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Dez especialistas em segurança, profissionais
de TI de empresas do setor financeiro, discutem
a relação entre segurança e controle de acesso.
Com a automação cada vez maior, a segurança dos
sistemas virou uma questão real de risco — e sistemas
só são seguros quando são usados pelas pessoas
certas e quando o que elas fazem pode ser vigiado
e gravado. É um desafio muito além do âmbito da
tecnologia. Participaram desta mesa-redonda: Agostinho
H. Teixeira Gouveia, superintendente executivo
do Banco Real ABN Amro; Alberto Evandro Fávero,
superintendente adjunto de segurança da informação
do Santander Banespa; Delfino Natal de Souza,
gerente nacional da Caixa Econômica Federal; Dorival
Dourado Jr, diretor de operações e serviços da
Serasa; José Waldir Pacheco de Carvalho, gerente
de divisão do Banco Nossa Caixa; Marinês de Assis
Gomes, diretora de segurança de TI do HSBC Bank
Brasil; Maurício Ghetler, consultor da MG Systems;
Patrícia Martins de Andrade, executiva de TI da
TecBan; Paulo Renato Fabiano Franco, diretor de
tecnologia da Liberty Paulista Seguros; e Plínio
Patrão, executivo de prevenção a fraudes e segurança
do Unibanco.
IH — Como se deve abordar segurança
e controle de acesso de forma adequada?
PATRÍCIA — Não
dá para abordar acesso sem abordar risco. Quase
sempre, a fraude está ligada a um problema com
o acesso. Como temos acesso lógico e físico, gente
de dentro e de fora, é complexo de administrar.
A melhor maneira de combater o problema é atacar
de vários lados, com ferramentas, processos e
cultura.
PAULO — Ao longo
do tempo, segurança e controle deixaram de ser
um problema administrativo para ser de risco operacional
e estratégico. Quando começamos a instalar os
pacotes, eles eram diferentes dos nossos sistemas
principais, vinham com outros procedimentos e
estrutura de segurança. Dava uns probleminhas
chatos, o usuário não memorizava a senha, ou não
a trocava periodicamente. À medida que as empresas
ficaram mais informatizadas, os sistemas passaram
a administrar os ativos de maneira completa. Aí
isso virou uma questão de risco real, risco de
fraude e de erro.
MAURÍCIO — Já
estive tanto do lado da tecnologia, enfrentando
os problemas de controle de acesso, quanto da
segurança da informação, por ter estruturado a
área. Devemos separar as questões de risco operacional
e de segurança do controle de acesso em quatro
partes, dentro de uma corporação. A primeira parte
é a de canais, em que acontece a maioria dos problemas.
A segunda é a de legados, importantes por causa
da segurança de acesso e do controle de risco.
A terceira parte é a de controle de conteúdos,
principalmente não-estruturados, como imagens,
e-mails, XML assinado. Essa terceira parte é muito
renegada, porque não está intimamente ligada aos
sistemas legados. E a quarta é o controle de acesso
a processos de negócio. Esses processos misturam
os três: canais externos, legados e conteúdos
não-estruturados. Muitas vezes não são muito claros,
nem bem administráveis. Devemos falar sobre single
sign-on, uma necessidade nas empresas, mas infelizmente
não uma realidade. Precisamos falar sobre autenticação
mais forte, que deixe rastros para coibir fraudes
ou descobrir quem fraudou.
DELFINO — Na Caixa
são 120 mil previsões de acessos lógicos, a gente
tem demanda interna de 120 mil usuários cadastrados
na rede, na intranet, nos sistemas corporativos.
Coordeno essa área há um ano, tenho 23 anos na
Caixa, na área de tecnologia. O desafio do gerenciamento
do acesso precisa ser classificado em fragilidades
na TI e fora da TI. Sabemos que um banco se expõe
principalmente em função de ações indiretas da
própria área de tecnologia. Concordo com a Patrícia,
uma das principais preocupações é fraude, mas
esse é um detalhe. Na verdade, estamos falando
de governança. O desafio de migrarmos para um
login único e gerenciar esses perfis precisa ser
vencido, considerando aplicações novas e legadas.
As pessoas usam também outros métodos para agredir
a instituição, então é também uma questão de gestão
de pessoas. Além disso, a gestão da segurança
da informação se sofisticou muito nos últimos
cinco anos. Vivíamos num ambiente com menos diversificação
de plataformas e disponibilidade externa de serviços.
Os desafios de disponibilidade de serviço para
a população serão maiores. Temos processos de
segurança caros em grandes corporações, com help
desk para a permissão de acesso, gestão de perfil,
o desafio de automatizar conforme o perfil do
usuário. Sou defensor de certificação digital.
