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Universalização 2005.
 
 
Elydio Pereira, da Embratel
“ A situação da Embratel é muito específica. Mas temos saída. É o satélite.”
   
 
Ivan Ribeiro de Oliveira,
da Telemar

“ Estamos preocupados com que os ganhos das novas metas sejam virtuais. E não reais.”
   
 
Silvio Genesini,
da Accenture

“ Precisamos definir medidas até para saber como as metas estão evoluindo ”
   
 
Ralph Heinrich, CPqD
“ Temos que mudar o modelo de negócio e envolver a comunidade”
   
 
Luiz Felippe de Abreu,
da Brasil Telecom

“ A revisão das metas é uma questão delicada. Mas vejo espaço para essa discussão.”
   
As concessionárias de telecomunicações, com base nos compromissos que terão de cumprir para atender o PGMU 2005 (Programa Geral de Metas de Universalização), começam a fazer as contas sobre quantas, e quais, localidades às quais terão que oferecer o acesso individual e o acesso público (TUPs). Mas enfrentam, nesse caminho, não só a dificuldade de identificação dessas localidades, como a necessidade de investimentos para cobrir pontos remotos que, muitas vezes, desaparecem com o passar do tempo pois são regiões que concentram, temporariamente, um determinado número de moradores; ou localidades onde têm que colocar a infra-estrutura para prover o acesso individual para o qual pode não haver nenhuma demanda. Diante de uma análise mais apurada, passam a questionar o resultado desse esforço no cenário social, para saber se, realmente, haverá um benefício da extensão do acesso individual a localidades com 300 habitantes, enquanto outras demandas básicas da população, como, por exemplo, o acesso das escolas públicas à Internet e a oferta de banda larga aos telecentros comunitários e escolas de alfabetização digital não estão atendidas. Esse foi um dos temas que ganhou espaço na mesa-redonda promovida pelo Telecom para discutir como será o atendimento das metas previstas, para 2005, no PGMU. Mesmo envolvidas com a discussão qualitativa dessas metas e das contrapartidas que terão que dar à sociedade caso sejam revistas, as concessionárias se preparam para, se não houver mudança, dar início aos investimentos necessários para essa cobertura, combinando tecnologias, quando possível, para diminuir, ou mesmo compartilhar custos. Participaram do debate, Elydio Adler Pereira, diretor de projetos de rede da Embratel; Ivan Ribeiro de Oliveira, vice-presidente de assuntos corporativos da Telemar; Luiz Felippe de Abreu, diretor da Brasil Telecom; Ralph Heinrich, diretor de redes de telecomunicações da Fundação CPqD; e Silvio Genesini, sócio diretor da Accenture. A Telefônica foi convidada mas não enviou representante.
 

Telecom — Para discutir as tecnologias aplicáveis para o atendimento das metas de 2005, a primeira questão é saber qual é essa demanda, o tráfego que ela deve gerar. Qual o esforço das concessionárias nesse sentido?

Elydio Pereira — A Embratel terá que fazer um esforço especial porque a nossa obrigação com as metas para 2005 envolve a identificação das localidades com mais de cem habitantes e distantes 30 quilômetros do último ponto atendido pelo serviço de telefonia fixo comutado individual. Esse dado não se encontra em nenhum lugar. Nós temos uma empresa contratada para esse assunto, que trabalha com mapas e pesquisas. Em especial, para as metas de 2005, nós ainda estamos selecionando um método. Para identificar essas localidades pensamos em várias coisas: levantamento aerofotogramétrico, dados levantados pelo censo, pesquisas junto às prefeituras para identificar a quantidade de habitantes nas localidades. Nós não conseguimos em órgãos de governo o apoio necessário, porque essas populações que temos que atender não são fixas, algumas vezes surgem localidades que depois, desaparecem. Temos que fazer um trabalho criterioso para não deixarmos de atender as metas — estamos falando em um universo a ser pesquisado de 5 mil localidades — e, se errarmos na medida, envolvemos investimentos proibitivos. .

