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O desafio do CIO é propor inovações, instalar
as inovações propostas por outros, tudo isso a
tempo e a baixo custo; é agir como se a TI fosse
algo mais simples. Como começar, já que a TI é
complexa e deve permanecer complexa? O primeiro
passo é instaurar um processo contínuo e implacável
de busca por simplificação, que não se descuide
de nenhum detalhe, da formação da mão-de-obra
ao correto equilíbrio entre software livre e proprietário.
Apesar dos conselhos, os pesos pesados reunidos
nesta mesa-redonda assumem sua parcela de culpa:
até hoje, transferiram complexidade demais para
o CIO, porque complexidade, para o fornecedor,
é lucrativa. Mas prometem: isso está mudando e
vai mudar. A mesa-redonda foi coordenada por Wilson
Moherdaui, diretor editorial, e por Márcio Simões,
editor executivo. Participaram Carlos Carnevali,
diretor executivo da Cisco Latin America South;
Carlos Ribeiro, presidente da HP Brasil; Emilio
Umeoka, presidente da Microsoft Brasil; José Ruy
Antunes, diretor-presidente da SAP Brasil; Marco
Leone Fernandes, presidente da Computer Associates
Brasil; e Silvio Genesini, presidente da Oracle
Brasil.
CARNEVALI — Com
a explosão da Internet, há dez anos, o CIO ficou
como um malabarista, mantendo pratos no ar. Depois,
também pediram que ele caminhasse na corda bamba.
E duas pessoas agora balançam a corda. Ele tem
de se preocupar com tecnologia, processos, aplicações,
mas tenho ouvido muito que ele deve ser impulsionado
por negócios. Acho que isso já é previsto; não
é um must, mas o mínimo para entrar no jogo. A
parceria CIO-CEO é chave para o sucesso dele e
da empresa. Passar a olhar para fora, a ser centrado
no cliente. Como é preciso ser mais competitivo
que o oponente, inteligência de negócios é fundamental.
E inovação: começamos a viver no mundo da interação,
diferente do mundo da transação, de oferecer a
informação ou o produto. É muito mais criar valor
no momento em que o seu cliente está interagindo
com você. Se o CIO consegue usar a tecnologia
para reter o cliente enquanto interage, cria uma
barreira enorme para os concorrentes. Outra coisa:
por conta do escritório virtual, estamos 24 horas
plugados. Vejo pouca gente dedicando o tempo necessário
para cuidar de si. Se o CIO não estiver bem, não
adianta nada governança e Sarbanes-Oxley.
ANTUNES — Eu concordo.
Mas todos os executivos, e não só o CIO, devem
ter essa obsessão pelo negócio. Dada a velocidade
das mudanças e a necessidade de focar no cliente,
a tendência é ter uma flexibilidade que o profundo
especialista, seja CIO ou CFO, não vai ter; mas
sim aquele homem que sabe melhor usar os recursos
para atingir objetivos estratégicos. A situação
do CIO é mais difícil porque a TI viabiliza mudanças,
e então ele está sempre no caminho crítico. Por
isso as discussões sobre governança de TI são
tão importantes. E, sobre olhar para fora, é bom
lembrar: toda a equipe do CIO precisa ter a mesma
atitude. É um enorme desafio.
CARNEVALI — Eu
iria até mais longe. Todos devem entender que,
quando estão com o cliente, é o momento de vender.
Todos precisam saber como podem interferir no
crescimento e no lucro da empresa — não basta
só lucrar, tem de crescer. E isso não está fácil,
de Wall Street à Patagônia.
RIBEIRO — Mudar
sempre foi norma, mas está havendo uma aceleração
nas mudanças. Cada transação imaginada pela área
de negócio repercute na de TI, com programas extremamente
complexos. O CIO, além de manter a área de TI
estável e capaz de atender o negócio, tem de transformá-la
num habilitador dessas transações de negócios,
decididas a cada hora por um grupo: marketing,
vendas, presidência, acionistas. TI não pode ser
uma barreira. O CIO precisa ter uma infra-estrutura
de TI adaptável, flexível, capaz de reagir. Não
cabe mais dizer que leva oito meses para desenvolver
as modificações. Isso ainda ocorre hoje — é o
famoso legado. Quanto ao CIO conhecer o negócio,
é importante, não para gerenciar o negócio, mas
para gerir a infra-estrutura e capitalizar as
oportunidades de negócio. Às vezes, o CIO consegue
se antecipar e oferecer soluções que as áreas
de negócio não previram. Esse é o nível mais sublime.
