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Telecom
— Para discutir as tecnologias aplicáveis para
o atendimento das metas de 2005, a primeira questão
é saber qual é essa demanda, o tráfego que ela
deve gerar. Qual o esforço das concessionárias
nesse sentido?
Elydio Pereira — A
Embratel terá que fazer um esforço especial porque
a nossa obrigação com as metas para 2005 envolve
a identificação das localidades com mais de cem
habitantes e distantes 30 quilômetros do último
ponto atendido pelo serviço de telefonia fixo
comutado individual. Esse dado não se encontra
em nenhum lugar. Nós temos uma empresa contratada
para esse assunto, que trabalha com mapas e pesquisas.
Em especial, para as metas de 2005, nós ainda
estamos selecionando um método. Para identificar
essas localidades pensamos em várias coisas: levantamento
aerofotogramétrico, dados levantados pelo censo,
pesquisas junto às prefeituras para identificar
a quantidade de habitantes nas localidades. Nós
não conseguimos em órgãos de governo o apoio necessário,
porque essas populações que temos que atender
não são fixas, algumas vezes surgem localidades
que depois, desaparecem. Temos que fazer um trabalho
criterioso para não deixarmos de atender as metas
— estamos falando em um universo a ser pesquisado
de 5 mil localidades — e, se errarmos na medida,
envolvemos investimentos proibitivos. .
Ivan Ribeiro de Oliveira
— Na Telemar, estamos
trabalhando na identificação das localidades desde
o meio do ano passado, a partir da experiência
de antecipação de metas de 2003. Estamos passando
em mais de 15 mil localidades e encontramos, inclusive,
a diminuição de população em diversas delas. O
nosso trabalho está sendo desenvolvido por três
empresas, estamos fotografando todas as localidades,
localizando as pessoas que dão informação. Estamos
contando população, porque os requerimentos para
esse plano são muito fortes. Estamos na fase final
de compilação disso; em maio, teremos 90% do trabalho
feito. Isso exige o deslocamento em campo e todas
essas formatações. Eu vou ter tudo disponível
para atender às duas demandas, a da Anatel e a
política, que ocorre com uma constância muito
grande. Todo ano de eleição, o político quer que
você instale telefonia domiciliar ou de uso público
na sua localidade. Hoje, dos 94 milhões de habitantes
que estão na nossa área, atendemos 78 milhões.
Agora, vamos atingir, talvez, mais uns 4 milhões
ou 5 milhões. Só a área especificamente rural
vai deixar de ser atendida.
Ralph
Heinrich — No ano passado,
o CPqD fez uma pesquisa que tinha por objetivo
amostrar o universo, que foi feita em dois vetores.
O primeiro para tentar obter a quantidade de potenciais
domicílios a serem atendidos e o segundo sobre
o valor da conta telefônica que esses domicílios
poderiam pagar ou que serviços consumiriam. Foi
uma amostra muito rápida, um trabalho estatístico
por extrapolação que mostrou que nós teríamos
aí, nessa região mais rural, o potencial de 8
milhões de residências a serem atingidas. A questão
que ficou era com que tipo de serviço. Obviamente,
voz. O mais interessante nisso tudo foi a reação
desses usuários amostrados quanto ao uso de dados,
computador, Internet, e-mail. Mesmo quando nós
contatamos cooperativas, escritórios, delegacias,
as respostas foram as mais variadas, mostrando
que existe um potencial grande de aplicação, mas
o usuário não está preparado, ele precisa ser
educado. O progresso não chegou lá, eles não demandam
telecomunicações, mas as telecomunicações podem
alavancar socialmente a região. Agora, vamos detalhar
e qualificar o perfil desse usuário considerado
não atendido, incorporando, inclusive, os não
necessariamente rurais. Às vezes, temos comunidades
na área metropolitana que, eventualmente, não
estão sendo atendidas. A rede chega, mas o serviço
não é aquele que elas conseguem pagar. Então,
modelos de negócios diferenciados são avaliados.
