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IH
Ao organizar esta mesa-redonda, percebemos
que há pouca familiaridade com o tema BPM.
Então, vamos começar pelo TRF, que
já tem um projeto bem-sucedido. Como é
o projeto e quais foram as principais dificuldades?
Marcos Barbosa ANDRADE
A principal barreira a ser
vencida é cultural. Uma comissão
de juízes, e de diretores das varas desses
juízes, já se dedicou por um ano
e três meses ao trabalho de fazer o levantamento
dos processos. É uma pilha de papéis,
um trabalho muito desgastante, o usuário
fica cansado. Fizemos uma apresentação
do sistema ontem (29 de março de 2004)
e recebemos vários elogios. Os usuários
chegaram até a questionar onde estava a
pilha de papéis na interface, porque a
interface é muito simples. Mas eles viram
fluxo a fluxo, ficaram satisfeitos ao ver que
todo o trabalho está refletido na automatização.
Começamos o trabalho com as três
varas de execução fiscal do Distrito
Federal são as varas em que podemos
ter um retorno maior, porque é arrecadação
para o governo e tem trâmite rápido.
A intenção é virtualizar
todos os processos e automatizar todas as varas.
Lúcio MELRE
da Silva
Somos do TRF, mas também
implementamos todo o desenvolvimento nas varas
de execução fiscal de primeira instância,
neste caso, essas três varas da seção
judiciária do Distrito Federal. Temos dois
grandes clientes, a Procuradoria-Geral da Fazenda
Nacional e o INSS; são dois exeqüentes
que interagem diretamente com o sistema e respondem
por mais de 90% dos processos. (Exeqüente
é o que leva execuções judiciais
adiante, ou que efetiva as sanções
contidas em sentenças condenatórias.)
Esses dois órgãos participarão
bastante do projeto, pois, uma vez que estamos
virtualizando nossos processos, é necessário
que eles virtualizem os deles também. Não
adianta nada se, na hora de interagir com o exeqüente,
eu tiver que imprimir coisas e mandar para eles.
Temos três grandes grupos de usuários:
a equipe de recursos humanos, os funcionários
do protocolo e os 60 funcionários das três
varas. Para o RH, estamos trabalhando com biometria
e com certificação digital em cartões
inteligentes, trabalhamos com o Serpro, teremos
uma autoridade registradora na Justiça
Federal para gerar os cartões dos funcionários.
Estamos estruturando uma central de digitalização
para o pessoal do protocolo; o que não
vier em meio magnético, vamos digitalizar.
Quanto às varas de execução
fiscal, cada uma tem em média 20 mil processos
tramitando. Precisamos aprender muito. Estamos
usando a experiência do TRF da 3ª Região,
de São Paulo, que tem um projeto semelhante;
vamos procurar interfaces de comunicação
comuns, para que os exeqüentes não
precisem desenvolver soluções para
cada um dos TRFs.
IH
Maurício, como é a experiência
na Prodesp?
Maurício de
MORAES
Nossas iniciativas de BPM
começaram com a implementação
do BI (business intelligence), porque o BI funciona
bem para analisar o que já aconteceu, mas
não funciona muito bem para ações
em tempo real. Por isso o processo é tão
importante: qual é o processo que tenho,
o que eu pretendo, que indicadores eu quero colocar
lá na frente? Definir isso é uma
grande dificuldade, ainda mais no Estado, porque
é uma junção de várias
empresas, vários órgãos,
todos com seus sistemas, bases e processos. Nós
temos que ligar todos eles. A primeira iniciativa
de grande escala foi o Poupa Tempo, que é
da Casa Civil, mas é gerido pela Prodesp.
Nós juntamos todos os órgãos
numa espécie de shopping de serviços,
e com isso conseguimos trazer todos os processos
de todos esses órgãos para um mesmo
lugar, que a gente chama de padrão Poupa
Tempo. Mas, se o cidadão vai ao Poupa Tempo
e, por exemplo, o Detran está fora do ar,
ele diz que o Poupa Tempo é uma porcaria.
O mesmo acontece na Internet. Isso gerou a necessidade
de indicadores claros sobre o impacto de cada
sistema no serviço. Então, precisamos
mexer em todos os fluxos, para tentar criar fluxos
constantes, monitorar os processos um a um, consolidá-los.
Aí veio a necessidade de ter um painel
no qual eu veja o impacto de cada processo. Acontece
até de um órgão tirar um
serviço do ar para dar manutenção,
sem avisar os outros; isso gera um impacto, porque
os serviços param. Quando você integra
processos, o serviço torna-se uma coisa
só para a pessoa que está usando.