Ivan Ribeiro de Oliveira — Na Telemar, estamos trabalhando na identificação das localidades desde o meio do ano passado, a partir da experiência de antecipação de metas de 2003. Estamos passando em mais de 15 mil localidades e encontramos, inclusive, a diminuição de população em diversas delas. O nosso trabalho está sendo desenvolvido por três empresas, estamos fotografando todas as localidades, localizando as pessoas que dão informação. Estamos contando população, porque os requerimentos para esse plano são muito fortes. Estamos na fase final de compilação disso; em maio, teremos 90% do trabalho feito. Isso exige o deslocamento em campo e todas essas formatações. Eu vou ter tudo disponível para atender às duas demandas, a da Anatel e a política, que ocorre com uma constância muito grande. Todo ano de eleição, o político quer que você instale telefonia domiciliar ou de uso público na sua localidade. Hoje, dos 94 milhões de habitantes que estão na nossa área, atendemos 78 milhões. Agora, vamos atingir, talvez, mais uns 4 milhões ou 5 milhões. Só a área especificamente rural vai deixar de ser atendida.

Ralph Heinrich — No ano passado, o CPqD fez uma pesquisa que tinha por objetivo amostrar o universo, que foi feita em dois vetores. O primeiro para tentar obter a quantidade de potenciais domicílios a serem atendidos e o segundo sobre o valor da conta telefônica que esses domicílios poderiam pagar ou que serviços consumiriam. Foi uma amostra muito rápida, um trabalho estatístico por extrapolação que mostrou que nós teríamos aí, nessa região mais rural, o potencial de 8 milhões de residências a serem atingidas. A questão que ficou era com que tipo de serviço. Obviamente, voz. O mais interessante nisso tudo foi a reação desses usuários amostrados quanto ao uso de dados, computador, Internet, e-mail. Mesmo quando nós contatamos cooperativas, escritórios, delegacias, as respostas foram as mais variadas, mostrando que existe um potencial grande de aplicação, mas o usuário não está preparado, ele precisa ser educado. O progresso não chegou lá, eles não demandam telecomunicações, mas as telecomunicações podem alavancar socialmente a região. Agora, vamos detalhar e qualificar o perfil desse usuário considerado não atendido, incorporando, inclusive, os não necessariamente rurais. Às vezes, temos comunidades na área metropolitana que, eventualmente, não estão sendo atendidas. A rede chega, mas o serviço não é aquele que elas conseguem pagar. Então, modelos de negócios diferenciados são avaliados.

Silvio Genesini — Talvez existisse um benefício grande para o país se conseguissemos reunir essas informações, entender do que, efetivamente, estamos falando. Imagino que a Anatel deve ter um grande problema para fiscalizar e uma dificuldade até para entender, já que, certamente, não tem dados até para, de certa forma, auferir. Acho que o censo também não tem esse número. A única forma é a aerofotogrametria e essas outras iniciativas que vocês comentaram para poder medir determinadas situações, como inclusão digital. Precisamos de uma medida melhor do que a amostra, que já é uma evolução. Obviamente, essa não é obrigação das operadoras, deveria ser uma preocupação do poder público, a de ter medidas até para a gente poder saber como estamos evoluindo. Também avaliar o poder aquisitivo para saber se haverá demanda.

Telecom — Qual o critério para escolher as plataformas tecnológicas para atingir essas localidades?