Silvio Genesini — Talvez
existisse um benefício grande para o país se conseguissemos
reunir essas informações, entender do que, efetivamente,
estamos falando. Imagino que a Anatel deve ter
um grande problema para fiscalizar e uma dificuldade
até para entender, já que, certamente, não tem
dados até para, de certa forma, auferir. Acho
que o censo também não tem esse número. A única
forma é a aerofotogrametria e essas outras iniciativas
que vocês comentaram para poder medir determinadas
situações, como inclusão digital. Precisamos de
uma medida melhor do que a amostra, que já é uma
evolução. Obviamente, essa não é obrigação das
operadoras, deveria ser uma preocupação do poder
público, a de ter medidas até para a gente poder
saber como estamos evoluindo. Também avaliar o
poder aquisitivo para saber se haverá demanda.
Telecom
— Qual o critério para escolher as plataformas
tecnológicas para atingir essas localidades?
Elydio — A
situação da Embratel é muito específica, aqui
não se trata de estender o atendimento às localidades
que são continuamente habitadas. A questão da
Embratel é a seguinte: 30 quilômetros de distância
do último atendido. Nós não temos saída, é satélite.
A relação custo-benefício é muito contrária à
Embratel. A questão, em termos de tecnologia,
acaba ficando fácil, nós temos que atender com
satélite. Mas precisa ser uma tecnologia de satélite
atrativa do ponto de vista do custo-benefício,
do fator de compromisso de qualidade. E preço,
temos que também tentar uma solução com melhor
uso da inovação tecnológica para baixar preço.
Ivan — O que norteia basicamente é custo e robustez
da solução tecnológica. Estamos falando de um
mercado no qual o poder aquisitivo é baixíssimo.
A Telemar, hoje, está em cerca de 17 mil localidades
atendidas e vamos ter aí mais um conjunto de localidades.
Então, o que baseia nosso custo, o investimento,
é o poder aquisitivo dessas comunidades. Hoje,
eu já atendo centenas de localidades que estariam
embutidas no PGMU 2005, porque há demanda e poder
aquisitivo. As que não estão atendidas é porque,
realmente, o poder aquisitivo é extremamente baixo.
.
Telecom — De que tecnologias você está falando?
Ivan — Basicamente
rádios monocanal e ponto-multiponto e satélite.
São as três tecnologia que, hoje, a gente vê como
possíveis para essas localidades. Esporadicamente,
pode ter um atendimento via celular que, por acaso,
ilumine uma pequena localidade dessas, mas são
exceções. Normalmente são localidades à beira
de estrada, muito próximas de outras onde tem
um ponto proeminente que atenda.
Ralph — Talvez
a cesta de tecnologia seja uma visão um pouco
mais adequada. Por exemplo, atendimento por satélite
é muito interessante em função da praticidade
e da agilidade. Mas ele carrega o custo do segmento
espacial, que não é pequeno. Tem que ser bem trabalhada
a otimização do uso do satélite e de uma forma
complementar uma tecnologia terrestre que possa
coletar ou distribuir esse acesso satélite da
melhor forma possível entre usuários de uma região
pouco densa. Esse é um dos estudos que a gente
está conduzindo, uma plataforma de rádio acesso,
trabalhando em baixa freqüência, faixa de UHF
para ter enlaces mais longos para permitir que
mais usuários possam concorrer com o mesmo acesso
e compartilhar aquele custo de infra-estrutura
elevado que é, o do segmento satélite ou outro.
Por exemplo, a gente pode chegar numa borda de
uma região atendida e acessar um backbone, acessar
a rede celular hoje com potencial de transmissão
de dados até velocidades razoavelmente elevadas,
fazer um mix de tecnologias. O que interessa é
o produto final, o preço final ao usuário. Às
vezes, até no modelo de negócio poderia ser interessante
juntar tecnologias.
Genesini — A
novidade nesses últimos tempos é o WiMax, que
promete cobertura de até 50 quilômetros. Eu também
não sou um especialista em redes, mas se isso
chegasse dessa maneira, 30 quilômetros seriam
cobertos, permitiria inclusive fazer essa mistura.
Pelo que eu entendo da evolução da tecnologia,
ainda não está claro se ela virá com viabilidade
comercial e com essa qualidade de que estão falando,
como também acho que, provavelmente, não vai ser
algo para 2005.
Elydio — As
regiões que a Embratel tem obrigação de atender
são muito distantes do último ponto de atendimento
das concessionárias locais. Se eu tentar usar
uma tecnologia desse tipo, tenho que ter um ponto
de presença a uma distância de alguns quilômetros
da localidade que eu tenho que atender. Observem
que eu tenho que atender localidades a mais de
30 quilômetros do último ponto, que não é meu.