Podemos dizer que a lei já é vigente.
PLÍNIO — Eu sou
novato, tenho seis meses nessa área, venho de
negócios. Minha primeira constatação é de que
os perímetros mudaram. Começaram dentro do CPD,
do CPD para os usuários, dos usuários para as
agências, e de repente você percebe que as agências
não são lá tão seguras. Um perímetro mais disperso,
mais difícil de proteger, é do relacionamento
com os clientes. Política de segurança da informação
todos temos, mas é difícil repassá-la para clientes,
cujo micro é usado por crianças. Mesmo dentro
do banco não conseguimos tratar a base inteira
de forma homogênea e rápida. Com 28 mil funcionários,
nem todos têm a última versão do sistema operacional,
por exemplo. É um desafio constante justificar
os investimentos para manter o parque atualizado,
versus as necessidades do usuário, bem atendidas
até pela versão menos dois do sistema atual. Apesar
dos esforços, às vezes falta visão holística.
Sempre encontram uma forma de navegar entre três
processos seguros. A gestão dos funcionários de
terceiros traz mais desafios. Quanto ao embasamento
legal, não medimos esforços para proteger os clientes,
escritórios jurídicos nos apóiam. Temos um grupo
de peritos forenses que geram provas para que
operações policiais sejam efetivas em cinco dias.
ALBERTO — Produtos
nos ajudam a adotar práticas seguras, mesmo que,
às vezes, os próprios produtos tenham furos. Mas
os maiores problemas estão em processos difíceis
de mudar. A informação é um ativo valioso para
as empresas. Antes, quando a gente justificava
segurança, explicava a importância de investir.
Já vencemos essa barreira. Vislumbro sempre o
tripé pessoas, tecnologia e processos, é ainda
valioso. Não dá para deixar nenhuma das pernas
mais fraca que as demais. Tenho insistido na conscientização,
no treinamento. Devemos informar funcionários,
parceiros de negócios, clientes, fornecedores
e até o concorrente. Lançamos um portal de segurança
na Internet, no site do Santander Banespa. Colocamos
na primeira página o link para segurança. Lá tem
o que o banco faz em termos de segurança e de
privacidade. Quando perguntam se é seguro fazer
uma transação no Internet Banking, digo para irem
ao site: “Um curso vai te explicar a segurança
com e-mail, com informações pessoais e privadas”.
PAULO — Sempre
fazem essas perguntas?
ALBERTO — Sim.
Eu digo que é seguro, pode fazer. São milhões
de transações por dia e muito poucas dão problema.
E esse percentual muito baixo pode ser reduzido
mais ainda, se o cliente seguir dicas básicas
de segurança. A pessoa precisa saber que não pode
largar uma chave USB com um certificado A3 em
cima da mesa.
AGOSTINHO — O
mundo está muito aberto, tem sempre alguém batendo
na nossa porta e não sabemos quem é. Temos algumas
ferramentas, mas faltam sistemas no mercado. Temos
de pensar no futuro, em prevenção, monitoração.
O futuro está ligado ao cruzamento entre hardware
e software.
MARINÊS — Trabalho
na área de segurança faz oito anos. Houve uma
evolução incrível. Quando começamos, discutíamos
coisas totalmente diferentes. Éramos Bamerindus,
um banco comprado pelo HSBC, que chegou com uma
cultura de segurança diferente. Isso nos custa
muito hoje, por causa do legado, o de um banco
brasileiro da década passada. Isso nos toma muito
tempo. Mas não tem como sair do tripé pessoas,
processos e ferramentas. Estamos investindo muito
alto em ferramentas, monitoração, processos e
conscientização. É uma briga mesmo. Quando falamos
de conscientização, é do porteiro ao alto executivo.
Estamos usando uma estratégia para que os nossos
clientes internos sejam tratados como clientes
externos. Todo mundo é cliente.
JOSÉ WALDIR —
O grande problema hoje é a gerência da identidade.
O cenário é crítico. Temos de medir o risco para
cada negócio que a gente lançar. As tecnologias
de WiMAX, Wi-Fi, Wi-Tudo... que legal instalar
isso. O problema é como colocamos isso na instalação.
A pressão do negócio pela agilidade nos torna
ultrapassados, a segurança não é encarada como
investimento, mas como despesa. O controle de
acesso tem grandes problemas internos. É a conscientização
sobre como usar os meios eletrônicos. Vamos continuar
divulgando, até porque, legalmente, para defender
o banco, precisamos ter divulgação no site. Um
mecanismo interessante é a certificação digital.
