porção brasileira é mais institucional; quanto
ao processo de vendas, roda em Raleigh.
IH
— A porção brasileira é compartilhada com algum
outro país do Mercosul ou da América Latina?
PINTO
— Ainda não, mas vamos
centralizar o hosting de toda a América Latina
no Brasil, principalmente os módulos do SAP que
se interligam com os legados. Um dos aspectos
a considerar, quando a gente analisa a questão
do hosting e do ROI, é a comparação do investimento
que você tem que fazer em hardware e software,
para estabelecer o ambiente, diante de alugar
esse ambiente de alguém. É preciso analisar também
a capacidade de gerenciar o ambiente. Dependendo
do SLA (service level agreement, ou acordo de
qualidade mínima de serviço), o ambiente precisa
de estabilidade, e, conforme a estabilidade, é
preciso gerenciar problemas, mudanças, planejar
capacidade, analisar o desempenho, dimensionar
a segurança. Isso tudo exige investimento adicional.
FAGUNDES — Pegando
esse gancho, algumas coisas são intangíveis. No
lançamento do Eco Sport, as visitas ao site da
Ford dobraram; se não contássemos com a flexibilidade
do provedor de hosting, para aumentar a banda
de acesso à Internet, não teríamos conseguido
manter a qualidade do serviço. É um benefício
intangível, pelo menos a princípio.
PINTO — Isso
significa um mandamento para quem tem hosting
em casa: não pode usar mais de 60% da capacidade.
CALDAS — Eu
queria voltar um pouco, discutir essa questão
de investimento e de ROI. Os investimentos em
TI estão chegando a 5%, 6% da receita bruta, conforme
a empresa. A gente sempre discute como justificar
o investimento em TI, mas acho fundamental a empresa
ter um método para analisar qualquer investimento.
Esse método por si só implica uma série de análises,
seja de risco, seja de retorno. Antes do ano 2000,
a gente precisou melhorar o CPD. Na época, como
uma multinacional tem custo de capital menor (tem
o mundo inteiro para captar dinheiro) e tem acordos
mundiais com fornecedores, a gente preferiu continuar
com o nosso datacenter, fazer os investimentos
em hardware e software e terceirizar a administração.
O mesmo aconteceu nos Estados Unidos, onde a empresa
investiu no datacenter e terceirizou o serviço.
No futuro, a gente visualiza um lugar só provendo
serviços para o mundo inteiro. Já fizemos estudos
de offshore (terceirização no estrangeiro), a
melhor opção é a Índia, depois o Brasil, tem ainda
a Austrália. Contudo, uma solução para o mundo
inteiro é também um risco muito alto. Então, postergamos.
A gente fez uma regionalização: Europa, Estados
Unidos, América do Sul, Ásia e Austrália, e a
segundo etapa, a partir de 2005, é consolidar
isso, quem sabe, num único datacenter.
IH
— Se nada mudar, na Índia?
CALDAS — Não,
porque não temos presença na Índia, então o risco
é maior. Uma dessas regiões deve ficar com a centralização,
e o Brasil tem chance.
TORTOSA — Você
calcula ROI quando está substituindo alguma coisa
ou desenvolvendo alguma coisa operacional. Não
é o caso das decisões estratégicas. Se você vai
calcular retorno de investimento, vai partir de
premissas. Quando se escolhem as premissas, ao
mesmo tempo se escolhe o tipo de conclusão a que
se quer chegar. Na Pfizer, escolhemos terceirizar
todo o datacenter e toda a infra-estrutura. Por
quê? Porque queremos focar no suporte ao negócio.
Nesse caso, o custo e o ROI são menos importantes
do que a estratégia. Depois da decisão estratégica,
aí sim, vamos escolher o melhor custo-benefício.
O Fagundes tem razão, o Brasil é competitivo,
mas temos um concorrente muito forte, que é o
México, muito perto dos Estados Unidos e cuja
economia vai bem.
IH — Existe algum concorrente
bom na Europa?
BIRMAN
— Toda a Europa Oriental.
CALDAS — O
nosso datacenter da Europa é na Hungria.