Assim, nessa solução, teria que compartilhar com
uma operadora. Mas, para o atendimento de uma
população que não vai me dar um retorno, é preciso
fazer uma boa análise custo-benefício desse compartilhamento.
Pode ser que o barateamento que essa tecnologia
traga compense. Mas, no satélite, a gente procura
tecnologia que otimize o uso do segmento espacial.
Telecom
— Mais importante
do que baratear a plataforma do assinante é uma
tecnologia que otimize o uso espacial?
Elydio — O
segmento espacial é muito caro. Ele é um meio
raro. Então, a eletrônica que está na estação
terrena e toda a tecnologia que a gente está usando
lá, de painel solar a fonte, tem um preço, que
é compartilhado com muitos compradores de equipamento.
Toda vez que a gente dá uma solução via satélite,
o grande peso é o segmento espacial.
Telecom
— Como está a sua base de estações?
Elydio — Temos
1.396 TUPs em cerca de 1.200 localidades. Em algumas
temos duplicação. Isso porque algumas localidades
são realmente muito distantes do muito distante
e a implantação e manutenção de TUP é um desafio
especial. Em alguns deles, nós resolvemos fazer
um investimento maior, duplicamos o TUP, para
dar tempo de alguém chegar, porque se chega de
canoa, a pé, a cavalo. É claro, se puder não duplicar,
a gente não vai duplicar. Vamos duplicar onde
for necessário para não deixar um tempo de recuperação
alto.
Ralph — E
esse custo operacional fica difícil de pôr na
tarifa, porque é difícil até de medir essas intempéries.
Elydio — Esse
atendimento é um compromisso com a sociedade,
mas não tem retorno. Na Embratel, todo atendimento
e recuperação de serviço, não de infra-estrutura,
é feito com pessoal próprio. Se é um equipamento
de energia, uma fonte, nós usamos pessoal terceirizado
que é acionado pelos centros de gerência. Mas,
no serviço, nós usamos pessoal próprio. Realmente
não dá para computar isso.
Telecom
— Ivan, na Telemar qual é a equação usada para
a escolha de cada tecnologia?
Ivan
— O monocanal, em princípio,
dá mais manutenção do que o satélite, mas, isoladamente,
ainda é mais barato do que o ponto de satélite.
Como eu tenho uma quantidade muito grande de monocanal,
já tenho uma facilidade enorme de sobressalentes,
de equipamentos reserva. Como o Elydio falou,
fazer manutenção nesses locais distantes é um
problema sério. Já tivemos a figura do agente
de operação, aquele que sabe trocar um fusível,
que sabe ir lá ver se não desarmou uma chavezinha,
alguma coisa desse tipo. Mas estamos falando de
localidades muito remotas, onde não é só o poder
aquisitivo, é a questão da educação desse povo,
a questão da disponibilidade para isso. Tem lugar
que é extremamente complicado, praticamente não
tem consumo. Às vezes você tem, inclusive, essa
questão de não ter nem a forma de reclamação.
Nós temos um terceiro problema que é o fato de
que estamos chegando com telecomunicações em locais
que não têm energia elétrica. Nós tivemos que
implantar, no plano anterior, mais de 800 painéis
solares. São painéis que custam da ordem de R$
100 mil ou mais. E o problema maior é que eles
são roubados, na maior tranqüilidade. Apesar de
termos uma capilaridade bastante grande da energia
elétrica, como chegamos a 800 localidades no plano
anterior que não têm energia elétrica, imaginamos
que podemos chegar a um número muito expressivo
agora. Então, é a questão do custo de manutenção,
da facilidade e do custo de implantação. Acho
que o grande desafio que nós temos é fazer planos
compatíveis com a demanda real e com as prioridades
que tem cada um desses casos. Então, nosso caso
de implantação está muito ligado a isso, a questão
da manutenção, da segurança. Estamos vendo em
qualquer lugar do Brasil, hoje, que o aumento
de um ponto percentual no desemprego tem reflexo
diretamente proporcional no vandalismo contra
telefones públicos. Tudo isso pesa na solução
que a gente quer adotar.
Telecom
— O monocanall, embora menos seguro do ponto de
vista da qualidade de serviço, tem custo operacional
menor e uma base grande. Isso significa que, para
a Telemar, é uma solução mais barata e adequada
do que o satélite?
