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IH
— Qual a experiência de vocês com EAI?
LAURA — Temos
o Banco Cacique e a Financeira Cacique. É na financeira
que estão os grandes desafios de integração. Os
lojistas têm sua própria solução, e não querem
mudar o relacionamento com o cliente deles, lá
na loja, só por nossa causa. O legado está no
cliente da financeira, porque modernizamos bastante
as nossas instalações na época do Bug do Milênio.
Algumas integrações estão bem taylor-made (personalizadas),
bem de acordo com o legado do cliente, para a
resposta ser bem rápida.
RAMALHO — Existem
dois mundos para o Unibanco, o do varejo e o taylor-made.
No varejo, poder haver uma oferta de serviço no
sistema de caixa ou no auto-atendimento; quando
se decide oferecer aquele produto num outro canal,
na Internet, é preciso pensar na integração total,
da entrada da informação, a contabilização, no
agendamento. Não existe solução mágica de integração
no mercado. Pela diversidade de sistemas num banco,
a integração quase sempre é feita no braço, porque,
no segundo em que o usuário aperta enter, tudo
precisa acontecer. No mundo do taylor-made, de
clientes como a Volkswagen e a Embraer, será preciso
entender as ansiedades do cliente, nunca vai haver
no mercado um aplicativo pronto.
MARQUES — O
Dresdner é um banco pequeno, enxuto, com uma área
de TI pequena. Quando começamos a comprar pacotes
de software, já nos preocupávamos com a integração,
pedíamos interfaces especiais para os fabricantes.
Aí surgiu o SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro),
veio o MQSeries (software de integração de negócios
da IBM), o XML. Fizemos essa integração na velocidade
necessária. Só que, depois, compramos um pacote
para mesa de operações que era preciso integrar
com o back office. Foi a nossa primeira experiência
com soluções de EAI. Mas acabamos tentando criar
o produto antes de entender a complexidade da
integração dos dois ambientes.
IH
— Quer dizer, vocês arrumaram uma solução antes
do problema?
MARQUES — Mais
ou menos. A mesa já vinha com software da Reuters,
e tentamos fazer a empresa de quem compramos a
mesa de operações conversar com o fabricante do
nosso pacote de back office, mas é difícil colocar
duas empresas para conversar. Só a documentação
para alinhar os dois produtos deu 54 páginas.
No fim, achamos uma ferramenta de EAI, o Tibco
Integration Manager, que mapeava processos, porque
fazer a integração ligando tabela a tabela, campo
a campo não era o bastante. Está funcionando bem.
Mas teve que adaptar, não tem mágica.
RAMALHO — As
tecnologias todas têm pontos fortes e fracos numa
determinada função, mas o essencial é ter um bom
processo, senão toda a tecnologia vai afundar
com você.
SIMÕES — Nossa
preocupação é com processos. Somos responsáveis
pela Bolsa de Valores e pela Câmara Brasileira
de Liquidação e Custódia (CBLC). Uma parte dos
sistemas fica na Bolsa e na CBLC, uma parte nas
corretoras, e nós cuidamos da integração. Somos
fornecedores de um pacote de sistemas para corretoras,
chamado Sinacor. Das 115 corretoras, 100 utilizam,
por escolha delas. Por uma decisão estratégica
nossa, alguns produtos nós compramos fora, tipo
pacote. Por exemplo, o sistema de negociação é
um pacote feito por uma empresa francesa, utilizado
em mais de 20 bolsas. Só que ele roda numa plataforma
completamente diferente, HP Himalaya, com servidores
Alpha e 150 servidores Sun distribuídos nas corretoras,
que têm que se integrar com o ambiente de liquidação
e custódia. Com o SPB, criamos uma plataforma
nova baseada em Intel com soluções da Microsoft,
que tinha que se integrar com o ambiente IBM e
com o de negociação. Meu desafio não é só interligar
aplicativos, mas plataformas. Por exemplo: em
menos de um segundo, o cliente do Unibanco precisa
passar por todos os sistemas do Unibanco e da
Bovespa para concluir uma negociação. A integração
precisa ser muito boa. É difícil usar uma ferramenta
de integração comum. No nosso caso, a gente especifica,
no projeto, o nível de integração. A maior parte
dos nossos processos de integração é por mensagens
em tempo real, e existe todo um controle de processos.
Todas as análises que fizemos de ferramentas de
EAI deram em nada. Primeiro, são ferramentas muito
caras, e de imediato não se mexe no legado, então
é difícil justificar o investimento.