Então, a gente precisa monitorar bem, para
tomar as ações possíveis
e até planejar.
Ademar LEAL da Silva
Uma seguradora é praticamente
processos do começo ao fim. Então,
se você põe nos sistemas transacionais
os processos mais importantes, como os seguros
massificados, seguro de automóvel, seguro
de residência, de certa forma os principais
processos estão automatizados. Existem
dois grandes processos numa seguradora: a aceitação
do seguro e o momento dos sinistros. Temos bem
resolvidos esses dois processos para os seguros
massificados, os seguros de prateleira que são
fáceis de vender e de controlar. E os seguros
mais personalizados, os seguros industriais, esses
requerem grandes análises, precisa fazer
resseguro e co-seguro para dissipar o risco; esses
processos não estão bem resolvidos.
O que tenho visto? O analista de processos levanta
todos os fluxos, faz um caderno cheio de documentação,
aí leva para um departamento desenvolver,
começam outros questionamentos, fica difícil
implementar o trabalho do analista. Estamos buscando
automatizar esse processo do analista, para que,
já a partir do levantamento, ele possa
ter uma ferramenta que vá interagindo com
os sistemas legados. Quando a gente pensa em automatizar
os processos num BPM, precisamos trocar a cultura
do desenvolvimento de sistemas. Acho muito difícil
embutir workflow em sistemas transacionais, mas
é possível melhorar a produtividade
do analista de processos, algo com que eles possam
criar e implementar um processo.
Maurício GHETLER
O mais interessante é
o momento pelo qual estamos passando no Banco
Santos este ano. Sempre fomos um banco para pessoas
jurídicas, ou seja, poucos processos muito
automatizados, alto valor para cada negócio
concluído, mão-de-obra bem treinada
e de alto nível. Trabalhamos com dois canais
de atendimento, o gerente de conta e a Internet.
Por mais passos que existam, o número de
processos é tão pequeno que posso
ver um a um pessoalmente. Se eu tiver, por exemplo,
100 processos de crédito num dia, posso
vê-los um a um, posso ter uma pessoa de
nível responsável por isso. Mas
neste ano estamos entrando no mercado de pessoas
físicas, não como o Bradesco ou
o Itaú, mas mesmo assim os números
começam a se multiplicar por mil. Por conta
disso, começamos a ter um controle de eventos;
nem vou falar de processos, vou falar de eventos
de um processo. Começamos a fazer um controle
de eventos multicanal, porque agora entra Visa,
Tecban, Internet, telefone celular, agência
bancária, correspondente bancário.
Canais que nunca foram relevantes começam
a gerar eventos que nunca foram relevantes em
número muito elevado. Então, o controle
de processos, esse controle de eventos, começa
a se tornar realmente importante. De forma geral,
nossa área, o mercado financeiro, tem muitos
problemas para controlar processos. Temos muitos
pontos físicos e números muito elevados.
Temos até filiais de andar. Existem bancos
que mantêm uma dúzia de canais eletrônicos
distintos, todos eles funcionando. Isso é
complicado. A infra-estrutura é complexa,
derivada de sistemas para atender produtos totalmente
diferentes dentro da própria instituição.
Conexões externas, dependência de
entidades externas, como a Serasa. Estamos começando
a entrar nesse mar de problemas de BPM e esperamos
aprender um pouco com nossos colegas aqui.
Paulo SIMON
É interessante observar
que sou a primeira indústria, nesta mesa,
que faz algo além de transacionar informações.
A Monsanto, basicamente, tem produtos químicos
resultantes de processos. Sementes também,
de certa forma, só que a manufatura de
sementes não é numa linha de produção.
Tem duas formas de olhar a Monsanto. Uma delas
é pela ótica interna, e aí
a situação é simples. Há
alguns anos já temos um ERP com os dez
processos principais da empresa no Brasil inteiro;
são cerca de 20 sites, entre laboratórios
regionais de vendas e fábricas, tudo integrado
nesse ERP. Muito pouco ficou fora disso. Agora,
começamos a desenhar outras aplicações,
que usem as mesmas aplicações transacionais,
mas do ponto de vista do usuário do processo.
Por exemplo, um portal para o representante comercial,
com uma série de informações.
Outra forma de olhar a Monsanto é olhar
os processos do ponto de vista do mercado agrícola;
pensar na cadeia do milho, na cadeia da soja.