Ivan
— Em princípio sim, pelo
domínio que a gente já tem da tecnologia, pela
facilidade de tirar um rádio e levar debaixo do
braço, pela robustez que esse equipamento ao longo
do tempo foi adquirindo. Em princípio, é a opção
que a gente vai fazer. Mas vamos fazer uma RFP
(Request For Proposal), onde vamos colocar tudo
isso de uma maneira aberta. Se você pensar isoladamente,
se eu tivesse o mesmo custo, com certeza optaria
por satélite, porque eu teria uma operação mais
segura. Mas, hoje, o monocanal, com o conhecimento
adquirido em tantos anos, tem uma performance
razoável.
Telecom
— Essa RFP é para compra de rádio monocanal?
Ivan
— Não, é geral. Estamos
falando em alguns milhares de localidades, algo
como 6 mil a 7 mil. Vamos fazer por lotes, segmentadamente.
Nossa área de suprimentos está trabalhando nisso.
A questão é definir o critério de localidades
e estamos fechando isso com a Anatel.
Telecom
— Não há como fazer manutenção remotamente, para
baratear o custo?
Ivan
— A maior incidência
de defeito hoje é na infra-estrutura, na energia,
numa sobretensão ou numa subtensão que tira o
equipamento do ar. No centro de gerência da Telemar,
a gente tem toda a informação. Mas não adianta.
Para consertar, para repor, a manutenção tem que
ser local pois, nesses pontos remotos, as centrais
telefônicas são de baixa capacidade. Não são como
as plataformas atuais onde você tem o atendimento
computadorizado, onde faz intervenções à distância.
Elydio
— As operadoras são vítimas
do roubo, de tudo que é jeito, mas o painel solar
exerce uma atração especial. Os nossos TUPs usam
painel solar e vários são roubados. Temos supervisão,
informações razoavelmente precisas do que está
acontecendo nas nossas plataformas, a questão
é ir lá para consertar. Ainda mais quando é roubo
ou vandalismo, que exige que se transporte algum
tipo de material.
Telecom
— Vocês estão avaliando o uso da faixa de freqüência
de 450 MHz?
Ivan
— Sim, inclusive pretendemos
dar uma liberdade de apresentação de propostas.
Falando claramente, nós vamos cumprir uma obrigação,
não estamos explorando um negócio. É muito diferente.
Eu acho que o que precisa ser analisado, e o que
a gente espera, é que possamos ter plataformas
e condições que nos permitam baratear a combinação
do Capex e do Opex.
Elydio
— Em termos de TUP, até
agora, nós não identificamos como utilizar essa
tecnologia.
Ralph
— O uso da faixa de 450
MHz é muito interessante, porque a faixa de UHF
permite enlaces com baixa potência e defração,
ou seja, enlace de 50 quilômetros, às vezes 60
quilômetros, dependendo da topologia e da morfologia
do local. Isso é interessante justamente para
reunir, com uma infra-estrutura única, uma região
muito dispersa e de baixa densidade de usuários.
Por exemplo, uma célula de 50 quilômetros de raio
com certeza iria cobrir vários usuários dispersos
por aí. A questão é que hoje a faixa de 450 MHz
não está preparada para esse tipo de serviço.
A faixa de UHF hoje é toda compartilhada com vários
tipos de serviços, como radiotáxi, comunicação
de aeroportos e outros. Então, primeiro tem um
trabalho junto à Anatel no sentido de verificar
como compartilhar esse espectro de 450 MHz com
uma tecnologia de espalhamento espectral, que
é o CDMA. Ou, em última instância, talvez limpar
essa faixa, tirando esses serviços para outras
freqüências. Hoje, a faixa de 450 MHz poderia
ser utilizada por qualquer tecnologia. O que está
sendo hoje experimentado é o CDMA, na versão EVDO,
que é um transporte digital maior que 2 Mbps por
canal. O CDMA tanto pode ser uma plataforma de
acesso direto para voz e dados em baixa velocidade
como também pode ser uma ponta de rede para um
acesso distribuindo esses 2 megabits entre os
usuários locais, quer sejam de dados, quer sejam
de voz. Eu conheço três fabricantes que estão
comercializando essa plataforma no mundo. Não
sei qual é o custo-benefício da implantação dela
depois. Com certeza vai ter algum ganho em cima
dos monocanais, porque vêm com tecnologia nova.