IH — Para deixar claro:
vocês não têm ferramenta de EAI?
SIMÕES — Depende.
Você chama o MQSeries de EAI? Você chama um BizzTalk
(o servidor de mensagens da Microsoft) de EAI?
Às vezes, pode chamar de EAI. Agora, não servem
para todas as necessidades do mercado. Usamos
BizzTalk, MQSeries, ferramentas próprias, clearing
e o Sinacor para se interligar a corretoras e
bancos. São processos e ferramentas que a gente
criou.
ALMEIDA — O
Banco Alfa inclui um banco comercial, um de investimentos,
uma financeira, uma corretora e uma empresa de
leasing. Tivemos a oportunidade rara de recriar
a tecnologia do Alfa, quando da venda do Banco
Real para o ABN-Amro. Começamos em 1999 e concluímos
em 2000 a migração de todos os sistemas para uma
plataforma Microsoft. Optamos por não desenvolver.
IH — Como a construção de
Brasília.
ALMEIDA — É,
mas Brasília com pré-moldados. Montamos uma arquitetura
toda voltada para a integração de aplicativos,
feita com padrões, passos muito definidos, orientação
a objetos, foco em processos. Com a nossa experiência
de banco grande, planejamos tudo muito bem. Mas
a empresa precisa ser muito firme e específica,
muito disciplinada, para seguir os princípios
básicos, porque isso facilita a integração com
o mundo externo. Quando a gente abre para o mundo
externo, não importa se fala XML, se manda arquivo
texto, se manda mensagem. O que importa é que,
uma vez dentro da instituição, a transação segue
um caminho claro. Para o financiamento de veículos,
a transação percorre uns dez aplicativos.
FABBRI — O
ponto fundamental é a arquitetura. Qual é a nossa
grande preocupação? No ambiente interno, você
define sua arquitetura, seja qual for. Quando
se tem um legado tradicional, acaba ficando com
uma arquitetura muito orientada a sistemas, e
aí precisa de umas camadas de software para eliminar
esse problema interno. No ambiente externo, cada
empresa tem sua arquitetura, não há padrão no
mercado. Então, é você que se preocupa com a integração
com os outros, as empresas pequenas. E não existe
software mágico. Mas essas coisas mudam rapidamente.
Quando fizermos o planejamento de 2004, em meados
de 2003, já temos que olhar como o mercado vai
mudar. A arquitetura interna eu evoluo, mas as
arquiteturas no ambiente externo proliferam. Então,
EAI é importante. Quanto mais surgem soluções
de software, mais precisa pensar nisso, porque
integração é caro.
GHETLER — O
Banco Santos só compra no mercado, seja produto
pronto, que pedimos para modificar, seja desenvolvimento
de sistemas, que especificamos. O sistema legado,
que não nos atende mais, que não tem mais aderência
com o nosso negócio como ele é hoje, esse sistema
tem que ser destruído. Isso exige decisão firme,
mas precisa ser feito. Quando entrei no Banco
Santos, havia uns 30 fornecedores, a maioria deles
picaretas mesmo, falando português claro, o destino
certo deles era a lata do lixo, e foi o que nós
fizemos. A nossa norma foi, muito mais do que
construir, destruir tudo aquilo que nos prejudicava.
E orientar nossos processos para o negócio. Se
o sistema não atende o negócio, o problema é o
sistema. Padronizamos o banco de dados, por exemplo.
Isso é grave nas empresas, pois cada pacote de
software traz seu próprio banco de dados embutido,
que depois eu tenho que sustentar. Nós só trabalhamos
com o SQL Server 2000, não abro mão em hipótese
nenhuma. Pode ser o pacote mais bonito da face
da Terra, eu pago para mudar o banco de dados,
mas não trabalho com dois bancos de dados. Não
compensa. Sou um banco pequeno, tentando ser médio,
para nós é difícil sustentar diversas tecnologias.
Uma terceira premissa, que nos deu muita tranqüilidade,
é interface baseada em web. Não importa o que
tem por trás, eu quero interface baseada em web.
Para tratar dos clientes, nós também acabamos
por construir ferramentas de integração. Nosso
foco é a pessoa jurídica, fazemos tudo taylor-made.
Temos três formas de integração com o cliente.