IH — E eles têm telecomunicações
de boa qualidade?
CALDAS — Tivemos
sérios problemas para interligar nossa rede, mas
a infra-estrutura está começando a melhorar.
PINTO — Infra-estrutura
era um problema no Leste Europeu. Agora está melhorando.
TORTOSA — Não
é o nosso caso. Nosso datacenter é na Irlanda,
na IBM; não é o mais barato, mas, de novo, é uma
decisão estratégica. É óbvio que fizemos um estudo
de custo-benefício, mas olhamos muito mais a capacidade
da empresa de nos atender com qualidade e estabilidade.
ANTUNES — Na
Klabin, começamos um processo de terceirização
de toda a nossa estrutura interna, da web ao ERP.
Há dois meses, soltamos uma RFI (request for information,
requisição de informações). Agora, pegamos o apoio
do Gartner; estamos no meio da análise de ROI.
Tem vários fatores importantes nesse processo.
Um deles é trocar Capex por Opex (Capex, capital
expenditure, despesas com ativos fixos; Opex,
operational expenditure, despesas operacionais).
Não queremos mais investir, queremos comprar serviço.
Nesse caso, a dificuldade é sempre escolher a
qualidade necessária ao serviço versus seu preço.
Outra coisa é a continuidade do negócio. Meu site
é redundante, mas é um só site. Fica em Jundiaí,
e eu brinco: é rota de avião. Vendi muito essa
idéia. A gente até saiu atrás de um cold backup
(sistema de estepe, mas não sincronizado em tempo
real), mas é mais caro do que terceirizar. Outro
fator é a capacidade de investimento. O foco da
Klabin não é infra-estrutura de TI, é negócio.
Temos 22 fábricas com links de alto desempenho,
todo mundo rodando num datacenter central. É um
ponto de falha único, um problema de desempenho
pode ser sério, mas, queira ou não queira, não
é possível ter todo o instrumental porque custa
caro. Nós avaliamos um software de gestão do ambiente
SAP, o Patrol (sistema de gestão de ambientes
de TI da BMC), mas só ele ficaria em uns US$ 120
mil. Para a Klabin, é caro. Na hora de contratar
um datacenter, você paga por isso, mas você compartilha
com outras empresas. Outro fator, que estamos
colocando no ROI, é a qualidade da mão-de-obra
a longo prazo. A tendência é a minha mão-de-obra
ficar desatualizada. Você só lembra da luz no
dia em que ela falta. Se tudo funcionar 7 por
24, 365 dias por ano, eu não recebo tapinha nas
costas. Se parar cinco minutos, eu recebo uma
bomba. É complicado calcular ROI, e é complicado
mostrar isso para o board.
TORTOSA — Penso
bastante em ROI. Na verdade, ROI é um termo técnico.
Quando o assunto são aplicativos ou estratégias
que vão mexer na linha P&L (profit and loss statement,
demonstrativo de lucros e perdas), não dá para
calcular ROI. O desafio é mostrar benefícios tangíveis
e intangíveis, vender conceitos, especialmente
em projetos novos. Para um projeto desse tipo,
você tem que sensibilizar a direção da empresa
vendendo conceitos, não números.
CALDAS — Se
você tiver um projeto, use o projeto. Às vezes,
o próprio negócio vai justificar o investimento,
e a área de TI vai ser só um catalisador, um suporte.
PINTO — O
que vai mandar na realidade é o business. Eu,
por exemplo, sou medido até por carro que fica
parado na produção por problema de sistema.
TORTOSA — Com
uma justificativa dessas você não publica o ROI,
você apresenta justificativas estratégicas.
PINTO — No
processo de hosting do Celta e do Corsa, fui obrigado
a calcular quantas vendas a gente perde se o sistema
ficar parado. É difícil de determinar, porque
o site está lá, sempre disponível. Então peguei
estatísticas de consumo e fiz uma extrapolação.
Sem contar as sondagens: o site tem 1 milhão de
hits por dia.