Telecom
— Não seria uma solução mais cara?
Ralph
— Depende. Ela desloca
os custos. Por exemplo, o monocanal tem os custos
balanceados entre o custo da terminação de usuário
e aquela que fica na estação. Uma plataforma desse
tipo é muito parecida com a celular, onde os custos
são deslocados para infra-estrutura. A estação
radiobase carrega os custos principais e o terminal
de usuário é bem mais simples. Mas eu não tenho
nenhum case numérico para dizer como é que isso
fica.
Telecom
— Você está acompanhando os testes de campo que
estão sendo feitos em Campinas
e Brasília?
Ralph
— Nós estamos envolvidos
na questão de propagação e radiointerferência,
não do uso da plataforma. É mais do ponto de vista
de convivência desse sistema com os serviços que
usam o mesmo espectro, as condições de convivência
e a limpeza de espectro necessária.
Telecom
— Hoje, existe uma grande oferta de capacidade
satelital. Isso não fez cairem os preços?
Elydio
— Nós estamos lançando,
via Star One, empresa do nosso grupo, mais um
satélite C-1, porque estamos precisando de mais
capacidade espacial. O satélite tem questões que
são muito peculiares, como a possibilidade de
explodir no lançamento. Se isso ocorre, não há
tempo de reação. Então, é preciso ter plano de
contingência, com várias alternativas. Mas a única
que é garantida é ter outro pronto para lançar
se o primeiro explodir. Essas coisas fazem o segmento
espacial ser caro, mesmo com a competição.
Telecom
— Nas localidades
acima de 600 habitantes, incluidas nas metas de
2003,
como é o tráfego, hoje?
Ivan
— Muito pequeno. A Telemar
tem mais de 8.200 localidades com atendimento
individual e em cerca de 60 delas não há nenhuma
linha telefônica funcionando. E temos um total
de mil localidades entre essas 8 mil que têm até
dez linhas funcionando. Em algumas teve demanda
só no início. Também em 106 localidades, das cerca
de 8.600 que são atendidas só com TUP, no consumo
de um mês, no ano passado, nenhuma ligação foi
feita. Eu, pessoalmente, não sou contra colocar
TUP em localidades menores, acho importante do
ponto de vista social para emergências. Mesmo
que não tenham tráfego. O que sentimos nas novas
obrigações é que vamos atingir um contingente
muito maior e ficamos preocupados em dispersar
recursos para investimentos, que hoje são escassos.
Isso pode fazer com que boa parte do que seja
implantado tenha um ganho virtual, não real.
Elydio
— Eu tenho informações
de localidades em que, realmente, não se gera
chamada. Mas concordo que, do ponto de vista de
cidadão, é importante colocar o TUP. Nós temos
outra obrigação e essa até gera um tráfego um
pouco maior, é mais dinâmica, que é o serviço
móvel marítimo.
Ralph
— Eu queria comentar
ainda o uso da faixa de 450 MHz. Eu acho que satélite
é, efetivamente, uma solução óbvia para o Brasil.
Agora, eu acho que para o país, como um todo,
as experiências em volta do CDMA como tecnologia
e do 450 MHz, pensando no SCD (Serviço de Comunicações
Digitais) que vai levar dados, é uma solução importante
na qual precisamos evoluir. Uma mistura de satélite
com soluções de dados CDMA nessa velocidade é
um mix de tecnologia que, para mim, faz muito
sentido.
Telecom
— E o terminal para
essa faixa?
Ralph
— Esse é um dos pontos
a serem bem discutidos. O terminal vira um problema
em função da escala, estamos falando de escala
relativamente baixa para atendimento remoto. Por
outro lado, ele já vem sendo aplicado em outros
lugares do mundo. Nesse caso está se tentando
utilizar o mesmo espectro que se utiliza lá fora
para se ter escala global. Hoje, existem terminais
que são portáteis, como os nossos celulares, e
os de mesa para dados. Eu acho que isso deve resolver,
num primeiro momento, esse tipo de questão, permitindo
ampliação da rede.