Elydio — A situação da Embratel é muito específica, aqui não se trata de estender o atendimento às localidades que são continuamente habitadas. A questão da Embratel é a seguinte: 30 quilômetros de distância do último atendido. Nós não temos saída, é satélite. A relação custo-benefício é muito contrária à Embratel. A questão, em termos de tecnologia, acaba ficando fácil, nós temos que atender com satélite. Mas precisa ser uma tecnologia de satélite atrativa do ponto de vista do custo-benefício, do fator de compromisso de qualidade. E preço, temos que também tentar uma solução com melhor uso da inovação tecnológica para baixar preço. Ivan — O que norteia basicamente é custo e robustez da solução tecnológica. Estamos falando de um mercado no qual o poder aquisitivo é baixíssimo. A Telemar, hoje, está em cerca de 17 mil localidades atendidas e vamos ter aí mais um conjunto de localidades. Então, o que baseia nosso custo, o investimento, é o poder aquisitivo dessas comunidades. Hoje, eu já atendo centenas de localidades que estariam embutidas no PGMU 2005, porque há demanda e poder aquisitivo. As que não estão atendidas é porque, realmente, o poder aquisitivo é extremamente baixo. .

Telecom — De que tecnologias você está falando?


Ivan — Basicamente rádios monocanal e ponto-multiponto e satélite. São as três tecnologia que, hoje, a gente vê como possíveis para essas localidades. Esporadicamente, pode ter um atendimento via celular que, por acaso, ilumine uma pequena localidade dessas, mas são exceções. Normalmente são localidades à beira de estrada, muito próximas de outras onde tem um ponto proeminente que atenda.

Ralph — Talvez a cesta de tecnologia seja uma visão um pouco mais adequada. Por exemplo, atendimento por satélite é muito interessante em função da praticidade e da agilidade. Mas ele carrega o custo do segmento espacial, que não é pequeno. Tem que ser bem trabalhada a otimização do uso do satélite e de uma forma complementar uma tecnologia terrestre que possa coletar ou distribuir esse acesso satélite da melhor forma possível entre usuários de uma região pouco densa. Esse é um dos estudos que a gente está conduzindo, uma plataforma de rádio acesso, trabalhando em baixa freqüência, faixa de UHF para ter enlaces mais longos para permitir que mais usuários possam concorrer com o mesmo acesso e compartilhar aquele custo de infra-estrutura elevado que é, o do segmento satélite ou outro. Por exemplo, a gente pode chegar numa borda de uma região atendida e acessar um backbone, acessar a rede celular hoje com potencial de transmissão de dados até velocidades razoavelmente elevadas, fazer um mix de tecnologias. O que interessa é o produto final, o preço final ao usuário. Às vezes, até no modelo de negócio poderia ser interessante juntar tecnologias.

Genesini — A novidade nesses últimos tempos é o WiMax, que promete cobertura de até 50 quilômetros. Eu também não sou um especialista em redes, mas se isso chegasse dessa maneira, 30 quilômetros seriam cobertos, permitiria inclusive fazer essa mistura. Pelo que eu entendo da evolução da tecnologia, ainda não está claro se ela virá com viabilidade comercial e com essa qualidade de que estão falando, como também acho que, provavelmente, não vai ser algo para 2005.

Elydio — As regiões que a Embratel tem obrigação de atender são muito distantes do último ponto de atendimento das concessionárias locais. Se eu tentar usar uma tecnologia desse tipo, tenho que ter um ponto de presença a uma distância de alguns quilômetros da localidade que eu tenho que atender. Observem que eu tenho que atender localidades a mais de 30 quilômetros do último ponto, que não é meu. Assim, nessa solução, teria que compartilhar com uma operadora. Mas, para o atendimento de uma população que não vai me dar um retorno, é preciso fazer uma boa análise custo-benefício desse compartilhamento. Pode ser que o barateamento que essa tecnologia traga compense. Mas, no satélite, a gente procura tecnologia que otimize o uso do segmento espacial.

Telecom — Mais importante do que baratear a plataforma do assinante é uma tecnologia que otimize o uso espacial?

Elydio — O segmento espacial é muito caro. Ele é um meio raro. Então, a eletrônica que está na estação terrena e toda a tecnologia que a gente está usando lá, de painel solar a fonte, tem um preço, que é compartilhado com muitos compradores de equipamento. Toda vez que a gente dá uma solução via satélite, o grande peso é o segmento espacial.