Aí, a gente entra num cenário muito
parecido com o da Prodesp e do TRF, muitos parceiros,
parceiros logísticos, traders, esmagadores,
fazendeiros, distribuidores de produtos agrícolas,
agentes financeiros para o crédito rural.
Acho que o ponto fundamental aqui é uma
questão de timing: a indústria de
vocês está muito pressionada pelo
tempo. Mas a indústria agrícola
está pressionada pelo custo, pela margem.
Todo esse mercado está carente de processos
integrados. A gente vive uma calmaria, se considerar
a empresa isolada; mas estamos no limiar de uma
revolução na indústria agrícola.
Alvaro MELLO
O Grupo O Estado de S. Paulo
já tomou a decisão de orientar todos
os níveis do grupo a processos; não
se volta mais atrás. Aproximadamente 75%
da receita do grupo vem da venda de espaço
publicitário. Então, a velocidade
com que se criam campanhas publicitárias
e anúncios, é uma decisão
que pode ser tomada numa segunda-feira para ser
executada, às vezes, no dia seguinte. Esse
dinamismo levou o grupo a alterar todos os seus
processos comerciais. Num primeiro momento, o
foco é mais na mudança cultural
e na mudança estrutural, mais do que na
automação. O grupo optou por dar
mais ênfase em fazer uma indústria,
que sempre foi informal, justamente pela velocidade,
a começar a falar o discurso de desenhar
processos. Criamos um método de trabalho
interno e a área de TI tomou a frente,
será a precursora nessa ação
de orientar a empresa a processos. Trouxemos pessoas
do mercado para a área de TI, são
nossos gestores de negócio, são
as pessoas que vão ao comercial, à
produção e mesmo à redação
para fazer esse desenho de processos. Some-se
a tudo isso uma complicação: a entrega
do jornal é compartilhada com a Folha de
S. Paulo, por meio de uma empresa conjunta, a
São Paulo Distribuição e
Logística. Então, agora temos horários
muito estritos de saída de caminhões,
o Estadão não pode esperar pela
Folha e nem a Folha pelo Estadão. Somos
cerca de 2.500 usuários, incluindo uns
500 jornalistas. A gente acredita que precisa
estruturar mais os processos, desenhar mais, para
permitir mais mudanças. Parece um paradoxo:
a empresa se formaliza, se descreve, se documenta
e se estrutura justamente para se preparar para
um dinamismo maior. Pôr automação
nisso tudo será um passo adicional.
Fabio FARIA
Eu gostaria de oferecer uma
visão diferente de BPM: a visão
de gerenciamento de ciclo de vida de um processo.
Teoricamente, isso não deveria partir da
TI, a TI deveria ser só um viabilizador.
Pessoas dentro da organização, nas
diversas áreas, deveriam olhar todos os
fatores do mercado para que os processos estivessem
sempre alinhados com os negócios. A TI
é um grande viabilizador, porque, dependendo
do mercado, as decisões sobre mudanças
de processos precisam ser muito rápidas.
Quanto mais automatizada a gestão de processos,
mais você depende de pessoas que conheçam
efetivamente onde os processos começam
e terminam. Enfim, BPM é na verdade uma
prática antiga, que muitas vezes a gente
deixa de exercitar. Acredito que os principais
usuários, com o BPM, passam a responder
por uma parte importante da atualização
ou da monitoração dos processos.
Em geral, acontece o contrário, é
a informática que acaba pressionando por
mudanças. Na VCP, onde trabalhei antes,
fizemos uma revisão de processos. Havia
até uma desconexão entre o ERP usado
e a rotina efetiva do dia-a-dia. Colocamos os
usuários como responsáveis não
só pela adequação dos processos,
mas também pela perenidade dos processos,
olhando o mercado, olhando os negócios
da empresa. Foi um projeto com resultado bastante
positivo. O mais complicado, eu acho, é
manter os processos atualizados. Muitas empresas
escolhem um modelo em que existe um responsável,
uma área de BPO, que é business
process optimization, buscando sempre novas formas
de mudar os processos para ter vantagens e diferenciais
competitivos. De novo: processo tem ciclo de vida,
assim como produtos e projetos, e a TI não
é o principal componente. É importante,
mas é mais importante ter o apoio da alta
cúpula da empresa.
IH
Há essa consciência do ciclo
de vida dos processos nas empresas do Grupo Votorantim?
FARIA
Não. Existem empresas
que entendem mais disso e empresas que precisam
aprender. Estamos escolhendo um ERP para todo
o grupo, e o mais importante não será
a instalação do produto, mas fazer
com que o grupo invista tempo no redesenho dos
processos. A partir dali, precisamos do compromisso
de permanentemente rever os principais processos,
olhar os componentes, olhar o mercado, achar o
que é necessário para ter diferenciais.