Telecom
— Algumas pessoas
defendem a necessidade de se rever algumas metas
do acesso individual, tendo em vista a demanda
atual em localidades muito pequenas, e fazer um
trade off dessas metas com um outro tipo de demanda
que pudesse ter um retorno social mais relevante
para o país. Como vocês vêem essa questão?
Genesini
— Embora o PGMU seja
um decreto do presidente da República, o que traz
certa dificuldade para que seja alterado, acho
que essa é uma discussão que o Minicom e a Anatel
deveriam fazer. Um caminho fácil é dizer: está
escrito no contrato de concessão, os operadores
têm que fazer e vamos em frente porque é uma obrigação,
era um custo que já estava previsto quando foi
feita a privatização. Eu acho que está claro,
neste instante, que aquela intenção inicial do
modelo, que era de colocar a infra-estrutura que
ela geraria demanda, como era impossível prever
com tanta antecedência, se esgotou. O próprio
governo, no contrato de 2006 e no SCD, privilegia
ações comunitárias, ao contrário das individuais.
Eu também acho que o TUP tem uma razão até social,
mas o acesso individual parece não ter sentido.
Luiz
Felippe Abreu (devido
a um imprevisto, o diretor da BrT só participou
da discussão a partir deste momento) —
Houve uma degradação de muitos indicadores econômicos
e isso não estava traçado com essa perfeição nos
cenários que foram utilizados pelo governo na
elaboração dos planos de metas de universalização.
Acho que nós temos aí uma questão muito rigorosa
para resolver, que é o fato do PGMU ser um decreto.
Mas eu vejo nesse governo espaço para discussão.
Agora, nós vamos ter que dar algo em troca e talvez
isso possa passar pela universalização do acesso
à Internet nas escolas, uma questão que está mal
resolvida.
Elydio
— Essa questão do trade
off é muito interessante. Temos que buscar os
objetivos iniciais que é saber como sociedade
fica atendida por obrigação de alguém que tem
concessão para prestar serviço. É importante discutir
qual a obrigação social que a concessionária deve
ter para atender o interesse da sociedade, eventualmente
com a universalização de acesso à Internet e outras
coisas desse tipo.
Abreu
— Talvez o custo desse
atendimento deva ser subsidiado. Se há, realmente,
a necessidade social de atender as localidades
com cem habitantes, que se especifique quais são
os custos disso e que haja um mecanismo de subsídio.
Genesini
— Acho que uma questão
a ser debatida também é a de fazer a comunidade
se registrar e dizer se quer um TUP. Fazer esse
negócio nascer de baixo para cima seria muito
importante, porque cria a responsabilidade de
alguém que está lá num determinado lugar ao dizer
o que quer, que tem necessidade, que vai manter
e usar.
Ralph
— Fizemos metas numéricas,
sem descobrir quem é o cidadão que estamos olhando,
o que ele quer e onde está. A gente não sabe,
exatamente, quem tem que atender. O modelo de
negócio envolve trazer a sociedade para dentro
do negócio. O que já foi estudado mostra que o
modelo existente de inserção de cima para baixo
do serviço é muito ineficiente. Trazer a sociedade
dessa forma, se cadastrando, cooperando num modelo
diferenciado, de forma a já entregar o tráfego
agregado num ponto interessante de conexão com
a rede pública com a operadora local, traria esse
comprometimento das duas partes, com a certeza
de que o serviço estaria chegando, aí sim, no
objetivo dele no local final de aplicação.
Ivan
— Essa discussão passa
muito pelo campo político, não só pelo decreto.
Eu cheguei a falar isso na gestão passada da Anatel,
para o antigo presidente e ele disse assim: “Mas
quem é que vai falar com os deputados?” Essa é
a grande discussão que eu vejo no Brasil, a gente
não consegue ter uma discussão madura sobre o
assunto. Hoje, todo mundo está falando da inclusão
digital e eu acho que ela é fundamental, mas quero
fazer um programa que fique, que dure, um investimento
que seja rentabilizado, que traga o benefício
de que a sociedade precisa. Não consigo ver isso
nessa obrigação de telefonia individual para localidades
abaixo de 600 habitantes. Acho que teria que ser
feita uma discussão sobre isso de uma forma adequada,
identificar cada operadora, qual investimento
que ela teria de fazer e esse investimento teria
que ser feito em algo discutido, como nós estamos
falando de inclusão digital e, eventualmente,
algumas outras coisas que poderiam ser feitas
e colocadas de uma maneira a que se aproveitasse
muito mais o investimento do ponto de vista social.
