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IH
— Como tem sido a experiência de vocês com terceirização
de aplicativos?
SÉRGIO — Na
Kodak brasileira, minha orientação é usar pacotes
ou desenvolvimento externo. Ao fazer internamente,
você se preocupa com a continuidade de tudo, tenta
manter as pessoas bem treinadas, e acaba virando
simplesmente um escravo desse grupo. Na nossa
experiência, tivemos momentos de alegria e de
tristeza. Já entregamos projetos perfeitamente,
no custo certo e na hora certa. Também tivemos
um projeto cujo custo ficou dez vezes o previsto,
não ficou pronto, e nos obrigou a correr em busca
de outras soluções. O ponto principal é escolher
o parceiro, porque você entrega seus processos
àquela empresa, entrega sua reputação; espera-se
que ela contribua com alguma inovação. É importante
haver compartilhamento de experiência, de conhecimento.
A grande vantagem do pacote é: ele vem com experiência.
Não era assim no passado. Crie uma forma de testar
os profissionais que vão trabalhar para você.
Recentemente, contratamos uma parceria e, duas
semanas depois, trocamos 30% do efetivo deles.
Sem isso, seria um insucesso.
IH
— Como vocês testam essas pessoas?
SÉRGIO — Na
prática, o teste é colocar o usuário e o parceiro
juntos; o ponto fundamental é ter sinergia. A
princípio pode parecer antipático, mas, na realidade,
funciona bem e todos, inclusive o parceiro, ficam
confortáveis.
JANE — Trabalho
com terceirização desde 1990, quando a gente terceirizava
a mão-de-obra, body shop. A partir de 1995, participamos
de uma terceirização real, de serviços de suporte
e manutenção de aplicativos. Foi bem diferente.
Com o body shop, você troca seu funcionário pelo
de um terceiro, e talvez aumente sua dívida trabalhista.
Com o fornecedor de serviços para aplicativos,
você contrata um parceiro e ele gerencia a mão-de-obra.
Muitos no mercado vendem outsourcing, mas entregam
body shop. A gente entrevista os funcionários
do fornecedor também, e avalia o serviço prestado
trimestralmente. Mas a gestão da mão-de-obra é
do parceiro, senão você mesmo fará o serviço pelo
qual paga. Mas é absolutamente imprescindível
a gestão do contrato. É preciso gastar muito tempo
escrevendo as regras do relacionamento, e para
isso é preciso saber como se faz aquele serviço,
como se entrega e que indicadores de desempenho
seriam bons para seu cliente interno. Existem
empresas que gastam bastante tempo discutindo
o preço do serviço e pouco tempo discutindo, com
clientes e parceiros, o que quer, como quer e
como vai medir. Poucas pessoas costumam dar atenção
a cláusulas de distrato. É importante definir
logo como a relação vai começar e como vai terminar,
porque, quando a terceirização termina, você já
colocou muito da inteligência do seu negócio no
parceiro. Pode ter ficado com grau baixo de conhecimento
interno, e precisa ter um mecanismo para trazer
isso de volta ou repassá-lo para outro parceiro.
Os ânimos não estão calmos quando o distrato acontece;
é melhor discutir as cláusulas da separação no
começo, quando você e o parceiro estão bem dispostos.
IH
— Você á passou por isso? Foi traumático?
JANE — Já
passei por um phase-out de fornecedor, foi bem.
Na época, fiz um treinamento com advogados, para
entender mais sobre cláusulas de distrato. Sem
isso, perde-se tempo discutindo na hora da emoção.
No ano passado, refizemos a terceirização da infra-estrutura
SAP do Grupo Camargo Corrêa; gastamos mais tempo
discutindo todo o resto e menos discutindo os
aspectos financeiros porque, no fundo, o preço
é função de tudo o que você combina com o fornecedor.
Quando você esquece detalhes, você acha que contratou
uma coisa e seu parceiro acha que vai te entregar
outra coisa.
