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Nesta
mesa-redonda, coordenada pelo diretor editorial,
Wilson Moherdaui, e pelo editor executivo, Márcio
Simões, os eleitos do Prêmio Profissional de Tecnologia
2003 deixam uma impressão clara: estão orgulhosos
do ano que deixaram para trás, até porque foram
obrigados a lutar bravamente. Mas, a julgar pelo
que dizem Tony Facó, da TAM, e Luiz Gonzaga Simões,
da Bovespa, por exemplo, 2004 deve ser mais fácil,
em termos macroeconômicos. Todos eles, contudo,
dizem nas entrelinhas: informática é para melhorar
a qualidade, aumentar a eficiência e baixar os
custos. As três coisas juntas. Os dez eleitos
são: Carlos Eduardo Corrêa da Fonseca, diretor
executivo de tecnologia do Banco ABN-Amro Real;
German Quiroga, CIO e diretor de marketing da
Americanas.com; Luiz Gonzaga Simões, diretor de
informática da Bolsa de Valores do Estado de São
Paulo; Fernando de Abreu Faria, chefe do departamento
de informática do Banco Central do Brasil; Eduardo
Fagundes, gerente de infra-estrutura da Ford;
Fábio Faria, diretor de TI do Grupo Votorantim
(concorrendo pela Votorantim Celulose e Papel);
Washington Luiz Faria Salles, gerente executivo
de TI da Petrobras (que não participou da mesa-redonda);
Carlos Eduardo Barroso Vieira, CIO do Hospital
Israelita Albert Einstein; Tony Facó, diretor
de TI da TAM; e Rodolfo Balaniuc Dantas, superintendente
de informática da Comgás
IH
— Como vocês avaliam 2003, e quais são os principais
projetos e esperanças para 2004?
Tony Facó — 2003
foi um ano difícil para o nosso ramo. E sempre
me perguntam sobre a fusão [com a Varig], se acontece
ou não. Não sei. Sei que o governo quer resolver
um problema conjuntural, mas o problema é da Varig.
Enfim: a TAM começou o ano com previsão de prejuízo
e termina o ano com lucro. Foi um ano difícil,
mas de conquistas. Na área de informática, nosso
CPD de contingência agora é totalmente sincronizado;
a estrutura atingiu o ponto de completa resistência
a acidentes. Outra coisa importante: em 2003,
a TAM chegou a seus clientes, as agências de viagem,
sem intermediários, por meio do e-TAM, um novo
produto. É uma passagem eletrônica: você chega
ao balcão sem passagem, só diz um número. É uma
grande comodidade para o cliente. Sem a TI, o
serviço não seria possível. Já temos 3.600 agências
conectadas; em volume de passagens, 80% do trabalho
está feito, porque as maiores agências já estão
conectadas. Esse acesso é um aplicativo específico
para agências de viagem, que publicamos na Internet.
Em 2004, vamos aumentar o número de conexões com
agências de turismo. Queremos chegar a umas 12
mil. A empresa aérea é um bom termômetro da economia.
Antes que os números indiquem uma recuperação
econômica, a gente vê o executivo viajando de
novo. É o que temos visto.
IH — A expectativa de fusão
atravancou algum projeto da TI?
Facó — Não.
O trabalho de planejamento tem sido dobrado: se
a fusão acontecer e se não acontecer. Mas a área
de TI da TAM é eficaz, uniforme, econômica. Há
oito anos, o Gelson Pizzirani, meu CIO, recebeu
uma folha de papel em branco; não havia legado.
Ele planejou para a TAM ser TCP/IP, banco de dados
relacional, cliente-servidor, Unix. Temos 86 aplicativos
rodando, todos integrados, porque foram crescendo
em torno de um modelo de dados comum e relacional.
Temos 50 servidores da linha HP, SuperDome, tudo
HP-UX; temos 75 servidores Intel; temos 5.900
pontos pendurados numa rede de comunicação de
dados de 300 pontos. É uma estrutura enxuta e
uniforme. Nos sistemas da Varig, que é mais antiga
e é grande há mais tempo que nós, a informação
não flui tão bem.
IH — Agora é a vez do Banco
Central.