Telecom — Como está a sua base de estações?

Elydio — Temos 1.396 TUPs em cerca de 1.200 localidades. Em algumas temos duplicação. Isso porque algumas localidades são realmente muito distantes do muito distante e a implantação e manutenção de TUP é um desafio especial. Em alguns deles, nós resolvemos fazer um investimento maior, duplicamos o TUP, para dar tempo de alguém chegar, porque se chega de canoa, a pé, a cavalo. É claro, se puder não duplicar, a gente não vai duplicar. Vamos duplicar onde for necessário para não deixar um tempo de recuperação alto.

Ralph —
E esse custo operacional fica difícil de pôr na tarifa, porque é difícil até de medir essas intempéries.

Elydio — Esse atendimento é um compromisso com a sociedade, mas não tem retorno. Na Embratel, todo atendimento e recuperação de serviço, não de infra-estrutura, é feito com pessoal próprio. Se é um equipamento de energia, uma fonte, nós usamos pessoal terceirizado que é acionado pelos centros de gerência. Mas, no serviço, nós usamos pessoal próprio. Realmente não dá para computar isso.

Telecom — Ivan, na Telemar qual é a equação usada para a escolha de cada tecnologia?

Ivan — O monocanal, em princípio, dá mais manutenção do que o satélite, mas, isoladamente, ainda é mais barato do que o ponto de satélite. Como eu tenho uma quantidade muito grande de monocanal, já tenho uma facilidade enorme de sobressalentes, de equipamentos reserva. Como o Elydio falou, fazer manutenção nesses locais distantes é um problema sério. Já tivemos a figura do agente de operação, aquele que sabe trocar um fusível, que sabe ir lá ver se não desarmou uma chavezinha, alguma coisa desse tipo. Mas estamos falando de localidades muito remotas, onde não é só o poder aquisitivo, é a questão da educação desse povo, a questão da disponibilidade para isso. Tem lugar que é extremamente complicado, praticamente não tem consumo. Às vezes você tem, inclusive, essa questão de não ter nem a forma de reclamação. Nós temos um terceiro problema que é o fato de que estamos chegando com telecomunicações em locais que não têm energia elétrica. Nós tivemos que implantar, no plano anterior, mais de 800 painéis solares. São painéis que custam da ordem de R$ 100 mil ou mais. E o problema maior é que eles são roubados, na maior tranqüilidade. Apesar de termos uma capilaridade bastante grande da energia elétrica, como chegamos a 800 localidades no plano anterior que não têm energia elétrica, imaginamos que podemos chegar a um número muito expressivo agora. Então, é a questão do custo de manutenção, da facilidade e do custo de implantação. Acho que o grande desafio que nós temos é fazer planos compatíveis com a demanda real e com as prioridades que tem cada um desses casos. Então, nosso caso de implantação está muito ligado a isso, a questão da manutenção, da segurança. Estamos vendo em qualquer lugar do Brasil, hoje, que o aumento de um ponto percentual no desemprego tem reflexo diretamente proporcional no vandalismo contra telefones públicos. Tudo isso pesa na solução que a gente quer adotar.

Telecom — O monocanall, embora menos seguro do ponto de vista da qualidade de serviço, tem custo operacional menor e uma base grande. Isso significa que, para a Telemar, é uma solução mais barata e adequada do que o satélite?

Ivan — Em princípio sim, pelo domínio que a gente já tem da tecnologia, pela facilidade de tirar um rádio e levar debaixo do braço, pela robustez que esse equipamento ao longo do tempo foi adquirindo. Em princípio, é a opção que a gente vai fazer. Mas vamos fazer uma RFP (Request For Proposal), onde vamos colocar tudo isso de uma maneira aberta. Se você pensar isoladamente, se eu tivesse o mesmo custo, com certeza optaria por satélite, porque eu teria uma operação mais segura. Mas, hoje, o monocanal, com o conhecimento adquirido em tantos anos, tem uma performance razoável.