IH
Uma pergunta para o TRF: como vocês
conseguiram a colaboração de todos,
até de juízes? A iniciativa foi
da TI?
MELRE
O Fabio Faria disse muito
bem que a alta cúpula da organização
precisa se envolver. No nosso caso, a execução
fiscal faz parte de um pacote maior, o PJD, o
Processo Judicial Digital. No futuro, o tribunal
quer virtualizar todos os processos, além
da execução fiscal. Em função
disso, o tribunal criou uma comissão, formada
por juízes das varas de execução
fiscal, aqueles que trabalham hoje com processos
em papel, que precisam assinar mil documentos
de uma tacada só. Nesse caso, a gestão
da mudança é muito importante, não
pode de repente acabar com papel.
IH
Vocês reformaram processos ou automatizaram
processos em vigor?
MELRE
Isso é muito interessante.
Na fase de levantamento, chegou ao ponto de o
juiz sentar e desenhar o fluxo de como o processo
deveria tramitar. Agora que o sistema está
funcionando, que viram que o sistema existe, estão
começando a mudar procedimentos.
ANDRADE
Quando o processo começou,
em São Paulo, houve dificuldade. Inicialmente,
propuseram muitas mudanças nos processos,
e houve grande resistência dos usuários.
Então, a gente tentou não mudar
a forma de trabalhar. Agora, que está homologado,
eles mesmos estão se abrindo a sugestões.
IH
Simon, você está preocupado
com a integração de várias
empresas, parceiras da Monsanto?
SIMON
A tecnologia disponível
no momento é viável, inclusive financeiramente,
para fazer uma boa integração de
empresas diferentes, mas da mesma cadeia produtiva.
Mas a questão é perceber a realidade.
Os parceiros sentiram essa necessidade e estão
começando a se mobilizar. Acho que a maior
parte das cadeias privadas não entrou no
que se chama de c-business (comércio eletrônico
de colaboração).
MELRE
Gostaria de acrescentar uma
coisa: por que implementar um sistema desses na
Justiça Federal? Entre outras coisas, uma
vara de execuções tem em torno de
20 funcionários para 20 mil processos.
Mas o processo em papel não pode estar
disponível para todos ao mesmo tempo; com
uma ferramenta dessas (de BPM), posso pôr
o processo à disposição de
todo mundo, a qualquer momento, respeitadas as
regras de segurança.
LEAL
Mas tem um paradigma a ser
quebrado. Como hoje se exige muita rapidez da
área de TI, nós estamos muito focados
em soluções de TI com gente de TI.
Mas quando você pensa em processos, o profissional
de TI não é o melhor. Na Vera Cruz,
estamos levando para dentro da área usuária
pessoas subordinadas da área de TI, para
conhecer e desenhar processos. Por quê?
Quando a tecnologia pura cuida de processos, dá
muita ênfase à tecnologia e acaba
não implementando processos. A primeira
coisa, portanto, é a mudança cultural;
achamos que o profissional de processos tem que
ser formado, tem que ter outra cabeça.
Além disso, antes era mais fácil
reunir os usuários todos, eles gostavam
de falar e de ajudar a desenhar o fluxo do que
queriam. Hoje, pela pressão de mercado,
eles não têm mais tempo. Querem as
soluções prontas. Por isso esse
profissional, o analista, precisa entender tanto
do negócio quanto de TI.
GHETLER
Mas
tudo sempre aderente a um business plan. Todo
mundo acha bacana um novo processo automatizado.
Mas há um investimento inicial e depois
uma despesa periódica, em função
da manutenção desse processo, a
infra-estrutura que vai junto. Às vezes,
no final das contas, o processo não se
paga. Precisamos ter um foco muito grande em retorno
financeiro, nosso usuário tem que fazer
valer o dinheiro que investimos na automação
e na manutenção. A novidade não
é mais automatizar os processos, a área
financeira vem fazendo isso há 20 anos.
A novidade é controlar o custo dessa automação.
FARIA
Hoje, antes de iniciar qualquer
tipo de projeto, é importante olhar não
só o retorno que ele trará ao negócio
ou a determinada área da empresa, mas também
de que forma esse novo processo pode ser usado
de forma abrangente na empresa, para maximizar
os investimentos. Enfim: como posso replicar esse
processo em outra empresa no Brasil ou no exterior?
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