Fernando de Abreu Faria —
Talvez 2003 tenha sido o
ano mais difícil, do ponto de vista orçamentário,
para o Banco Central. O governo fez cortes pesadíssimos.
Apesar disso, a área de TI fez 35 anos e fez coisas
muito importantes. A mais importante foi a consolidação
do CPD alternativo, que criamos com o Sistema
de Pagamentos Brasileiro. Está a 3 quilômetros
de distância do CPD principal. Já estava em operação,
mas, ao longo do ano, trabalhamos para transformar
a alternância de CPDs em rotina, não em crise.
Outra coisa foi a implementação e a divulgação
do portal corporativo, que facilita muito o acesso
às informações por parte de nossos clientes. Também
fizemos uma revisão completa do nosso site na
Internet, que nos tomou uns quatro meses. Quanto
aos sistemas de negócio, o banco investiu no sistema
da central de risco, que entrou em operação parcial
em dezembro; a operação total fica para os três
primeiros meses de 2004. É um trabalho em conjunto
com a Febraban, que permitirá aos bancos obter
informações de crédito sobre todos os cidadãos,
para que ninguém comprometa o salário com empréstimos
em vários bancos. Em 2003, também consolidamos
o SPB, a organização já assimilou a criticidade
desse sistema. Há dois anos, tomamos a decisão
de reduzir nossa dependência de mainframe, éramos
uma instalação 100% mainframe. O SPB já foi a
primeira mudança de rota, já optamos pelo DB2;
temos trabalhado para treinar nosso pessoal em
plataformas distribuídas, optamos por Java. Temos
trabalhado para desenvolver software dentro do
banco. Ao longo de 2004, vamos desenvolver cada
vez mais. Aliás, pela proposta enviada ao Congresso,
o orçamento do banco em 2004 volta a níveis históricos,
e isso abre perspectivas. Vamos melhorar nossa
infra-estrutura em vários setores, já publicamos
um edital para comprar ERP, queremos um focado
na diretoria de administração, à qual me reporto.
Nossa intenção é usar o pacote primeiro para o
que não temos — não vamos migrar os sistemas atuais
da área administrativa para o pacote. E vamos
refazer nosso datacenter principal.
IH — Com que freqüência vocês
trocam de CPD? Vocês trocam realmente ou fazem
simulações?
Faria — Fizemos
isso em novembro, trocamos tudo realmente, plataforma
alta e baixa, tudo passou a funcionar no site
alternativo. O melhor é que a organização não
percebeu nada.
IH — E quanto ao ABN, que
comprou o Sudameris?
Carlos Eduardo Corrêa
da Fonseca — Vínhamos de anos de inovação,
unificamos o CPD principal do banco, fizemos um
CPD reserva, trocamos todos os equipamentos das
agências, todos os ATMs, todo o call center, todo
o esquema de banco via Internet. Uma reforma geral.
Então, para nós, 2003 foi um ano de consolidação
disso tudo; fizemos uma gestão de custos mais
apurada, nos alinhamos melhor com as áreas de
negócio, identificamos os projetos prioritários
e otimizamos processos. Tenho dito e repetido
que não há nada mais caro do que fazer bem-feito
uma coisa desnecessária. O grande desafio do banco
é reduzir o custo operacional, para possibilitar
esse grande sonho, a redução da taxa de juros.
Esse será o maior desafio em 2004, e inclui integrar
os sistemas do Sudameris ainda no primeiro semestre,
além de colocar no ar diversos tipos de serviços
wireless.
IH — Onde existem as maiores
oportunidades de redução de custos?
Fonseca —Na
redução da complexidade do ambiente, o que inclui
simplificar a gestão dos contratos de serviços,
reduzir custos com telecomunicações, administrar
com atenção redobrada os contratos de licença
dos software. É um processo de gestão de detalhes.
IH — E quanto à Ford?
Eduardo Fagundes — 2003
foi um ano muito bom para a Ford no Brasil. Das
três fábricas, duas estão trabalhando 24 horas
por dia, sete dias por semana. Na fábrica de Camaçari
(Bahia), por exemplo, a previsão era ter 5 mil
funcionários em 2005; terminamos 2003 com 5.200.