MATHEUS — No
Grupo Votorantim, estamos fazendo um trabalho
forte de padronização nos últimos 18 meses. Vamos
usar SAP para todas as empresas da Votorantim
Industrial. Além disso, começamos um trabalho
intenso de metodologia. Todos os projetos são
gerenciados com base no PMI (Instituto de Gestão
de Projetos). Sem burocracia, deixo bem claro.
Por isso, quando vamos contratar algo, chamamos
o parceiro e mostramos os documentos a preencher.
Na terceirização, pelo menos, sei que terei a
documentação padronizada, e isso tornará menor
o impacto de trocar de parceiro (o que não acho
bom, porque tem sempre um custo). Não criamos
nada do zero e fizemos piloto da nova documentação
com alguns parceiros. Na área de informática,
a gente sabe, documentação é um problema grave;
o resto é conseqüência da documentação mal cuidada.
Na contratação de fábricas de software, separamos
a fábrica de programas da fábrica de projetos.
E seguimos uma regra: todo know-how importante,
que estiver dentro do parceiro, deve estar dentro
da Votorantim também. Outra coisa fundamental,
com terceirização, é controle. Usamos a metodologia
do Cobit. Estamos fazendo com que todas as empresas
do grupo, no desenvolvimento e administração de
parceiros (um dos processos do Cobit), fiquem
no mínimo em nível 3 (as notas do Cobit vão de
1 a 5). Vamos fazer nosso próprio usuário cooperar
com esse processo todo, para atingir o resultado.
Sempre com desgaste — eu nunca vi projeto sem
desgaste. A questão é minimizar o desgaste, com
o comprometimento de todos os envolvidos. Vocês
devem estar pensando, “O Matheus está chovendo
no molhado”. Todo mundo sabe o que é preciso fazer,
mas a gente raramente faz, por vários motivos
do dia-a-dia. Com as fábricas de software, por
exemplo, a gente desenvolve os indicadores com
cuidado. Depois, é só medir. Assim, o processo
de distrato é menos traumático, todo mundo participou
da elaboração das regras do jogo e está olhando
as medições.
CARLOS — Antes
de assumir a área de tecnologia da DM, sempre
trabalhei como consultor. Fui e sou um defensor
da terceirização; vendi terceirização. Eu acredito
no modelo e estudei o modelo em todos os aspectos.
Hoje, como CIO, o conceito principal ainda vale:
terceirizar é uma necessidade para qualquer empresa.
O problema é saber o que terceirizar e como. A
principal dificuldade da empresa é essa, entender
claramente de que precisa. Um dos primeiros trabalhos
que fiz na DM foi pedir um perfil dos profissionais
da área de TI. Recebi um documento detalhado,
mas era um currículo técnico perfeito: essa cara
sabe Visual Basic, esse sabe Oracle, esse sabe
Crystal Reports, esse cara escreveu tantas linhas
de código. A DM queria ir para processos, era
preciso tirar as pessoas da TI para aproximá-las
do negócio, para olhar a tecnologia conforme o
processo. Se nós não temos claramente o que devemos
fazer, imagine nosso parceiro, tentando discutir
um modelo de terceirização. Ele não consegue vender
e, se conseguir, o projeto vai ser um fracasso.
Meu primeiro ponto foi transformar essa equipe,
dar uma visão de negócio. Estamos parando de discutir
com o parceiro se é para acessar o banco de dados
assim ou assado, e já temos técnicos que sabem
como fazer a recuperação de ICMS. Aí, fica mais
fácil falar de terceirização. É importante conhecer
as tendências, mas os detalhes de tecnologia deixamos
para os parceiros. Para cada necessidade, há um
modelo de terceirização, e alguns são pontuais,
temporários, outros são só pela capacitação técnica.
O ponto fundamental é haver clareza para todas
as pessoas de todas as áreas. Um último ponto:
em qualquer área de TI, há muitos sistemas para
terceirizar, mas cada um deve ser tratado de maneira
ímpar, com regras totalmente diferentes.
IH
— E sobre aplicativos?