ANTUNES — Quando
existe um projeto de negócio, você sempre tem
um parceiro para ir pedir dinheiro junto. Quando
a iniciativa é da área de TI, aí o negócio é fazer
lobby com todo mundo, para ganhar massa crítica,
e nesse processo você vai transformando expectativas
em números. É lógico que ninguém é louco de levar
um assunto estratégico sem ter pautado o retorno.
Mas a dificuldade é que, dependendo do tamanho
do que você está terceirizando, você precisa mostrar
tudo para vários parceiros de negócio, a área
produtiva, a financeira, a industrial, a comercial.
FARIA — Eu
queria discutir o assunto de forma diferente.
Estou na quarta instalação de hosting, desde 1995,
duas de mainframe e duas de plataformas RISC com
SAP. Esbarramos sempre nos mesmos problemas. Para
mim, hosting não é um projeto de TI, é um projeto
estratégico da empresa. Por quê? Somos uma empresa
nacional e queremos crescer no exterior? Queremos.
Queremos comprar empresas no Brasil? Queremos.
Isso tudo é estratégia e acaba culminando num
projeto, digamos, de hosting. Outra coisa é que
você vai adicionar serviços no contrato inicial.
Na VCP Votorantim Celulose e Papel, começamos
com hosting e temos help desk, monitoração de
LAN e de WAN, archiving (sistema de arquivamento
automático de dados), distribuição de software.
Você ganha em capacidade de crescimento. Para
resumir, acho que a expressão usada, “projeto
de TI”, é polêmica. Dentro da VCP, eu tento mudar
essa expressão: é um projeto da VCP. TI só dá
suporte. Quando vamos ampliar a fábrica, de x
toneladas para y toneladas, são os engenheiros
que fazem o projeto. Mas ninguém chama isso de
“projeto de engenharia”.
BIRMAN — A
Rhodia tem um modelo misto, um pouco de web hosting,
um pouco de processamento na matriz e um pouco
de processamento no Brasil. Não é o que eu gostaria.
Por mim, tudo estaria fora há muito tempo. Essa
situação ficou assim justamente porque, antes
da minha gestão, tentava-se vender soluções por
meio de ROI. Nunca foi para a frente. Descobri
que, numa empresa do ramo químico, a linguagem
da análise de risco é muito mais compreensível
pela diretoria. A gente convive com risco de vazamento,
explosão, incêndio, faz parte do nosso cotidiano.
Eu absorvi essa linguagem e mostro os projetos
na forma de risco. Eu mostro um outsourcing de
CPD, uma renovação de backbone, como se fosse
mostrar uma rede de extintores de incêndio. É
um aprendizado recente. Outra coisa: o mais importante
da terceirização é o know-how. Eu admito que perdi
o know-how, não tenho massa crítica interna para
criar ou contratar gente competente e reter gente
competente. Talvez seja diferente em empresas
maiores do que a minha. Por isso tudo, buscar
competência externa é maior do que mostrar ROI.
Dificilmente eu consigo um retorno explícito dessas
movimentações. Desisti, e nem sou cobrado por
isso. Em compensação, tenho aprovado projetos.
Estamos numa recessão, mas todos os anos eu pego
uns milhõezinhos de dólares e tenho mantido um
ritmo de investimento.
CALDAS — Na
RFI que nós soltamos, apareceram 30 e tantos provedores.
Então, a tendência é o custo baixar.
FARIA — Se me permitem:
por que a TI precisa calcular o ROI? Esse é outro
problema. Estou falando de investimentos em geral,
não estou mais só falando de hosting. Hoje, eu
tento desenvolver um modelo na VCP que é o seguinte:
o ROI normalmente está na área do usuário, não
está na TI. O que acontece? Você identifica um
certo ganho para uma área, a de logística, por
exemplo, mas você agregou um custo fixo na TI.
No orçamento do próximo ano, o que vai acontecer?
CALDAS — (imitando
o tom de voz de quem reclama) Mas a TI só aumenta...
FARIA — Porque
você não criou um vínculo daquele custo fixo com
aquele projeto e aquele benefício. Neste momento
estou até em contatos com a FGV (Fundação Getúlio
Vargas), tentando consolidar um modelo que aponte
permanentemente se eu tive um custo fixo associado
a um benefício na área e que isso se perpetue,
ou seja, eu consiga levar o histórico desses apontadores
até onde precisar.