Telecom — Essa RFP é para compra de rádio monocanal?

Ivan — Não, é geral. Estamos falando em alguns milhares de localidades, algo como 6 mil a 7 mil. Vamos fazer por lotes, segmentadamente. Nossa área de suprimentos está trabalhando nisso. A questão é definir o critério de localidades e estamos fechando isso com a Anatel.

Telecom — Não há como fazer manutenção remotamente, para baratear o custo?

Ivan — A maior incidência de defeito hoje é na infra-estrutura, na energia, numa sobretensão ou numa subtensão que tira o equipamento do ar. No centro de gerência da Telemar, a gente tem toda a informação. Mas não adianta. Para consertar, para repor, a manutenção tem que ser local pois, nesses pontos remotos, as centrais telefônicas são de baixa capacidade. Não são como as plataformas atuais onde você tem o atendimento computadorizado, onde faz intervenções à distância.

Elydio — As operadoras são vítimas do roubo, de tudo que é jeito, mas o painel solar exerce uma atração especial. Os nossos TUPs usam painel solar e vários são roubados. Temos supervisão, informações razoavelmente precisas do que está acontecendo nas nossas plataformas, a questão é ir lá para consertar. Ainda mais quando é roubo ou vandalismo, que exige que se transporte algum tipo de material.

Telecom — Vocês estão avaliando o uso da faixa de freqüência de 450 MHz?

Ivan — Sim, inclusive pretendemos dar uma liberdade de apresentação de propostas. Falando claramente, nós vamos cumprir uma obrigação, não estamos explorando um negócio. É muito diferente. Eu acho que o que precisa ser analisado, e o que a gente espera, é que possamos ter plataformas e condições que nos permitam baratear a combinação do Capex e do Opex.

Elydio — Em termos de TUP, até agora, nós não identificamos como utilizar essa tecnologia.

Ralph — O uso da faixa de 450 MHz é muito interessante, porque a faixa de UHF permite enlaces com baixa potência e defração, ou seja, enlace de 50 quilômetros, às vezes 60 quilômetros, dependendo da topologia e da morfologia do local. Isso é interessante justamente para reunir, com uma infra-estrutura única, uma região muito dispersa e de baixa densidade de usuários. Por exemplo, uma célula de 50 quilômetros de raio com certeza iria cobrir vários usuários dispersos por aí. A questão é que hoje a faixa de 450 MHz não está preparada para esse tipo de serviço. A faixa de UHF hoje é toda compartilhada com vários tipos de serviços, como radiotáxi, comunicação de aeroportos e outros. Então, primeiro tem um trabalho junto à Anatel no sentido de verificar como compartilhar esse espectro de 450 MHz com uma tecnologia de espalhamento espectral, que é o CDMA. Ou, em última instância, talvez limpar essa faixa, tirando esses serviços para outras freqüências. Hoje, a faixa de 450 MHz poderia ser utilizada por qualquer tecnologia. O que está sendo hoje experimentado é o CDMA, na versão EVDO, que é um transporte digital maior que 2 Mbps por canal. O CDMA tanto pode ser uma plataforma de acesso direto para voz e dados em baixa velocidade como também pode ser uma ponta de rede para um acesso distribuindo esses 2 megabits entre os usuários locais, quer sejam de dados, quer sejam de voz. Eu conheço três fabricantes que estão comercializando essa plataforma no mundo. Não sei qual é o custo-benefício da implantação dela depois. Com certeza vai ter algum ganho em cima dos monocanais, porque vêm com tecnologia nova.

Telecom — Não seria uma solução mais cara?

Ralph — Depende. Ela desloca os custos. Por exemplo, o monocanal tem os custos balanceados entre o custo da terminação de usuário e aquela que fica na estação. Uma plataforma desse tipo é muito parecida com a celular, onde os custos são deslocados para infra-estrutura. A estação radiobase carrega os custos principais e o terminal de usuário é bem mais simples. Mas eu não tenho nenhum case numérico para dizer como é que isso fica.