CARLOS — A
DM está terceirizando todo o desenvolvimento.
Quando fui contratado, a área de TI era uma das
piores consultorias do mercado, porque se propunha
a fazer desenvolvimento sem ser uma empresa focada
nisso. O know-how de negócios fica na empresa,
mas o desenvolvimento vai sair. A gestão de recursos
é compartilhada, mas é aquele ditado: cachorro
de dois donos morre de fome. Por isso, temos bem
claro na DM nossas responsabilidades e as do parceiro.
Para a parte técnica, acabamos concentrando na
DM uma pequena equipe, para definir boas práticas
e padrões. Quanto à transferência de know-how,
a volatilidade do fornecedor é maior que a da
empresa, por isso é melhor manter o conhecimento
dentro da empresa.
MARCO — Temos
pouca experiência com terceirização na Siciliano.
Como empresa tradicional do varejo, a gente fazia
a maioria das coisas em casa. Tentamos fazer algumas
terceirizações, mas tivemos muitos problemas.
Por exemplo, o fornecedor aceitava determinado
trabalho por preço mais baixo, porque o fornecedor,
quando você aperta, acaba cedendo; mas depois
a qualidade do serviço começava a cair. Mesmo
quando procuramos um ERP, vimos que é difícil
encontrar parceiro com experiência no nosso tipo
de varejo. Você nota que, em algumas consultorias,
uma pessoa de nível começa a tratar com você,
mas um estagiário fica com a execução do serviço.
Mas aprendemos uma coisa: é preciso ter muita
transparência, contar direitinho toda a história,
não esconder nada, porque os fornecedores têm
pouco discernimento, e se você não deixar tudo
muito claro, depois quem vai sofrer é você.
ANTÔNIO — É
difícil encontrar soluções para a ABB. Ela é o
resultado da junção de quatro ou cinco grandes
empresas com um monte de pequenas. No último levantamento
global, a ABB tinha 432 ERPs diferentes! Mas caminhamos.
A ABB fez a opção global de terceirizar toda a
gestão da infra-estrutura para a IBM, elegeu as
19 maiores unidades do mundo para começar, inclusive
o Brasil, mas, ao longo das negociações, o business
case brasileiro não mostrou viabilidade. Era um
projeto mandatório, mas trabalhamos nisso com
a IBM dois anos, para no fim pedir à matriz a
liberação; continuamos com infra-estrutura mantida
e gerida internamente. Imagine a polêmica dentro
do grupo. Fizemos a terceirização só de alguns
serviços, como help desk e impressão. Na área
de aplicativos, há muito tempo não temos desenvolvimento
interno; temos dez ou 12 analistas, o papel principal
deles é analisar o negócio. Fizemos um trabalho
de escolher só três ou quatro fornecedores para
cada área, e compramos tudo deles; assim, temos
concorrência saudável e, ao mesmo tempo, consigo
ter bom relacionamento com esses poucos fornecedores.
Mas não temos realmente um modelo de terceirização
de aplicativos. Dependendo do sistema, o analista
interno conhece em maior ou menor grau, mas a
idéia é recorrer ao fornecedor externo para as
coisas mais profundas. No geral, estamos nesse
ponto. Mas estou interessado em saber sobre o
mercado de ASP (application service provider,
ou provedor de aplicativos para usar a distância,
via Internet). Em 2001, tínhamos a percepção clara
de que ASP não era para nós no curto prazo, porque
tínhamos escala suficiente para, por exemplo,
conseguir licenças a bom preço. Não sei se a percepção
ainda vale. Temos alguma experiência como ASP
interno; temos uma rede corporativa de 80 mil
pontos no mundo — a rede é grande e dá chance
a iniciativas internas. Este ano, devo desativar
meus sistemas de gestão eletrônica de documentos
para comprar o serviço na ABB dos Estados Unidos
ou da Suécia, no modelo ASP interno. Então, hoje
busco nichos em que eu poderia usar um ASP.
IH — Como foi feito
esse business case sobre a IBM?