EMILIO — Esse
tema tem muito a ver com inovação. Os CIOs hoje
podem escolher muito mais produtos, serviços,
hardware e software do que há 20, 30 anos. Essa
análise combinatória é um grande desafio. Discutimos
muito a mudança em termos de negócios para o CIO,
de gerir um orçamento líquido, gerir projetos
como se fossem portfólios de investimentos. Muito
CIO reclama dos projetos de TI, que não terminam
no prazo e no custo. Falta um pouco de ambição
aos CIOs. Como boa parte vem da área técnica,
tem pouca ambição de estar mais presente no board.
Quanto ao legado, a adoção dos web services vai
tornar a interconexão dos sistemas uma realidade.
E a gente precisa olhar não só o CIO, mas a equipe
que o cerca. A falta de habilidades pessoais é
também um legado, muito mais relacionado com a
formação de novos líderes, trazidos de outras
áreas inclusive. Outra coisa importante na agenda
dos CIOs: como pegar silos individuais de produtividade
e torná-los coletivos. Como sair da produtividade
no micro de mesa para a produtividade na organização?
E a área de mobilidade já é realidade, acelerando
a convergência.
GENESINI — O jogo,
para os próximos anos, é reduzir a complexidade
e o custo. Assim, o CIO vai se concentrar muito
mais no que deve fazer: trazer soluções para o
negócio e se conectar à estratégia da empresa.
Hoje, ele perde muito tempo com o legado, por
causa da complexidade. Essa busca da simplicidade
e do mais barato foi iniciada pelo Nicholas Carr,
naquele artigo famoso na Harvard Business Review.
Ele atirou no que viu e acertou no que não viu.
No fundo, ele dizia que a infra-estrutura estava
ficando commodity e que tudo ia ficar commodity.
Hoje, instalar sistemas de gestão está longe de
ser commodity. No fundo, os vendedores de tecnologia
e os integradores, todos ganhamos dinheiro da
complexidade. Mas está claro que o mundo não vai
aceitar coisas tão complexas e caras. Falamos
de web services, de arquitetura orientada a serviços
(SOA), é o reconhecimento de que nenhuma empresa
vai fornecer soluções sozinha. Essa pressão, com
a pressão do open source e das soluções de colaboração,
ameaça a todos nós, para benefício de usuários
e consumidores. Como fornecedores de serviços
e de tecnologia, temos o desafio de criar o próximo
ciclo de valor. A complexidade não vai desaparecer,
mas nós, fornecedores, vamos cuidar dela: a tecnologia
vai se aproximar de um serviço público. Nunca
vai ser como a eletricidade, mas mesmo com a eletricidade,
quando tem um apagão, a gente aprende como aquele
negócio é complicado. O CIO deve fazer a mesma
coisa, fazer a tecnologia parecer mais simples
para o usuário, assumindo a complexidade. Não
existe uma grande tecnologia, mas essas coisas
como open source, web services, roteadores inteligentes
vão mudar radicalmente a cara da tecnologia nos
próximos anos. E vão obrigar o CIO a ser um homem
de negócios.
LEONE — Estamos
num momento de transformação, e o grau de complexidade
dos ambientes de informática e telecomunicações
está cada vez maior. A gente percebe um movimento
de globalização — todos os dias há fusões e aquisições,
novos modelos devem ser integrados, e o legado
vai ficando cada vez mais complexo. O desafio
da TI, fazer mais com menos, é cada vez mais complexo.