Fechamos vários contratos de exportação, que deram
bom impulso à Ford brasileira. Mas, para enfrentar
a concorrência, o foco ainda é revisar processos
e contratos constantemente para baixar custos.
Uma boa parte de 2003 passamos realmente desafiando
nossos fornecedores a mudar o modelo; em alguns
contratos, conseguimos economizar até 30%. Outra
coisa: em 2003, trabalhamos muito para uma efetiva
implementação de governança de TI na América do
Sul; deixamos de ter uma área de TI local e passamos
a ter uma área comum, que atende também às operações
em outros países. Essa revisão de processos é
importante para nós, por causa das novas leis
americanas, como o Ato Sarbanes-Oxley. Fizemos
também em 2003 a convergência baseada em IP. As
videoconferências, as linhas dedicadas que usávamos
para a comunicação corporativa de voz, as comunicações
SNA, tudo isso estamos migrando para IP, para
ter uma plataforma comum de comunicação. Começamos
a usar Linux como plataforma para bancos de dados,
com servidores Intel e bancos de dados Oracle.
Começarmos a usar WebSphere (da IBM). Foram mudanças
importantes, precisamos treinar as pessoas em
Linux e em Java; antes usávamos mais mainframe.
Essas mudanças vieram associadas a uma nova metodologia
de desenvolvimento de sistemas, muito baseada
em padrões de mercado, como XP, Cobit, PMI, ITIL.
Para o ano que vem, o desafio é conseguir economias
com nossos parceiros, vamos reduzir custos na
cadeia de valor em torno da Ford. Vamos integrar
ERPs, integrar informações, mas não com EDI, porque
isso já fazemos desde 1974, mas com modelos mais
modernos, como os web services. Já existe um piloto
disso, com apoio do BNX; em 2004 o BNX será uma
realidade. Governança também deve continuar em
foco em 2004.
IH — Com sucessivos recordes
na Bovespa, a área de TI deve ter trabalhado muito...
Luiz Gonzaga Simões —
Em 1999, começou a cair bastante
o volume de papéis negociados na bolsa, o número
de transações. Bolsa é assim mesmo, cai, cai,
cai e depois sobe, sobe, sobe. É cíclico. Então,
foi quando estava caindo, com pouco volume e pouca
receita, que tomamos a decisão de investir, para
nos preparar para o retorno dos negócios. Foi
justamente nessa época que conseguimos implementar
a tempo toda uma revisão de nosso ambiente, a
infra-estrutura do sistema de negociação. Na bolsa
tudo é duplicado, tempo real, non-stop. O tempo
de resposta precisa ser baixo — e mesmo assim
o pessoal reclama. No primeiro semestre de 2003,
trocamos todos os equipamentos centrais, non-stop,
trocamos todos os servidores que ficam nas corretoras,
aumentamos a capacidade da nossa rede. Temos uma
rede privada, dedicada, para garantir desempenho
e disponibilidade. Por coincidência, uma semana
depois do mês em que concluímos tudo isso, o volume
negociado em bolsa começou a aumentar bem mais
do que prevíamos. Dobrou, por exemplo, a quantidade
de transações. Um ano atrás, quando decidimos
investir, a bolsa estava com 8 mil pontos; hoje
está com 21 mil. Esse processo de planejamento
é difícil. Se você vai conversar com um corretor
num dia bom, em que ganhou muito dinheiro, ele
diz: “Ah, no ano que vem, vai multiplicar por
quatro!” Se você vai num dia ruim, diz: “Ah, no
ano que vem, cai pela metade!” Por sorte, acertamos.
IH — Esse modelo de planejamento
estratégico é pura intuição ou foi comprado no
mercado?
Simões — É
pura bola de cristal. O planejamento é baseado
na experiência das pessoas que participam da bolsa,
que me diziam: não dá para continuar tão baixo
como está. Podia não ter dado certo, a bolsa podia
ter começado a subir só seis meses depois do investimento.