FAGUNDES — Tenho
um exemplo interessante: estamos melhorando a
LAN do prédio da diretoria, em São Bernardo do
Campo. Nesse projeto, pensamos em colocar wireless.
Aí veio a questão: como justificar o investimento?
De repente aparece um e-mail com um business case
pronto para wireless. Remetente: Richard Kane,
presidente da Ford na América do Sul. Só benefícios
intangíveis. Foi imprimir e aprovar. (risos)
IH — Até quanto se pode
esticar essa conta do ROI em favor da estratégia,
pela experiência de vocês?
FARIA — Por
exemplo, um projeto de balanced scorecards. Eu
estou num projeto desses agora. Qual é o retorno?
Você vai ter uma série de indicadores, vai ter
uma rapidez incrível, mas qual é o retorno efetivo?
Nesse caso, a questão é ser visionário. Num caso
mais simples, como hosting, aí sim, dá para ter
pesos e medidas razoáveis.
PINTO — Cada
projeto na minha empresa tem que ter uma justificativa
muito boa, porque eu concorro com a modificação
de um carro ou com o lançamento de um carro novo.
Preciso esticar cada vez mais a corda do quantificável
e usar cada vez menos a corda do estratégico.
Quando você usa o argumento do estratégico, a
empresa inteira precisa entender que esse é o
caminho. A Internet, por exemplo: as montadoras
investem pesado e a gente ainda tenta medir os
benefícios. Essa foi uma decisão estratégica.
Como é que você vai medir a eficácia dessa estratégia?
Com market-share. Voltamos à mesma história: se
não é retorno sobre o investimento, é retorno
para o acionista.
BIRMAN — Para
nenhum de nós a informática é core e é difícil
acompanhar o ritmo da indústria de TI. Eu estava
pensando, por exemplo, em Internet. Já foi difícil
comprar um bom firewall, aí tem que ter filtro
de conteúdo, depois tem que ter um outro servidor
de antivírus, a coisa vai crescendo e amanhã vão
inventar outra coisa que você vai ter que ter.
Se não tiver, você fica vulnerável. Como é difícil
acompanhar, é difícil fazer sozinho, e tudo isso
te empurra para o compartilhamento, para o hosting.
Mas aí, junto com os sistemas mais importantes,
o ERP, o CRM, vai um monte de caixinhas, dezenas
e dezenas, que não recebem o tratamento de um
ERP. Quando você põe isso num terceiro, ele não
vai deixar abandonado como você deixa, e aí encarece
a solução.
FAGUNDES
— A questão é que
tem duas variáveis que você não pode mexer: o
preço do produto no mercado e o lucro do acionista.
A única coisa que dá para manipular é o custo.
É um problema difícil: não somos mais nós que
definimos o custo. Enfrentamos esse problema agora:
o aço subiu 70%, mas ninguém admite passar o preço
do aço para o produto final. Então, o que você
tem que fazer?
ANTUNES — O
problema é o concorrente descobrir uma solução.
Se alguém conseguir uma competência que você não
conseguiu obter, você põe a empresa numa situação
complicada. Sempre dá para copiar, mas leva um
tempo, e esse tempo é irrecuperável.
FARIA — Tenho
um exemplo interessante. A VCP tem ADRs de nível
3 na Bolsa de Valores de Nova York. Com os escândalos
da Enron, WorldCom, criaram uma lei, a Sarbanes-Oxley,
que é bem simples: diz que as empresas que têm
negócios na Bolsa de Nova York precisam seguir
as best practices (melhores práticas). Na VCP,
todas as áreas foram auditadas segundo os padrões
da Sarbanes-Oxley. Na área de TI, o padrão usado
foi o COBIT (Control Objectives for Information
and related Technology). Um dos pontos positivos
nessa análise foi justamente o hosting que temos
na IBM. Então, se você não faz a lição de casa
por conta própria, vai fazer pela pressão do mercado,
ou porque não vende o seu produto, ou porque não
vende ações em Nova York.
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