A palavra-chave é integração. A gestão dos ativos
também fica importante, para medir de verdade
a participação da TI na linha do lucro. A TI ainda
é vista, por muitas empresas, como um departamento
que faz gastos muitas vezes sem critério, o que
não é mais verdade. A TI está cada vez mais importante,
as empresas investem preocupadas com ROI, mas
menos preocupadas com algo importante: o risco
de não investir. Eu destacaria dois pontos. É
muito difícil conseguir uma redução efetiva da
TI sem passar por uma consolidação de fornecedores.
Gerir diversos contratos traz uma complexidade
que é sinônimo de custo. Outro ponto é o grande
impasse dos preços. De um lado o cliente quer
pagar cada vez menos, e de outro o fornecedor
reduz as margens cada vez mais. É um grande processo
de ajuste e acho, sinceramente, que é um jogo
perdido. Hoje o cliente fala muito em pagar pelo
uso — mas desde que ele pague menos.
IH — Que contribuição a indústria
pode dar para a segurança, além de produtos? Como
o CIO pode se livrar dessa neurose às vezes injustificada?
GENESINI
— A preocupação com segurança é muito relevante.
A média das nossas empresas é muito vulnerável.
Mas esse é um problema sistêmico. A arquitetura,
além de flexível e adaptável, precisa ser pensada
desde o início com segurança. Processos e pessoas
são extremamente importantes, porque segurança
total não existe.
EMILIO
— Concordo. Como executivos da indústria,
temos de estimular a segurança. Muitos dos nossos
clientes ainda usam sistemas projetados quando
a Internet não existia. Muitas vezes, um cliente
reclama de um vírus e, quando você vai ver, esse
vírus havia sido detectado em 2003. Basicamente,
ele ficou dois anos sem fazer uma atualização
crítica. É um problema de gestão, de processo
e de consciência.
IH — E onde está o nó da questão?
ANTUNES
— Na verdade, aumentaram os pontos de contato
entre as pessoas e as empresas. E isso aumenta
o risco. E no tripé tecnologia, processos e pessoas,
o elo mais fraco ainda são as pessoas. Então,
conscientização. E, para o empresário, a principal
questão é o risco de não investir.
IH — E quanto ao software livre
e ao software aberto? Um CIO até chegou a propor
não uma associação nacional do software livre,
mas do software barato
ANTUNES
— Acho que tem que separar o joio do trigo.
Esse negócio não é uma panacéia, como nunca será.
Esse assunto é sempre tratado com muito desequilíbrio.
GENESINI
— A Internet possibilitou um modelo de
negócios que ninguém imaginava seria possível,
esse modelo colaborativo de fazer as coisas. Não
tem dúvida que esse modelo nos ameaça a todos.
Eu não reduziria sua importância.
LEONE
— Esse negócio de Software Livre Futebol
Clube é uma coisa que não vai para a frente. As
decisões de adoção de tecnologia têm de ser baseadas
em qualidade técnica, preço e custos. Mas toda
essa mobilização, todo esse romantismo, não deixa
de ser interessante. Mas temos observado mais
o uso do software livre como forma de pressão,
como apólice de seguro contra o fornecedor.
CARNEVALI
— É exatamente nessa linha, até porque
a real parceria, que você faz com o fornecedor,
não fica restrita ao software.
EMILIO
— A nossa visão é de neutralidade. O executivo
deve definir qual é o produto melhor, baseado
em TCO, road map, relacionamento, suporte, desenvolvimento.
Aprendemos com o software livre a utilizar melhor
as comunidades. E o Linus Torvalds, a partir de
dezembro de 2004, pediu ao pessoal que documentasse
melhor as modificações, criasse processos de edição,
coisas que replicam nosso modelo de desenvolvimento.
Acredito que, no futuro, haverá dois padrões,
com modelos de negócio cada vez mais próximos.
IH — Nos últimos anos, como
demonstra a pesquisa da DMS (veja a reportagem
na página 38), os outros executivos da empresa
participavam mais das decisões de TI. Mas agora,
parece, as decisões de TI ficaram mais restritas
à própria equipe de TI. Como explicar isso? Os
outros executivos, na hora das decisões, participavam
mais e, na hora da execução, se abstêm? O CIO
está mais sozinho, executando o que já foi decidido?