E tem outro desafio: a bolsa começou um programa
de popularização, para que, a longo prazo, as
pessoas passem a acreditar nela, como é nos Estados
Unidos. Criamos o programa Bovespa Vai a Você,
em que vamos à praia, ao aeroporto, ao clube,
à empresa. Há quatro anos, lançamos o home broker,
em que o investidor, via internet, acompanha cotações
em tempo real e, por meio de uma corretora, que
está conectada diretamente conosco, faz negócios.
Começamos a vender Letras do Tesouro Nacional
há dois anos, via Internet. Então, cada vez mais,
pela Internet a pessoa opera a bolsa, compra e
vende título público. Hoje, 13% do volume da bolsa
nasce do home broker, que inclui pessoas físicas
e jurídicas. No ano passado, as pessoas físicas
eram 15% da Bovespa; hoje, são 28%. Isso tem impacto
na área de TI. Com pessoas comuns, aumenta o número
de transações, que quase dobrou; mas o ticket
(o valor em dinheiro) de uma pessoa é muito menor
que o de uma instituição. Hoje, o valor negociado
em bolsa é quase o mesmo de quatro anos atrás;
mas o número de transações é quatro vezes maior.
É claro que, se preciso investir para atender
mais transações, e se a receita permanece a mesma,
sou obrigado a reduzir custos e a rever processos.
IH — Por exemplo? Que processos
precisam de revisão?
Simões — Vamos
ajudar as empresas a abrir o capital, colocar
ações em negociação na Bovespa. Não adianta ter
muito interessado se não tiver produto para vender;
se tiver mais procura que oferta, as ações se
valorizam além do correto. Na parte de tecnologia,
precisamos resolver um problema, os program trading,
uns robôs, programinhas para realizar negociações
automáticas. Os investidores criam modelos muito
sofisticados, que recebem um monte de informação,
como os preços dos papéis aqui, na bolsa de Nova
York, o preço do dólar, e ficam gerando automaticamente
ofertas de compra e ofertas de venda, para tentar
fechar negócios os melhores possíveis, e muitas
vezes não fecham negócio. Às vezes, você percebe
dois programinhas brigando, um oferece um centavo
a mais, o outro, dois centavos. Imaginem o que
é isso em termos de consumo de equipamentos, de
banda e tudo o mais. Não posso proibir, porque
é bom, os preços ficam mais justos. Então, se
não posso proibir, o desafio é ajudar as corretoras
a fazer isso sem que meus custos de TI estourem.
IH — Quiroga, quais são as
expectativas para 2004 na Americanas.com?
German Quiroga — A
Americanas.com é controlada pelas Lojas Americanas,
mas é uma empresa separada. Com quatro anos de
idade, temos 30% do mercado de comércio eletrônico
no Brasil. De 2002 para 2003, crescemos 70%, o
mercado cresceu 40% e nosso maior competidor,
50%. Já damos lucro líquido. Desde o princípio
temos mais ou menos os mesmos 100 funcionários
principais, dos quais 30 são de informática; estou
excluindo o pessoal de estoque, embalagem, atendimento
e televendas, que aumentou muito. Em dezembro
de 2003, chegamos a 20 mil pedidos por dia; a
conta média está em torno de 300 reais, enquanto
a conta média da loja física está em 12 reais.
Interessante é que 65% do que vendemos é eletroeletrônico,
linha branca e informática, que a loja física
só começou a vender depois do nosso sucesso. Ajudou,
é claro, o parcelamento agressivo: há três anos
vendemos com 10 ou 12 parcelas sem juros. Em termos
de informática, em 2003 o CRM começou a dar resultados.
CRM faz muita diferença. Começamos a antecipar
produtos desejados pelo nosso público, especialmente
o que já fez compras na loja virtual; 15% das
vendas já vêm pelo marketing feito por e-mail.