O problema é massificar isso. Quando todos se
convencerem e tiver 40 milhões de certificados,
acabou.
DORIVAL — A questão
de segurança na Serasa é tão importante que está
na missão da empresa. O que vendemos está intimamente
ligado à segurança, e estudamos a questão do ponto
de vista de clientes, acionistas, funcionários.
É nossa obrigação prover procedimentos, processos,
ferramentas — mas o ponto central é sempre a informação
ou a cultura do indivíduo. A gente tem um plano
contínuo de comunicação, desenvolvemos a Semana
de Segurança, em que todos devem idealizar um
pequeno projeto. Mas sempre fica a sensação de
que talvez seja insuficiente. A complexidade da
segurança de informação está ligada à questão
da inclusão digital corporativa. Nos últimos anos,
aumentamos tremendamente o número de usuários
nos sistemas. E instalamos cada vez mais tecnologias
diferentes. Organizar a segurança do acesso, da
recuperação, fica difícil. Como última mensagem,
os fornecedores de tecnologia fazem parte do nosso
dia-a-dia, têm de ser tratados como se fôssemos
o acionista.
IH — Como lidar com a questão
da segurança com clientes internos, clientes externos,
parceiros, fornecedores?
PATRÍCIA — Com
as pessoas, o problema é a percepção do risco.
Elas só vão perceber o risco lá na frente, se
elas ou alguém próximo for atingido. Existe uma
hierarquia. As pessoas começam inconscientes e
incompetentes: sem consciência do problema, e
por isso incompetentes. Depois, passam a ser conscientes
e competentes no uso de uma ferramenta. No último
estágio, passam a ser inconscientes competentes,
isto é, são competentes sem preparação prévia.
É um processo educacional. A legislação também
funciona como um catalisador, porque atribui responsabilidades.
É mais fácil ser inconsciente e incompetente se
eu ou minha comunidade não somos responsabilizados.
O novo Código Civil fez crescer a atenção.
MAURÍCIO — Sobre
a questão da proteção legal, a Medida Provisória
2.200, mesmo na primeira edição, dá o suporte
legal necessário.
MARINÊS — O tema
segurança está muito em voga, o Código Civil veio
para ajudar, bem como a Sarbanes-Oxley. O risco
deve ser discutido agora, o timing é bom.
DELFINO — Sobre
a medida provisória, apesar de certa fragilidade,
ela já está consolidada no mercado, pela adesão
de grandes empresas: Serasa, Receita Federal,
CertiSign, Caixa Econômica Federal, Serpro, Conselho
da Justiça Federal. Isso torna o processo irreversível.
Então, certificado digital é uma realidade. Sobre
a educação, eu queria falar de um desafio. A Caixa
tem 27 milhões de pessoas no cadastro social do
governo. Não sou filósofo, mas crime e castigo
é a única forma de administrar. Essas 27 milhões
de pessoas ganharam cartão, temos de entregar
200 mil cartões por mês para usuários que nunca
sentaram à frente de um computador. A forma de
educar é deixar que ele use somente R$ 50 por
mês, por um ano. Aí, vai entender que cartão é
dinheiro. Ele não pode ter acesso a um programa
de crédito inicialmente, nem à bancarização. Para
incluir esse beneficiário numa conta corrente,
precisamos pensar na segurança do próprio usuário.
O outro aspecto é: no banco via Internet, precisamos
elevar os limites da pessoa física acima do que
seria indicado pela taxa de risco do canal, pois
é muito mais caro levar esse cliente para a agência.
Caixa e Banco do Brasil têm 55% dos clientes no
Internet banking hoje, são 5,5 milhões de pessoas,
isso é um mundo. O desafio de massificar a cultura
da segurança é estrutural.
AGOSTINHO — É
importante o foco da segurança. A ferramenta está
resolvida, mas temos de ter foco no cliente e
nos produtos que ele recebe. Isso envolve os processos,
ncoisas. O grande problema, para colocar segurança
no produto, é sermos ouvidos — nós temos de ir
atrás da área de negócio. É preciso um comitê
para tratar incidentes de segurança. Cada funcionário
só recebe uma senha. Se não trabalha com poupança,
não tem acesso; se não trabalha com fundos, não
tem acesso. O que ele precisa para trabalhar está
identificado em seu perfil. Isso é processo e
educação.