A primeira é o Internet banking, com toda a complexidade
que uma pessoa jurídica merece ter. A segunda
é uma ferramenta de integração que usa técnicas
de web e de EAI com entrega, envio e recepção
de dados nos padrões que o cliente deseja. É um
sistema de tradução simultânea, via web, porque
via web o backbone é grátis. A terceira é uma
ferramenta de mensagens no estilo do SPB, mensagens
com garantia de entrega, que faz a integração
com o ERP do cliente em tempo real. Recomendamos
fazer de tudo para trabalhar com plataforma única.
Quem acha que plataforma é irrelevante, acaba
com problemas de integração. O maior problema
da integração interna é o sistema feudal que a
maioria dos bancos tem internamente, que é até
pior nos bancos grandes: cada equipe acha que
o seu sistema tem que ser diferente.
RAMALHO — Qualquer
pessoa de TI adoraria ter um sistema uniformizado.
Mas, num grande banco, você fala de um mainframe
e de mil, 1.500 servidores, com todo tipo de sistema
operacional. Para padronizar isso, você vai falar
o seguinte para a área comercial: pára os investimentos
em novos negócios porque vamos padronizar tudo
internamente. Não faz sentido.
GHETLER — Eu
nem posso pensar em ter várias plataformas, não
tenho dinheiro para isso. Precisamos extinguir
os sistemas mais velhos por questão de custo.
Hoje os bancos estão numa fase boa, então a gente
consegue pagar essa extinção. Mas não sei se amanhã
isso continua. Então, tenho que trabalhar da forma
mais eficiente possível, para ter condições de
projetar um futuro de baixo custo.
RAMALHO — Todos
temos planos assim. Hoje, existe cada vez menos
VSAM, por exemplo, porque os bancos sabem que
ir para DB2 é melhor. Mas não dá para mexer no
mainframe. O número de operações simultâneas é
muito alto.
LAURA — Conhecendo
a dificuldade do Unibanco para fazer essas mudanças,
quando eu fui para o Cacique aproveitei o momento
do Bug do Milênio para uniformizar tudo. Para
o banco nós temos um tipo de plataforma, para
a financeira outra, mas ficou organizado. Mas,
realmente, em banco grande a coisa é complicada.
SIMÕES — Nós
temos que reduzir a quantidade de plataformas
para facilitar a integração. A não ser que, pela
padronização da tecnologia, você perca alguma
coisa em termos de negócio. Vou dar um exemplo:
como a bolsa precisa de um processo ininterrupto,
sou obrigado a usar equipamento non-stop, que
é o Himalaya. Eu quero reduzir todas as minhas
plataformas a uma só, mas essa non-stop eu não
consigo. Daí a necessidade de integração.
ALMEIDA — A
gente polarizou a discussão para o grande e pequeno.
Vamos colocar do ponto de vista teórico. Nenhum
CIO prefere um ambiente multiplataforma, mas uns
conseguem mais uniformização, outros menos. Mas
qual é o próximo passo para onde todos estão caminhando?
Desde o mainframe até a baixa plataforma, os web
services devem ser os grandes integradores de
negócios.
GHETLER — Nós
usamos web services há mais ou menos dois anos,
até porque usamos o .NET há quase três. Uma coisa
interessante é que há uma grande ilusão sobre
o poder dos web services. Eles são importantes
entre empresas. Mas, se estamos apelando para
os web services dentro da empresa, é porque já
existem feudos dentro da empresa, é porque a vaca
já foi para o brejo.
ALMEIDA — Com
certeza!
GHETLER — Normalmente,
quando vamos partir para um novo sistema, a pergunta
é: quanto vai custar? Mas façam um estudo sério
de quanto custa um sistema legado antes de criticar
um sistema novo. É um valor alto, e aquilo não
é teu ativo. Tem um monte de coisas no legado
que o banco nem usa mais. Tem sistema de cálculo
da BTN, a BTN não volta mais, mas tem que dar
manutenção, para que o sistema da BTN não pare.
Um sistema novo vem limpo. Aí você pode dizer:
o sistema novo não faz tudo que eu preciso. Mas
será que eu preciso de tudo aquilo que o sistema
velho fazia?
FABBRI — pan class="txt_10">Vale
o negócio.
GHETLER — Vale
o negócio. Se o negócio é x, eu não preciso ter
um sistema y. Eu tenho um sistema y porque já
tinha.
RAMALHO — No
Unibanco temos uma área que a gente chama de perdigueiros.
O perdigueiro faz um trabalho funcional, ou seja,
tirar o lixão. Então, Ghetler, nós temos esse
conceito.
ALMEIDA — Uma
das funções da ferramenta de EAI, de integração,
é justamente a de garantir a troca do legado.