Esse marketing é muito orientado por data mining,
analisamos o comportamento dos clientes. Também
trabalhamos bastante na integração com fornecedores
e no treinamento de fornecedores. Antes, o fornecedor
entregava a mercadoria, a loja expunha a mercadoria
e só então ocorria a venda. Se o fornecedor não
conseguia entregar o pedido, não tinha importância,
porque o produto não estava em exposição. Na loja
virtual, começamos com estoques seguros, a gente
só vendia o que tinha em estoque. Conforme fomos
melhorando a interligação digital com os fornecedores,
começamos a trabalhar num modelo melhor para nós,
em termos de capital, o cross-docking: a gente
enxerga o estoque dos fornecedores, e se o cliente
bota um produto no carrinho, a gente reserva o
produto com o fornecedor, e se o cliente realmente
compra, só então a gente compra também. Os fornecedores
acabaram por entender que esse era o único jeito
de vender, por exemplo, produtos muito caros,
como TVs de plasma, que a loja física nem compra
porque não gira. Outro sistema importante, em
termos de investimento, foi o de business intelligence.
Somos uma empresa recente, então o banco de dados
está bem integrado. Fomos desenvolvendo painéis
de controle para cada tipo de gerente, para cada
tipo de operação, então o gerente sozinho tira
produtos do ar, muda o preço, expõe o produto
no portal, essas coisas. O sistema de precificação
automática também é resultado do BI. A gente percebeu
que muito do tempo das pessoas do comercial era
dedicado a acertar o preço, na intuição. Fomos
tentando entender como funcionava a precificação,
tentando criar regras de negócio. Resultado: os
mesmos 100 funcionários, que antes cuidavam de
mil produtos, hoje cuidam de 100 mil. Como o Simões,
também usamos robôs para acompanhar os preços
dos concorrentes.
IH — Vocês fornecem
robôs para clientes?
Quiroga — Fornecemos
comparadores de preços, que têm esses robôs embutidos.
Eles trabalham em conjunto com nossos robôs, para
não gerar tráfego demais no nosso site: em vez
de virem ao nosso sistema, exportamos nossos preços
para eles, conforme mudamos preços. Estamos até
pensando em combinar também com os concorrentes,
para evitar o tráfego excessivo gerado por robôs,
até porque é possível identificar que é um robô
concorrente visitando o site e oferecer toda uma
precificação errada.
IH — Como é a infra-estrutura
da Americanas.com?
Quiroga — Usamos
servidores Sun, o programa de servidor web é livre,
Apache, o banco de dados é Oracle e a linguagem
de desenvolvimento é Java. Usamos uma suíte de
desenvolvimento em Java muito boa, que vem da
Apple, a WebObjects. Nosso ERP e nosso gerenciador
de estoques são feitos com Oracle. O sistema de
BI foi desenvolvido internamente com uma ferramenta
gratuita, que vem no kit do SQL Server da Microsoft,
que tem um servidor OLAP muito bom. E nosso site
é totalmente integrado com a retaguarda, o ERP.
Em termos de infra-estrutura, precisamos sempre
fazer revisões completas, incluindo os processos.
Nossa taxa composta de crescimento foi de 140%
ao ano nestes quatro anos, então não há garantia
de que o que funciona hoje vá funcionar no ano
que vem. Felizmente, usamos uma série de simuladores
de carga, conseguimos até simular os efeitos da
ausência de produtos. Abrimos também um televendas,
para quem não é internauta ou não se sente à vontade
para concluir a compra via Internet, esse televendas
é 15% das vendas. Montamos uma rede de quiosques
no Rio de Janeiro, para que os clientes comprem
os produtos do site, com preços melhores, por
meio de uma venda assistida na loja. Tem dado
certo, em 2004 vamos ampliar. Também vendemos
para outras empresas, no modelo B2B2C; por exemplo,
quando você compra um modem de banda larga da
Telefônica, na verdade compra por meio da Americanas.com.
Apesar das coisas legais que fazemos, a gente
percebe que isso é só a pontinha do iceberg, há
muita oportunidade de negócio para aproveitar.
Por exemplo: a Maria Rita saiu no Fantástico e
foi um sucesso, todo mundo comentando no dia seguinte.
Resolvemos botar à venda o CD da Maria Rita, no
modelo de pré-venda. Nem sabíamos quando ia sair,
qual seria o preço ou a gravadora. Quando saiu,
já tínhamos uma série de pedidos. Numa loja física,
como você vai vender um produto que não está lá?
IH — Num hospital não há produtos virtuais,
não é, Barroso?