Nós somos um país pobre, temos pouquíssimo dinheiro
para investir, e a gente precisa alocá-lo da maneira
mais condizente com uma discussão aberta dos prós
e contra das metas propostas. Não estou advogando
virada de mesa, a Telemar está se preparando para
cumprir as metas de 2005. Mas, havendo espaço,
essa discussão deveria ser feita o mais rapidamente
possível, porque o tempo está correndo. Preciso
de pelo menos um ano para cumprir todas essas
metas, nós estamos já adiantados, tivemos uma
experiência com o plano anterior que envolveu
12 mil localidades e investimentos da ordem de
R$ 2 bilhões.
Telecom
— Segundo o MEC, há um grande número de escolas
públicas — 60% delas —que não têm telefone, tem
só orelhão na porta...
Ivan
— A maior parte dessas
escolas está dentro de localidades atendidas e
as escolas não têm o dinheiro para pagar a conta
telefônica. Todas as teles têm capacidade ociosa,
nós estamos atrás de clientes. Não estamos só
atrás de cliente corporativo, estamos atrás de
cliente que pague só assinatura também, se for
o caso.
Genesini
— E teria muito mais
benefício por uma linha individual em cada escola
do que colocar acesso individual em locais de
301 habitantes.
Abreu
— Eu acho que o Ivan
colocou um ponto crucial, que é a questão política.
Essas metas de universalização são entendidas
como uma conquista da sociedade. Na hora de mexer
nessa conquista, o primeiro grande problema que
nós vamos ter é fazer o convencimento de que a
gente é capaz de dar alguma coisa em troca que
mantenha o conteúdo da conquista. Mas acho que
há espaço para discutir.
Genesini
— Uma coisa que pode
ajudar é projetar o futuro. Provavelmente, a amostra
do CPqD poderá dizer quantas localidades seriam
atendidas, quantos clientes em cada uma das localidades,
com base no que foi feito até as metas de 2003.
Acho que vai ficar absolutamente claro que o benefício
não vai existir simplesmente porque essas localidades
não vão ter capacidade econômica de utilizar o
serviço telefônico individual.
Ralph
— Talvez falte também
gerar indicadores sociais para saber o que a universalização
está, de fato, causando de impacto em benefício
social. Mais do que conhecer demograficamente
o não atendido, a gente precisava conhecer e medir
sociologicamente o nosso público-alvo para ver
de fato: eu coloquei aquele TUP ali, o que aconteceu?
E isso realimentar todo o plano de metas para
melhorar dali para a frente.
Abreu
— Medir quais foram os
impactos reais dessa universalização é ponto de
partida. Se nós queremos convencer alguém de que
esse pacote de benefícios gerou talvez um resultado
que não é exatamente o esperado, o ponto de partida
é mostrar isso. Eu tenho a impressão de que o
CPqD é uma entidade excelente para fazer esse
trabalho, é isento e pode ser o melhor porta-voz
para fazer essa transição. Subcontratar o sociólogo
que quiser, o economista que precisar, para rever
esse cenário.
Telecom
— Como o Luis Felippe não participou da primeira
parte do debate, gostaria que falasse, agora,
sobre como a BrT pensa em cumprir as metas de
universalização.
Abreu
— A decisão da Brasil
Telecom de concentrar esforços dentro da nossa
região foi difícil e nós aprendemos muito com
ela. Hoje, a gente sabe dizer com precisão e profundidade
quais são os indicadores de definição de demanda
na nossa região. O ponto de partida para a definição
de qual tecnologia usar ela já tem e o domínio
também. Sem dúvida, haverá uma combinação de tecnologias,
usar as que estão dominadas com as que ela pode
incorporar, por exemplo, como os rádios de 3,5
GHz e 10,5 GHz. Uma das empresas coligadas, a
Vant, tem licença para operar essa tecnologia
em praticamente todo o Brasil. Uma das ferramentas
é essa, se utilizar das suas coligadas e das parceiras
de tecnologia para fazer esse atendimento. Em
breve, a BrT deve começar sua operação móvel.
A operadora tem um grupo de trabalho pronto para
começar a colocar produtos dessa convergência
fixo-móvel, quer sejam condições comerciais, quer
sejam produtos mesmo.
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