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Surpresas acontecem, mas, na maior
parte do tempo, uma ferramenta de business intelligence
serve para a empresa descobrir coisas das quais
já desconfiava. O projeto é caro e os problemas
começam na escolha do serviço mais adequado. Por
exemplo: um hospital é uma empresa como qualquer
outra, certo? Nem tanto: os fornecedores das empresas
de saúde, dizem os CIOs, não conhecem o setor
de saúde direito. Participaram desta mesa-redonda
(coordenada por Wilson Moherdaui, diretor editorial
do Informática Hoje, e Angélica Freitas, repórter):
Armando Dal Colletto, diretor de planejamento
das Faculdades Associadas de São Paulo (Fasp);
Cláudio Fontes, gerente de informática da Spaipa/Coca-Cola;
Fernando Luiz Braidotti, gerente de TI da Apsen
Farmacêutica; Lilian Neves Quintal, gerente de
TI do Hospital Oswaldo Cruz; Márcio Bechara Poletti,
gerente de TI da Melitta; Marly Kaneda, diretora
de tecnologia e processos do Grupo Inter Saúde;
e Renato Braga, gerente de TI da Ale Combustíveis.
IH — Que tipo de desafio o
BI impõe a empresa?
MÁRCIO
— Quando entrei na Melitta, há dois anos
e meio, havia um projeto grande de BI, mas a empresa
mudava de presidente e o projeto foi cancelado.
Fizemos uma análise de mercado, existiam soluções
maravilhosas, mas o investimento era alto. Sem
uma cultura criada anteriormente, seria mais um
sistema deixado de lado. Então criamos um data
warehouse (banco de dados centralizado), colocamos
em pontos onde a Melitta era carente de informação.
Era um caos para tirar informações do ERP, gerava
muitos sistemas paralelos. Com o data warehouse,
começamos a criar cultura. Foi um sucesso tão
grande (e era um aplicativo pequenininho, feito
em duas semanas) que a direção comprou a idéia.
Trabalhamos para a equipe de vendas, espalhada
pelo Brasil. Fazemos implementações pequenas a
cada dois, três meses, para as pessoas adquirirem
a cultura. Até agora, não precisamos de análises
mais sofisticadas.
ARMANDO
— Sou diretor de uma faculdade de tecnologia,
a Fasp. Fui CIO da Abril e de uma das empresas
do grupo, o Círculo do Livro. Há 20 anos, os clubes
de livro talvez fossem as empresas que mais se
interessavam por conhecer os clientes, porque
tinham um problema muito sério: captá-los. Na
hora de captar o cliente, um clube de livro dá
dois ou três livros, que custam US$ 10, US$ 15,
mas cobra só US$ 1. A gente exercitava muito isso,
só não chamava de BI. Fui CIO da Sabesp quatro
anos e meio. Tinha um software de data warehouse
poderoso e um software de geração de relatórios
e análises, 5 milhões de clientes. Foi interessante
do ponto de vista tecnológico, porém um desastre
cultural. Era muito grande para o estágio da cultura.
Acaba sendo frustrante, você tem uma parafernália
tecnológica e não consegue tirar conclusões. Agora
participo do reposicionamento da escola. A Fasp
é uma faculdade de tecnologia, tem 35 anos, uma
imagem boa. Mas o mercado evoluiu muito. Há cerca
de um ano e meio, precisava se reposicionar. Depois
de análises, chegou-se à conclusão de que havia
três variáveis importantes para atrair alunos:
imagem, ponto e preço. As escolas têm pouca tradição
de captura de dados. Começamos a trabalhar nisso;
em todos os contatos com alunos a gente tenta
juntar variáveis.
CLÁUDIO
— A Spaipa/Coca-Cola é uma franqueada do
sistema Coca-Cola no Paraná e no oeste de São
Paulo. Temos 16 milhões de consumidores, diretamente
ou por meio de 80 parceiros. Tratamos BI dentro
do road map desde o ano passado. Em 1995, no início,
nos preocupamos muito com a parte transacional,
gerar qualidade na informação. Estamos preocupados
com a extração e a disponibilização mais precisa
para o cliente interno. O principal cliente é
a área comercial. Em 1998, implementamos um sistema
de informações gerenciais que capturava informações
de faturamento, disponibilizadas com um software,
numa visão de cubos. No ano passado, investimos
nove meses em discutir a estratégia. Criou-se
n procedimentos, formas de disponibilização das
informações e depois o projeto de implementação.