Como o Ramalho mostrou, quando você tira uma peça
e ela arrasta um monte de sistemas, então os sistemas
não estão integrados, eles estão ligados. Eu sei
disso porque a gente tem essa herança do passado,
as conexões ponto a ponto entre sistemas.
GHETLER — Acontece
o seguinte: em qualquer ambiente no qual eu tenha
várias camadas, várias plataformas se comunicando,
eu deveria usar uma ferramenta de EAI decente,
seja interna, seja externa, mas que me permita
essa abstração de tirar partes e atualizar essas
partes sem um risco tão grande, como foi dito
nesta mesa. A ferramenta de EAI é um virador de
pratinho profissional, faz parecer que está tudo
funcionando. A idéia de usar essas ferramentas
tem que ser provisória. Essa característica de
integração fácil, como o Almeida falou, tem que
ser nativa da plataforma. A ferramenta de EAI
é cada dia mais necessária, só que deve ser provisória.
RAMALHO — Os
grandes bancos têm tudo muito bem separado. Mas,
por mais que você tenha isso bem segmentado em
níveis, a camada de apresentação, os componentes
de negócio e os drivers de chamada desses componentes
de negócio, vai ter impactos. Agora, do ponto
de vista de negócio é transparente, exatamente
como o Ghetler falou. No fundo, a questão é quão
rápido você entrega produtos novos, e a que custo.
MARQUES — O
desafio é ter uma ferramenta que ajude a trocar
legados ou mesmo pacotes. Isso é o ideal.
IH — E isso existe?
MARQUES —
Essa mágica ainda não existe.
GHETLER — Existe
também o problema da venda interna. Falar em tirar
um sistema que está há 30 anos funcionando para
colocar outro parece coisa absurda. Parece quixotesco.
Vender isso, sem que os usuários entrem em pânico
e nós sejamos demitidos, esse é o desafio.
RAMALHO — O
profissional de TI precisa ser mais habilidoso
na arte de vender.
SIMÕES — Uma
ferramenta do tipo EAI é muito importante, é um
meio de mudar a arquitetura com o menor impacto
possível no negócio. Só que o custo dessas ferramentas
é incompatível com algo de uso provisório.
Isso porque os dois ambientes, o velho e o novo,
mais a ferramenta de EAI, convivem por um tempo.
Então, é difícil justificar o custo da operação:
você reduz o custo ao sair da plataforma antiga,
mas soma o custo de desenvolvimento de um novo
sistema e o custo de uma ferramenta que você vai
jogar fora depois. Então, acho que tem aí um descompasso
no esquema dos fornecedores.
IH — Isso é assim para os
outros bancos?
GHETLER — Eu
tento ficar longe dessas ferramentas de EAI, quando
possível, porque todas elas têm um custo exorbitante,
e porque elas não são o objetivo. O objetivo é
estar integrado, então eu não deveria ter uma
ferramenta para me integrar. Nós também avaliamos
diversas ferramentas para integração com clientes.
Nossa prática tem sido construir módulos de EAI
específicos, com mão-de-obra terceirizada, segundo
nossas especificações. Os produtos prontos de
mercado são sempre quase o que se quer. Então
eu já mando fazer exatamente como eu quero.
FABBRI — O
custo fica equivalente ou menor?
GHETLER — Fica
menor, principalmente porque se pulveriza para
centenas, às vezes milhares de clientes. A ferramenta
de mercado você paga licença, uma por cliente,
ou uma por processador, fica caro. IH — Simões,
você conseguiu se livrar das partes indesejáveis
do seu legado, sem uma ferramenta de EAI?
SIMÕES — Muitas
vezes a gente é obrigado a passar por fases intermediárias,
de um jeito que a gente não quer, para atender
uma necessidade do negócio. Mas logo em seguida
tem que jogar para o padrão. Temos feito muito
isso. Chega um pacote com um controle de acesso
próprio, sou obrigado a usá-lo, mas já contrato
para que tenha uma aderência total ao meu controle
de acesso. Isso é o dia-a-dia.
FABBRI — Tem
uns números do Gartner: 45% das funcionalidades
de um sistema nunca são usadas e só 7% das funcionalidades
são fundamentais para o business. Quando você
tem esse número em mente, tem que desligar o lixo
e cair fora.
GHETLER — O
duro é explicar para o usuário que ele só precisa
de 7%, ele mesmo não concorda na hora de fazer
o novo sistema.
FABBRI — É
o nosso desafio.
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