Telecom — Você está acompanhando os testes de campo que estão sendo feitos em Campinas
e Brasília?

Ralph — Nós estamos envolvidos na questão de propagação e radiointerferência, não do uso da plataforma. É mais do ponto de vista de convivência desse sistema com os serviços que usam o mesmo espectro, as condições de convivência e a limpeza de espectro necessária.

Telecom — Hoje, existe uma grande oferta de capacidade satelital. Isso não fez cairem os preços?

Elydio — Nós estamos lançando, via Star One, empresa do nosso grupo, mais um satélite C-1, porque estamos precisando de mais capacidade espacial. O satélite tem questões que são muito peculiares, como a possibilidade de explodir no lançamento. Se isso ocorre, não há tempo de reação. Então, é preciso ter plano de contingência, com várias alternativas. Mas a única que é garantida é ter outro pronto para lançar se o primeiro explodir. Essas coisas fazem o segmento espacial ser caro, mesmo com a competição.

Telecom — Nas localidades acima de 600 habitantes, incluidas nas metas de 2003,
como é o tráfego, hoje?

Ivan — Muito pequeno. A Telemar tem mais de 8.200 localidades com atendimento individual e em cerca de 60 delas não há nenhuma linha telefônica funcionando. E temos um total de mil localidades entre essas 8 mil que têm até dez linhas funcionando. Em algumas teve demanda só no início. Também em 106 localidades, das cerca de 8.600 que são atendidas só com TUP, no consumo de um mês, no ano passado, nenhuma ligação foi feita. Eu, pessoalmente, não sou contra colocar TUP em localidades menores, acho importante do ponto de vista social para emergências. Mesmo que não tenham tráfego. O que sentimos nas novas obrigações é que vamos atingir um contingente muito maior e ficamos preocupados em dispersar recursos para investimentos, que hoje são escassos. Isso pode fazer com que boa parte do que seja implantado tenha um ganho virtual, não real.

Elydio — Eu tenho informações de localidades em que, realmente, não se gera chamada. Mas concordo que, do ponto de vista de cidadão, é importante colocar o TUP. Nós temos outra obrigação e essa até gera um tráfego um pouco maior, é mais dinâmica, que é o serviço móvel marítimo.

Ralph — Eu queria comentar ainda o uso da faixa de 450 MHz. Eu acho que satélite é, efetivamente, uma solução óbvia para o Brasil. Agora, eu acho que para o país, como um todo, as experiências em volta do CDMA como tecnologia e do 450 MHz, pensando no SCD (Serviço de Comunicações Digitais) que vai levar dados, é uma solução importante na qual precisamos evoluir. Uma mistura de satélite com soluções de dados CDMA nessa velocidade é um mix de tecnologia que, para mim, faz muito sentido.

Telecom — E o terminal para essa faixa?

Ralph — Esse é um dos pontos a serem bem discutidos. O terminal vira um problema em função da escala, estamos falando de escala relativamente baixa para atendimento remoto. Por outro lado, ele já vem sendo aplicado em outros lugares do mundo. Nesse caso está se tentando utilizar o mesmo espectro que se utiliza lá fora para se ter escala global. Hoje, existem terminais que são portáteis, como os nossos celulares, e os de mesa para dados. Eu acho que isso deve resolver, num primeiro momento, esse tipo de questão, permitindo ampliação da rede.

Telecom — Algumas pessoas defendem a necessidade de se rever algumas metas do acesso individual, tendo em vista a demanda atual em localidades muito pequenas, e fazer um trade off dessas metas com um outro tipo de demanda que pudesse ter um retorno social mais relevante para o país. Como vocês vêem essa questão?