Erroneamente, você imagina que o projeto é o tempo
de implementação, o período de preparação não
conta. Em 90 dias, o projeto estava no ar, mas
gastamos três vezes mais tempo discutindo.
LILIAN
— Desde 2001, a preocupação do Oswaldo
Cruz foi manter um data warehouse poderoso, para
depois aplicar business intelligence. Em 2004,
o hospital quis comprar uma ferramenta. Percebemos
a falta de conhecimento dos fornecedores sobre
a área da saúde. Hospital é uma empresa lucrativa
como outra qualquer, mas a gente tem uma peculiaridade.
A área de saúde não tem um produto, não saímos
com um catálogo dizendo: tenho para vender uma
cirurgia de amídala, um pronto-atendimento e uma
sutura na testa. Um hospital tem três clientes
básicos: o paciente, o médico e as seguradoras,
os convênios que fazem a remuneração. Com a ferramenta
de BI, o desafio será sempre integrar essas três
áreas. A gente procurou ter o data warehouse de
forma segura e íntegra e partimos para pequenas
aplicações. O mercado de saúde não quer mais caixa-preta
quando o paciente entra no hospital. Seguradora,
paciente e médico querem previsibilidade.
MARLY
— O Grupo Saúde é uma empresa operadora
de planos de saúde, mas temos hospitais e centros
médicos. É difícil trabalhar numa empresa de saúde.
É um segmento à parte, às vezes é difícil convencer
uma área a usar as informações. Mas já trabalhamos
com BI. Toda operadora vive de risco. Se não tenho
a decisão na hora em que tudo está acontecendo,
não consigo ver o futuro. Nós vendemos uma ilusão,
e a gente espera que quem compra a ilusão não
a use nunca. Dentro do BI, eu capto as informações
de pessoas que estão se tornando crônicas para
o núcleo de medicina preventiva. O que falta ainda?
O hospital trabalha com um sistema muito arcaico.
As informações não são estruturadas, não consigo
captá-las. E não é fácil lidar com o pessoal da
ala médica, porque eles não entendem, acham que
aquilo está errado.
LILIAN
— É claro que as empresas não precisam
ter médicos na sua estrutura, mas conhecimento
específico ajuda. Por exemplo, eu estou há 18
anos na área de informática, mas fui enfermeira.
Quem conhece o negócio desenvolve e informatiza
bem melhor.
ARMANDO
— Com os professores, é parecido. As escolas
têm o mesmo problema. No fundo é um distanciamento,
o professor acha que a parte administrativa só
atrapalha. Só faz ele entregar as notas, o que
é muito chato.
FERNANDO
— A Apsen Farmacêutica tem mais de 30 anos,
é bem familiar. Estamos tentando tirar do perfil
familiar para ver se deslancha mais ainda. Nos
últimos cinco anos, a empresa tem crescido bem.
Na parte de BI, a gente não tem nenhuma ferramenta
para gerenciar as informações. Hoje está tudo
na mão do meu diretor financeiro, ele controla
e extrai os dados do ERP. Mas há projeto para,
no começo de 2006, implementar BI.
RENATO
— A Ale surgiu em 1997, mas teve o grande
boom de crescimento em 2000. Ela tem um sistema
ERP meio proprietário. Quando teve o boom, o sistema
tentou acompanhar. Hoje a gente tem essa deficiência,
as informações são trabalhadas por cubo. Temos
um grande conflito entre TI, financeiro e comercial.
Eles vendem, o outro paga e você tem de tentar
mostrar o que foi vendido. Com o cubo a gente
extrai as informações. Mas quem deveria usar melhor
a informação, a área comercial, não usa. A gente
fez uma análise em pontos de venda e chegou à
seguinte conclusão: para o cliente o mais importante
não é preço, é a qualidade do produto, o atendimento
no ponto. O preço entra quase como o terceiro
item.