ANTÔNIO — Fatiamos
o escopo dessa terceirização em cinco ou seis
tópicos e licitamos no mercado, colocamos 14 fornecedores
no nosso auditório, apresentamos esse escopo e
demos a liberdade para cada um ofertar tudo, os
módulos separados ou apresentar outras sugestões.
Mesmo assim, só conseguimos terceirizar o help
desk e a impressão. Para o resto, nosso custo
era menor. Talvez a gente conseguisse qualidade
maior, mas, quando a empresa está satisfeita com
a qualidade do serviço atual, é difícil vender
aumento de custo por qualidade. Mas esse é um
processo em constante revisão. Mais cedo ou mais
tarde nossa infra-estrutura estará toda com a
IBM.
KATAYAMA — Sobre
terceiros, minha filosofia é contrato de porteira
fechada: contrato um serviço, com o escopo todo
analisado e medido, e fecho o preço. Se ele fizer
com toda a produtividade do mundo, ganha mais;
senão, ganha menos. Outra coisa: sempre busco
capacitação técnica, isto é, quando a consultoria
vai embora, a inteligência fica. Usualmente, escolho
os consultores mais pelo conhecimento de processos
que de tecnologia. Não adianta ter Ph.D. e não
ter experiência em processos. Isso é fator crítico
de sucesso, e não é teoria, é da prática. Acordo
de nível de serviço é importante, assim como um
terceiro consultor, nem nosso nem do parceiro,
para a garantia da qualidade. Esse terceiro faz
todo mundo falar a mesma língua e verifica como
estão os objetivos. Um grande ganho da terceirização
é a documentação, um bom subproduto, atende a
Sarbanes-Oxley; não é preciso remapear processos
com sistemas. O que terceirizar? Algumas coisas,
como recursos humanos, contabilidade, dá para
fazer um BPO (business process outsourcing, a
terceirização do processo de negócio inteiro);
você põe não só a TI, mas todo o processo num
terceiro. Falando de Honda, vejo lá muitos sistemas
caseiros e eles exigem equipe muito grande para
manutenção. Vamos mudar isso daqui para a frente.
CLÓVIS — Na
General Motors, não temos nada em casa, tudo é
feito por provedores contratados, principalmente
a EDS, que nasceu dentro da GM há 20 anos. Neste
momento, estamos buscando uma estrutura com vários
fornecedores. Recentemente, passamos todos os
nossos aplicativos de engenharia para um fornecedor,
estamos no processo de migração. Temos uma estrutura
com três fábricas: a de TI, com a gestão do negócio
e da tecnologia; a de desenvolvimento, com a entrega
de software; e a de infra-estrutura, com a operação
de tudo. Mas para tudo isso temos provedores.
Neste momento, estamos desenhando contratos. Se
um acidente pára a linha de produção, o fornecedor
A não pode ficar dizendo que a culpa é do fornecedor
B e vice-versa, isso é inaceitável numa linha
de produção correndo a 60 veículos por hora. E
quem são nossos fornecedores? São aqueles globais,
que podem atender 220 fábricas no mundo, mais
de 30 centros de engenharia e 5 grandes centros
de criação, inclusive o Brasil. Não temos muitos
funcionários; na América Latina, são menos de
50 pessoas. Como obter sucesso? Treinando esse
pessoal para gerenciar fornecedores. No ano passado,
investimos 250 horas no treinamento em CMMI e
nas práticas do PMI. Estamos no segundo nível
do CMMI e este ano queremos chegar ao terceiro
nível. Os fornecedores têm que estar, no mínimo,
no nosso nível. Uma das coisas intrínsecas a uma
boa terceirização é padronização, e por isso há
anos trabalhamos para eliminar o legado de aplicativos
e para usar os mesmos aplicativos em todo o mundo.
Criamos até mecanismos para coibir (e essa é a
palavra correta) a criação ou introdução de aplicativos
sem o conhecimento da área de TI. Quanto às métricas,
estamos estudando não só penalidades, mas também
créditos para os fornecedores.
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