GENESINI
— Parece estranho, mas é isso mesmo. Nas
empresas maiores, as grandes decisões já foram
tomadas, como decisões sobre ERP. Achávamos que
alguns ciclos seriam permanentes, como o CRM,
mas não aconteceram. As grandes decisões de arquitetura
também foram tomadas. Decisões importantes, nos
últimos tempos, só de terceirizar ou desterceirizar.
Assim, o envolvimento com o board caiu, porque
o CIO está tratando do legado, cuidando dos prazos,
dos custos. É o que estamos vivendo, e aí o CIO
fica mais distante do negócio. Até chegar um novo
ciclo de investimentos, não tem alternativa. Exemplos
de ciclos de investimento estão na mobilidade
e nos sistemas de BI — para segmentar clientes,
isto é, pegar informações que a empresa já tem
e usar.
RIBEIRO
— É quando o CIO, por iniciativa dele ou
porque a empresa demonstra necessidade, consegue
trazer algo para o negócio, se antecipa a uma
necessidade. Os exemplos de mobilidade muitas
vezes são desse tipo. Outro dia participei de
um painel onde vários CIOs demonstraram casos
muito bem-sucedidos. Em todos havia esse lado
comum. Eram casos em que se beneficiaram do conhecimento
tecnológico, de determinada oportunidade e levaram
ao negócio uma idéia que foi incorporada como
inovação.
LEONE
— O que eu acho que houve foi: num dado
momento — em 1998, 99, no bug do milênio —, as
empresas precisaram se reinventar. Todos passaram
a participar. Houve a popularização da TI, e a
falsa sensação de que todo mundo entendia de tecnologia,
todo mundo era capaz de tomar decisões de TI.
A gente já enfrentou tantas vezes uma comparação
de preços com o sistema do sobrinho do diretor,
que também é muito bom de computador. Em dado
momento, as pessoas perceberam o valor do profissional
de tecnologia, perceberam que ele era capaz de
tomar decisões boas para a empresa e para os negócios.
EMILIO
— Ele está com toda a decisão só para ele,
e eu interpretaria isso mais como uma oportunidade.
Outra coisa é que, quando eu mencionei a parte
de produtividade individual para produtividade
coletiva, e você inclui toda essa área de mobilidade,
você consegue envolver a alta direção rapidamente,
com soluções de acesso a e-mails e coisas assim.
E uma terceira que o Sílvio mencionou: o sistema
de BI. Que presidente não gostaria de ter um cockpit?
GENESINI
— Ou qualquer solução de compliance?
EMILIO
— Enfim, existem muitas oportunidades.
CARNEVALI
— Por exemplo, no setor financeiro, a convergência
está permitindo que, na tela do atendente, tenha
tudo numa posição só, o saldo, tudo — interação,
não transação. RFID é a maior sacada. Você já
imaginou, o fornecedor trazendo mercadoria antes
que ela acabe, e nem precisa fazer nada? O CIO
que vê isso, que conhece o negócio e consegue
implementar, esse é rei, está na berlinda sempre.
GENESINI
— O fato é que precisa mais. Tem bons exemplos,
mas de uma maneira geral são bons exemplos de
exceção. Talvez a grande coisa que as organizações
ainda não fizeram totalmente e nós, empresas de
tecnologia, já fizemos, é que pegamos as tecnologias
da Internet e aplicamos em nós mesmos, tiramos
muito custo da nossa organização, tiramos papéis
e automatizamos. Provavelmente todos aqui estamos
100% automatizados, aprovamos despesas, compramos
passagem aérea, fazemos pagamento de salário.
Automatizamos quase 100% dos nossos processos
e tiramos uma quantidade de custo muito grande
dos nossos lucros e perdas. E ficamos mais colaborativos.
A maior parte das organizações fez isso só parcialmente.
Talvez isso seja uma grande oportunidade para
você voltar, porque tem impacto em lucros e perdas.
Gostaria de dizer o contrário, porque os CIOs
são nossos clientes, mas eles estão na defensiva.
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