IH — Vocês fizeram uma pesquisa?
RENATO
— Fizemos. Usamos o chamado cliente oculto,
pessoas da empresa ou parceiros que faziam visitas
no lugar. Por exemplo, uma coisa que não afeta
o público masculino, mas para o público feminino
é primordial: um banheiro em condições de uso.
A mulher considera falha gravíssima se o posto
não tiver um banheiro com condições mínimas, inclusive
com espelho para retoque da maquiagem. Se não,
ela não usa o estabelecimento, não abastece, tomamos
prejuízo. Parece que ela vai abastecer o carro
e usar o banheiro, toda vez.
ARMANDO
— Depois que você descobriu essa história
dos banheiros, você reformou os banheiros do posto?
E aí, aumentou o faturamento?
RENATO
— Reformamos, mas não aumenta o faturamento,
aumenta a fidelidade ao posto.
LILIAN
— É interessante a preocupação com o retorno
do investimento. O BI só vem confirmar se você
conhece bem o seu negócio. Se você toma uma decisão
só baseada no feeling, a chance da decisão ser
errada é maior. Só que o retorno é mais em cima
da segurança da decisão. Um exemplo: como escolho
o hospital? Eu escolho o melhor? Não, escolho
o mais perto da minha casa. A gente já sabia disso.
Por quê? Salvo exceções, abro o livro do meu convênio
e escolho o mais fácil de chegar.
ARMANDO
— A Fasp mudou do Paraíso para a Paulista.
Tinha todo um processo de recrutamento de candidatos
a vestibular, mídia, coisas que indicavam como
esses caras vinham. Quando se inscrevia para o
vestibular, ele dizia como ficou sabendo: UOL,
Terra, Informática Hoje. Aí mudou para a Paulista,
a Fasp colocou um banner na porta: 50% dos alunos
dizem que vieram por causa do banner. Isso eu
não conseguiria prever nunca.
CLÁUDIO
— No varejo, às vezes você chega a surpresas.
Pela forma de segmentação do mercado. A mesma
ação dá resultados completamente diferentes em
bares de São Paulo e bares do interior. Às vezes,
a gente tem surpresas desagradáveis, principalmente
em relação à rentabilidade. Temos rentabilidade
na casa dos centavos, ou seja, precisamos de volume.
Outra questão é até onde TI deve ser envolvida
no BI, enquanto padrinho ou participante. A grande
maioria de TI assume como padrinho. Acabei assumindo
como padrinho e, na primeira reunião, já deixei
claro: vamos acertar as expectativas, porque acho
que deveria começar com a controladoria, com o
CFO. A parte financeira tende a olhar BI mais
pelo aspecto da rentabilidade.
RENATO
— Acho que tem de ser dividido, porque
vai envolver quem paga, quem traz o dinheiro.
Mas de um certo modo TI tem de ser um dos executores
ou articuladores a tocar o negócio. Se deixar
pelo comercial, ele vai querer vender. Se deixar
pelo financeiro, vai achar que não é viável. Não
vou dizer padrinho, tem de ser o testa-de-ferro,
um facilitador, um testa-de-ferro empreendedor.
ARMANDO
— Ser padrinho não é uma boa estratégia.
Acho que o cara de TI acaba sendo um evangelista,
ele consegue enxergar a potencialidade da ferramenta.
Apesar de ser técnico, tem uma sensibilidade do
uso da ferramenta. Ele tem de ter a sorte de conseguir
evangelizar um padrinho. Pegar um diretor comercial,
um diretor de operações, um diretor financeiro
ou, melhor ainda, o presidente, e evangelizar,
mostrar que é importante. Depois do padrinho,
o cara de TI fica no suporte como uma eminência
parda.
MÁRCIO
— No projeto da Melitta, o que a gente
percebeu foi: você entrava em reuniões onde estavam
marketing, vendas e controladoria falando números
diferentes da mesma coisa. A primeira coisa que
a gente fez foi a equalização. Eu conseguia ter
em “vendas sudeste” três números diferentes, que
não batiam, nem com o ERP. Cada um classificava
de um jeito a geografia. Gastamos quase três meses
só acertando isso.
MARLY
— Conceituando.