Genesini — Embora o PGMU seja um decreto do presidente da República, o que traz certa dificuldade para que seja alterado, acho que essa é uma discussão que o Minicom e a Anatel deveriam fazer. Um caminho fácil é dizer: está escrito no contrato de concessão, os operadores têm que fazer e vamos em frente porque é uma obrigação, era um custo que já estava previsto quando foi feita a privatização. Eu acho que está claro, neste instante, que aquela intenção inicial do modelo, que era de colocar a infra-estrutura que ela geraria demanda, como era impossível prever com tanta antecedência, se esgotou. O próprio governo, no contrato de 2006 e no SCD, privilegia ações comunitárias, ao contrário das individuais. Eu também acho que o TUP tem uma razão até social, mas o acesso individual parece não ter sentido.

Luiz Felippe Abreu (devido a um imprevisto, o diretor da BrT só participou da discussão a partir deste momento) — Houve uma degradação de muitos indicadores econômicos e isso não estava traçado com essa perfeição nos cenários que foram utilizados pelo governo na elaboração dos planos de metas de universalização. Acho que nós temos aí uma questão muito rigorosa para resolver, que é o fato do PGMU ser um decreto. Mas eu vejo nesse governo espaço para discussão. Agora, nós vamos ter que dar algo em troca e talvez isso possa passar pela universalização do acesso à Internet nas escolas, uma questão que está mal resolvida.

Elydio — Essa questão do trade off é muito interessante. Temos que buscar os objetivos iniciais que é saber como sociedade fica atendida por obrigação de alguém que tem concessão para prestar serviço. É importante discutir qual a obrigação social que a concessionária deve ter para atender o interesse da sociedade, eventualmente com a universalização de acesso à Internet e outras coisas desse tipo.

Abreu — Talvez o custo desse atendimento deva ser subsidiado. Se há, realmente, a necessidade social de atender as localidades com cem habitantes, que se especifique quais são os custos disso e que haja um mecanismo de subsídio.

Genesini — Acho que uma questão a ser debatida também é a de fazer a comunidade se registrar e dizer se quer um TUP. Fazer esse negócio nascer de baixo para cima seria muito importante, porque cria a responsabilidade de alguém que está lá num determinado lugar ao dizer o que quer, que tem necessidade, que vai manter e usar.

Ralph — Fizemos metas numéricas, sem descobrir quem é o cidadão que estamos olhando, o que ele quer e onde está. A gente não sabe, exatamente, quem tem que atender. O modelo de negócio envolve trazer a sociedade para dentro do negócio. O que já foi estudado mostra que o modelo existente de inserção de cima para baixo do serviço é muito ineficiente. Trazer a sociedade dessa forma, se cadastrando, cooperando num modelo diferenciado, de forma a já entregar o tráfego agregado num ponto interessante de conexão com a rede pública com a operadora local, traria esse comprometimento das duas partes, com a certeza de que o serviço estaria chegando, aí sim, no objetivo dele no local final de aplicação.

Ivan — Essa discussão passa muito pelo campo político, não só pelo decreto. Eu cheguei a falar isso na gestão passada da Anatel, para o antigo presidente e ele disse assim: “Mas quem é que vai falar com os deputados?” Essa é a grande discussão que eu vejo no Brasil, a gente não consegue ter uma discussão madura sobre o assunto. Hoje, todo mundo está falando da inclusão digital e eu acho que ela é fundamental, mas quero fazer um programa que fique, que dure, um investimento que seja rentabilizado, que traga o benefício de que a sociedade precisa. Não consigo ver isso nessa obrigação de telefonia individual para localidades abaixo de 600 habitantes. Acho que teria que ser feita uma discussão sobre isso de uma forma adequada, identificar cada operadora, qual investimento que ela teria de fazer e esse investimento teria que ser feito em algo discutido, como nós estamos falando de inclusão digital e, eventualmente, algumas outras coisas que poderiam ser feitas e colocadas de uma maneira a que se aproveitasse muito mais o investimento do ponto de vista social. Nós somos um país pobre, temos pouquíssimo dinheiro para investir, e a gente precisa alocá-lo da maneira mais condizente com uma discussão aberta dos prós e contra das metas propostas. Não estou advogando virada de mesa, a Telemar está se preparando para cumprir as metas de 2005. Mas, havendo espaço, essa discussão deveria ser feita o mais rapidamente possível, porque o tempo está correndo. Preciso de pelo menos um ano para cumprir todas essas metas, nós estamos já adiantados, tivemos uma experiência com o plano anterior que envolveu 12 mil localidades e investimentos da ordem de R$ 2 bilhões.