Carlos Eduardo Barroso Vieira
— Não. Ainda mais num
setor em que há controle de preços nas duas pontas,
a da receita e a da despesas. Na ponta das despesas,
insumos fundamentais para nós vêm da indústria
farmacêutica, com materiais e medicamentos regulamentados.
E, embora seja hospital privado, o Einstein depende
muito do pagamento das seguradoras e dos planos
de saúde usados pelo paciente, e vocês sabem,
pela mídia, a dificuldade deles. Então, as negociações
são muito difíceis nas duas pontas. Nesse cenário,
não há outro jeito senão buscar eficiência, melhorar
a qualidade e reduzir os custos. No fim das contas,
2003 foi um ano bom. O hospital passou por uma
reforma de governança muito intensa. Antes de
passar para tecnologia, um último ponto: instituições
de saúde, no mundo todo, estão se transformando
em empresas voltadas ao conhecimento. Não adianta
mais ter os melhores equipamentos de espectroscopia,
isso está virando commodity. É preciso mais, é
preciso usar nosso conhecimento para enxergar
o paciente pela ótica do paciente: estamos reformando
os processos para considerar o paciente de cardiologia,
o paciente de oncologia, o de saúde da mulher.
Não olhamos mais o hospital como vários departamentos,
uma boa UTI, uma boa hemodinâmica. Assim, definimos
os nichos de atuação do hospital na sociedade:
atividade hospitalar e atividade de ensino e pesquisa.
Em termos de informática, fizemos mais de 50 projetos
para melhorar a eficiência operacional. Melhoramos
muito os controles financeiros. Melhoramos as
contas que emitimos para convênios. Criamos ferramentas
e processos para os milhares de médicos que levam
pacientes para o Einstein. Usamos muito BI para
criar um conjunto de indicadores de qualidade
na assistência médica. Temos um banco de dados
com informações consolidadas dos últimos cinco
anos, com várias visões diferenciadas dos dados.
Melhoramos o controle de leitos: um hospital é
como um grande hotel, a taxa de ocupação dos leitos
é fator crítico de sucesso, mas a complexidade
do hospital é maior. Entre um paciente e outro,
é preciso higienizar o quarto, dar manutenção
em equipamentos críticos, etc. Isso era feito
com bips, ligações telefônicas, papeizinhos. Fizemos
um sistema de impacto, que foi integrar o ramal
dos quartos ao sistema de gestão hospitalar. Até
pensamos em usar wireless, mas o ramal era mais
prático. O funcionário disca um número, atende
uma voz, ele disca o código para indicar o status
do leito, e o sistema faz o resto. Com isso, estamos
além dos melhores benchmarks da literatura. O
resultado líquido é que conseguimos aumentar a
capacidade de internação em torno de 5% da capacidade
total do hospital. Em 2004, vamos para uma nova
geração de ERP. Os fornecedores sofreram para
entrar na lista final. Fizemos testes reais de
integração com o sistema de gestão hospitalar,
por meio de web services. Quando escolhermos o
ERP, é só aproveitar a integração que já fizemos.
Fizemos também muito trabalho de data mining,
que vamos aplicar em 2004. Então, antes, o pai
e o filho eram cada um identificados como um paciente
distinto, quando entravam no hospital. Agora,
como estamos usando data mining para criar vinculações,
já sabemos que o pai e o filho são da mesma família,
da mesma casa; isso ajuda numa assistência médica
integrada. Talvez, contudo, o principal projeto
de 2004 seja a reformulação de todo o setor de
imagem. Isso é a coisa mais promissora em medicina,
pois dá para fazer diagnósticos precisos sem invadir
o corpo humano. E esses equipamentos todos estão
virando grandes máquinas fotográficas digitais,
cujas fotos a gente transmite em rede Gigabit
Ethernet, que já instalamos, e armazena em sistemas
digitais, e sincroniza o fluxo de imagens com
o fluxo do paciente e do trabalho dentro do hospital.
Vamos trabalhar também nos módulos para a universidade
corporativa, para o hospital oferecer treinamento,
MBA em saúde. É um trabalho contínuo.
Rodolfo Balaniuc Dantas
— A Comgás foi
privatizada em 1999 e, de lá para cá, nosso trabalho
tem sido dar suporte ao crescimento da empresa.