DORIVAL — Um pouco
da questão está ligado ao histórico de segurança
nas empresas. Quem é mais antigo lembra como a
segurança começou com o sujeito que tomava conta
do rack F. Depois, com a Internet, um rapaz da
operação de redes instalava um servidor. Primeiro,
segurança ficou muito limitada. Depois, virou
uma coisa de auditoria, com o CSO, o guardião
da segurança. Agora, precisa acontecer com o CSO
o mesmo que já aconteceu com o CIO: parar de falar
de bits e bytes, para falar de negócios. Se não,
o homem de negócios fica perguntando: “O quê?
Scam?”
PLÍNIO — Se alguém
seqüestrar um gerente nosso, não tem nada que
ele possa fazer na agência. Vai ser só um roubinho,
como um batedor de carteira moderno. Mas, no controle
de acesso, você tem na rede um terminal que captura
cartões. Como saber que é um terminal seu? Internamente,
temos controles muito sofisticados, com cartões
inteligentes, chaves. Quando vai para milhões
de clientes, fica difícil. Por isso, todo o processo
precisa ser simples e fácil. O gerenciamento de
identidade tem de ser duplo, o agente identifica
os clientes e vice-versa. Aí, você vê as fragilidades.
Com o Orkut, o gerenciamento remoto de identidade
ficou brutalmente fragilizado, com as pessoas
preenchendo espontaneamente uma série de dados.
Você não sabe se a pessoa, do outro lado da linha,
é o cliente mesmo. A gente tenta criar condições
para que o prêmio, numa fraude dessas, seja pouco
valioso. Com a conscientização, minimizamos isso.
Com ferramentas, se o cliente pagar uma conta
e a gente desconfiar que a conta não é dele, nós
ligamos. Estamos chegando lá.
IH — Marines, como funcionam
seus agentes infiltrados?
MARINÊS — Meus
BISOs. A alta administração entendeu que o negócio
precisa ficar mais próximo da segurança; assim,
moldamos a idéia de ter parceiros nas áreas de
negócios, que chamamos de business information
security officers. Nosso controle de acesso é
feito sempre em duplicidade. Fazemos a liberação,
mas quem autoriza é a área de negócio. Em algumas
áreas, o diretor delegava a tarefa para a secretária,
o que anulava todos os nossos esforços. O grande
desafio era fazer com que esse cara, lá na ponta,
tenha visão estratégica. Os BISOs fazem esse papel,
e eles são gerente sênior.
IH — Esse modelo existe em
alguma outra organização?
DELFINO — Existe
na Caixa. Mas eu queria abrir um novo tema: a
paranóia da segurança. Nós instalamos um single
sign-on, já avançou bastante. Mas, quando qualquer
um dos 60 mil funcionários da Caixa sai de férias,
perde tudo: desabilita a intranet, e-mail, todos
os acessos aos sistemas. Pasmem, mas existe uma
negociação que o sindicato está desenvolvendo,
quer que isso seja aplicado ao ponto eletrônico:
marcou o ponto, desabilita tudo. Até onde iremos?
MARINÊS — Isso
é uma realidade nas agências, a gente já tem ponto
eletrônico, que agora estamos instalando na matriz.
Até o final do ano devemos usar o single sign-on.
E isso surgiu não da paranóia da segurança, mas
do passivo trabalhista, que nos deu o retorno
do investimento.
MAURÍCIO — Eu
trabalhei no falecido Banco Santos em 2002. Depois
de colocar single sign-on e todo mundo usar até
para passar pela catraca, descobri que não importava
saber somente que o funcionário entrou, mas o
que ele fez. Para isso, eu não estava preparado.
Por isso, recomendo: quem está trabalhando no
single sign-on, deve se preocupar com a auditoria
do que ele está fazendo. Por exemplo, fazer um
login assinado digitalmente, e ainda colocar íris.
IH — Onde mais vocês sentem
deficiências no fornecimento de ferramentas?
AGOSTINHO — Eles
precisam arrumar uma ferramenta de consolidação
e de monitoração das outras ferramentas do mercado.
Nós temos o funcionário que monitora os sistemas
de monitoramento... Na área de segurança, eu tenho
um analista com três monitores. No futuro, precisamos
do cruzamento de produtos, de software, das áreas
de negócio. Normalmente, o fraudador tenta obter
informação num canal e cometer a fraude num outro
canal. Precisamos descobrir por que o cliente
acessou três vezes o call center e está fazendo
um saque imediatamente no caixa eletrônico.
PLÍNIO — Começamos
a olhar as ferramentas disponíveis: absurdamente
caras, limitadas e específicas. Estamos construindo
nossas ferramentas, para criar regras de negócio
em dois, três minutos.
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