Telecom — Segundo o MEC, há um grande número de escolas públicas — 60% delas —que não têm telefone, tem só orelhão na porta...

Ivan — A maior parte dessas escolas está dentro de localidades atendidas e as escolas não têm o dinheiro para pagar a conta telefônica. Todas as teles têm capacidade ociosa, nós estamos atrás de clientes. Não estamos só atrás de cliente corporativo, estamos atrás de cliente que pague só assinatura também, se for o caso.

Genesini — E teria muito mais benefício por uma linha individual em cada escola do que colocar acesso individual em locais de 301 habitantes.

Abreu — Eu acho que o Ivan colocou um ponto crucial, que é a questão política. Essas metas de universalização são entendidas como uma conquista da sociedade. Na hora de mexer nessa conquista, o primeiro grande problema que nós vamos ter é fazer o convencimento de que a gente é capaz de dar alguma coisa em troca que mantenha o conteúdo da conquista. Mas acho que há espaço para discutir.

Genesini — Uma coisa que pode ajudar é projetar o futuro. Provavelmente, a amostra do CPqD poderá dizer quantas localidades seriam atendidas, quantos clientes em cada uma das localidades, com base no que foi feito até as metas de 2003. Acho que vai ficar absolutamente claro que o benefício não vai existir simplesmente porque essas localidades não vão ter capacidade econômica de utilizar o serviço telefônico individual.

Ralph — Talvez falte também gerar indicadores sociais para saber o que a universalização está, de fato, causando de impacto em benefício social. Mais do que conhecer demograficamente o não atendido, a gente precisava conhecer e medir sociologicamente o nosso público-alvo para ver de fato: eu coloquei aquele TUP ali, o que aconteceu? E isso realimentar todo o plano de metas para melhorar dali para a frente.

Abreu — Medir quais foram os impactos reais dessa universalização é ponto de partida. Se nós queremos convencer alguém de que esse pacote de benefícios gerou talvez um resultado que não é exatamente o esperado, o ponto de partida é mostrar isso. Eu tenho a impressão de que o CPqD é uma entidade excelente para fazer esse trabalho, é isento e pode ser o melhor porta-voz para fazer essa transição. Subcontratar o sociólogo que quiser, o economista que precisar, para rever esse cenário.

Telecom — Como o Luis Felippe não participou da primeira parte do debate, gostaria que falasse, agora, sobre como a BrT pensa em cumprir as metas de universalização.

Abreu — A decisão da Brasil Telecom de concentrar esforços dentro da nossa região foi difícil e nós aprendemos muito com ela. Hoje, a gente sabe dizer com precisão e profundidade quais são os indicadores de definição de demanda na nossa região. O ponto de partida para a definição de qual tecnologia usar ela já tem e o domínio também. Sem dúvida, haverá uma combinação de tecnologias, usar as que estão dominadas com as que ela pode incorporar, por exemplo, como os rádios de 3,5 GHz e 10,5 GHz. Uma das empresas coligadas, a Vant, tem licença para operar essa tecnologia em praticamente todo o Brasil. Uma das ferramentas é essa, se utilizar das suas coligadas e das parceiras de tecnologia para fazer esse atendimento. Em breve, a BrT deve começar sua operação móvel. A operadora tem um grupo de trabalho pronto para começar a colocar produtos dessa convergência fixo-móvel, quer sejam condições comerciais, quer sejam produtos mesmo.

 
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