Os acionistas investiram muito e, obviamente,
a exigência de retorno sobre o investimento é
alta. Em 1999, a empresa tinha 300 mil clientes;
em 2003, deve fechar com 500 mil. Na prática,
só agora estamos encerrando um ciclo de renovação
tecnológica, a empresa estava defasada em infra-estrutura
e aplicativos. O facão andou passando pela Comgás
também em 2003, e precisamos fazer alguma ginástica
para entregar tudo o que havíamos planejado. Dos
aplicativos, só falta um, o mais crítico, o sistema
novo de tarifação, que estamos implementando em
parceria com a Deloitte no modelo ASP, deve ficar
pronto no primeiro trimestre de 2004. Só vamos
desembolsar alguma coisa depois que o sistema
entrar no ar, e em função da quantidade de faturas
emitidas. Em 2003, implementamos um sistema de
GIS; mapeamos todos os ativos da rede, canos,
tudo. Fizemos uma experiência com equipamentos
GPS para agilizar o suporte a emergências e a
manutenção na cidade de São Paulo: todos os veículos
de emergência serão rastreados por GPS, para uma
alocação mais rápida. Usamos BI para definir as
melhores áreas de expansão. Começamos o que eu
chamo de fase 2 do ERP da Comgás, que é buscar
aqueles benefícios que todo ERP promete, mas que
só são conseguidos, se conseguidos, depois que
o usuário entende o potencial da ferramenta. Trabalhamos
também na parte de segurança, adotamos a ISO 17799.
Para 2004, além do novo billing, tem a revisão
tarifária em maio, que vale por cinco anos. O
órgão regulador exige uma série de projeções e
um business plan de 14 anos. Precisamos fornecer
dados históricos e projeções para todas as áreas
da empresa que participam das negociações. Em
conjunto com a área de operações, temos um grande
projeto de monitoramento da rede, com sensores,
que queremos integrar com os sistemas de informática.
Queremos ser mais ativos na manutenção da rede.
Também vamos automatizar mais os serviços de campo,
inclusive as empreiteiras que trabalham em instalação
e suporte.
Fábio Faria — A
VCP passou por uma grande transformação em 2003,
duplicou a capacidade de produção, apesar das
adversidades. Em celulose, o que fizer, vende.
Na parte de informática, em 2003 nós praticamente
consolidamos o modelo de governança que projetamos
em 2002; esse modelo aproveita o Cobit, porque
temos ADRs na Bolsa de Nova York e somos auditados
segundo o Cobit. Trabalhamos bastante para que
nossa área ficasse mais transparente para as outras
áreas da empresa. Trabalhamos para melhorar nossa
competência; na minha visão, a tecnologia está
disponível a quem quiser usar, mas competência
faz diferença. Em infra-estrutura, o que era do
interesse do negócio terceirizar, terceirizamos:
hospedagem de páginas web, help desk, gestão de
LAN e de WAN, armazenagem de dados, PABX e telefonia,
impressão. Trouxemos tecnologia para melhorar
processos e reduzir custos: videoconferência em
todos os endereços da empresa, armazenagem de
dados consolidada, mas também distribuída. Para
não chamarem mais a TI de caixa-preta, investimos
num portal, em que divulgamos informações e indicadores
da TI. O principal, contudo, foi o trabalho em
processos e informações; a VCP, hoje, é uma das
empresas com maior número de módulos e funcionalidades
da SAP em todo o mundo, e não é um trabalho da
TI, é um trabalho da empresa. TI viabilizou, mas
quem brigou por recursos foram os usuários. Com
a plataforma SAP, também fizemos BI e, em 2003,
implementamos o sistema de balanced scorecards.
Nos indicadores existe até o alinhamento da TI
com os negócios da empresa, porque trabalhamos
no conceito de GVA, gestão de valor agregado,
todas as áreas são obrigadas a contribuir com
valor. Para concluir, em 2003 fizemos uma análise
de deficiências, gap analysis. O Cobit tem quatro
grandes pilares e 34 grandes processos básicos;
fizemos uma análise sobre a situação da nossa
área em relação ao Cobit, com a ajuda da Deloitte,
e, para nossa satisfação, descobrimos que temos
o perfil de uma instituição financeira. E já fizemos
um plano para aproveitar oportunidades e cobrir
as deficiências. Obviamente, esse já é nosso plano
diretor para 2004. O grande trabalho é de supply
chain management, interligar tudo, fornecedores
e grandes clientes. Outro grande projeto é o portal
corporativo. Mas esses dois projetos, supply chain
e portal, vão esperar um pouco, porque eu saí
da VCP, agora trabalho na holding para o Grupo
Votorantim. Então, em 2004, a grande missão é
integrar todo o Grupo Votorantim; estamos na fase
final de seleção do ERP da Votorantim Industrial,
que corresponde a 85% do faturamento do grupo.
Seguramos um pouco o supply chain da VCP, que
está entre Oracle e SAP, porque a VCP são uns
2 mil usuários, mas o Grupo Votorantim são uns
6 mil, com potencial para chegar a 12 mil, então
precisamos tomar cuidado com as decisões.
IH — Você era o CIO de uma empresa com 2 mil
computadores e agora é o CIO
de uma empresa com 6 mil?
Faria — Não,
2.300 na VCP e uns 10 mil computadores no Grupo
Votorantim.
*** Rodolfo Balaniuc Dantas
não trabalha mais para a Comgás; é agora o gerente
de suporte a aplicativos da Shell Oil Products
Latin America.
*** Fábio Faria concorreu
ao prêmio como diretor de TI da Votorantim Celulose
e Papel; pouco antes da mesa-redonda,
contudo, foi promovido a diretor de TI de todo
o Grupo Votorantim.
glossário
B2B2C > Business
to business to consumer. Um cliente compra, via
Internet, de uma empresa, que compra, via Internet,
de outra.
Balanced scorecards >
Método pelo qual a empresa
transforma objetivos estratégicos em obrigações
mensuráveis;
as medições mostrarão se a empresa está conseguindo
atingir seus objetivos.
BNX > Brazilian
Network Exchange. Rede em construção, planejada
para o comércio eletrônico e a colaboração eletrônica
entre empresas do setor automobilístico.
Cobit > Control
objectives for information and related technology;
objetivos de controle para informática e tecnologia
associada.
Conjunto de boas práticas publicado pelo IT Governance
Institute.
Coso > Organização
privada, cuja missão é melhorar a qualidade dos
relatórios financeiros por meio de ética e boa
gestão.
Cross-docking > Pegar
o produto do fabricante e entregá-lo ao cliente
quase sem nenhuma estocagem ou manipulação intermediária.
Data mining > Vasculhar
bancos de dados em busca de padrões e de correlações.
GIS > Geographic
information system; sistema de informações geográficas.
Mostra dados na forma de mapas.
GPS > Global
Positioning System; Sistema de Posicionamento
Global. Rede de satélites que transmitem à Terra
sinais que, por meio de um cálculo, permitem ao
receptor saber em que posição geográfica (latitude
e longitude) está.
ITIL > Information
technology infrastructure library. Conjunto de
boas práticas para administrar os serviços proporcionados
pela infra-estrutura de informática.
PMI > Project
Management Institute; Instituto de Gerência de
Projetos.
Sarbanes-Oxley > O
Ato Sarbanes-Oxley, de 2002, é uma legislação
específica para proteger acionistas, isto é, evitar
escândalos como os da Enron e da WorldCom. O ato
é administrado pela SEC, a CVM norte-americana.
SCM > Supply
chain management; gestão da cadeia de abastecimento.
Sistema de informática que ajuda a administrar
o fluxo de produtos, de informações e de dinheiro
dos fabricantes de matérias-primas ao consumidor
final.
Servidor OLAP >
OLAP vem de online analytical
processing, processamento analítico online.
Tipo de banco de dados que permite analisar os
dados de muitos pontos de vista distintos.
TCP/IP > Transmition
control protocol/Internet protocol. A Internet
é feita com centenas de protocolos; os principais
são o TCP e o IP, que dão nome a todo o conjunto.
XP > Extreme
programming. Metodologia de programação que procura
garantir código de boa qualidade pelo comprometimento
do usuário o tempo todo.
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