IH — Vocês têm feito documentação?
LILIAN
— Utilizamos uma ferramenta para documentação,
com o processo de aplicação integrado. É imprescindível
para identificar redundância e outras situações.
Hoje o mercado está mais fácil que há dez anos,
com ferramentas que facilitam o processo. A gente
já penou muito mais para ter documentação online
ou atualizada a cada momento.
CLÁUDIO
— Para a gente, também está inerente ao
processo.
MARLY
— Outra questão importante: a abertura
do BI para quem? Porque é uma ferramenta poderosíssima.
Se o funcionário muda de emprego, pode levar a
história do cliente para outra empresa. Hoje,
estamos só na diretoria e algumas gerências estratégicas.
A área comercial tem um resumo.
MÁRCIO
— Quando os vendedores estão em campo,
para não ficarem conectados muito tempo, segregamos
as informações dos clientes na carteira. Configuramos
o período que eles conseguem ver e o histórico
vai sendo eliminado, até para não ficarem tomando
decisões baseados tanto no passado. O nosso mercado
é complicado, de commodities, 1.500 empresas,
2.200 marcas de café para brigar. Você tem de
ter informação e agir rápido. Então, antes de
criar para o nível estratégico da empresa, a gente
criou para o nível operacional. Meu vendedor vê
a realização de ontem, as vendas dele, a projeção
de estruturas de preço e volume.
IH — Como vocês pensam a estratégia
de implementação de um sistema de BI? Pensam grande
e começam a instalação por etapas?
MÁRCIO
— Exato. Você tem que ter a visão de onde
quer chegar.
LILIAN
— O caminho é esse. A gente não sabe quantos
andares esse prédio tem, nem que fachada, porque
na verdade está construído em áreas onde a decisão
precisa ser ágil. É claro que a meta final, ter
um painel de controle, é construída dia a dia.
No meio do caminho, de acordo com o mercado, vai
ter alterações, vai tender para uma área ou para
outra.
IH — Ao escolher ferramentas,
que características são fundamentais?
MÁRCIO
— Flexibilidade é uma. Facilidade de uso
e de implementação. Às vezes, você vê ferramentas
maravilhosas, mas já percebe de cara que o usuário
não conseguiria usar, a catequização demoraria
muito tempo.
CLÁUDIO
— Você faz mentalmente um desenho, um road
map do que pretende, para garantir primeiro um
plano de aderência, para depois não errar na infra-estrutura.
Você pode não começar pelo 19.º andar do prédio,
mas quando chegar no 19.º, se a infra-estrutura
suportar só até o 10.º, vai começar a afundar.
LILIAN
— A gente percebe muito pouca preocupação
em relação à segurança, o quanto uma política
de segurança está embutida nesse processo. Não
estou falando só de liberações de usuários, mas
do próprio processo. Há muita tecnologia com a
web, o valor da informação é uma das análises
que fazemos na hora da escolha. E o preço, é claro.
MARLY
— Fornecedores que tenham consultores especializados.
Que conheçam o mínimo do segmento, estudem isso.
A gente compra o pacote, aí eles colocam alguns
consultores na empresa, eu passo todo o know-how,
mas eles não entendem o que estou dizendo. Se
viesse um consultor ou fornecedor e falasse: “No
seu segmento, o BI pode ser usado aqui e você
pode ganhar aqui, aqui e aqui, você pode ganhar
em qualidade...” Nossa, conquistou!
FERNANDO
— Acho que integridade dos dados também.
Não adianta você enumerar toda a informação e
jogar num lugar que não está íntegro.
ARMANDO
— A ferramenta tem de acessar qualquer
coisa. Perde-se muito tempo reformatando base
de dados, passando para lá e para cá. Outra coisa
é que BI é matemática. A ferramenta, para ser
boa e eficaz, tem de ter um ferramental estatístico
poderoso e fácil. A cultura é um pilar. Outro
pilar é a ferramenta em si, a tecnologia. Outro
é a especialidade, que se reflete no consultor,
mas você tem que ter alguém como contrapartida
na organização. Senão, quando o consultor vai
embora, leva todo o conhecimento. E o quarto pilar
são os dados. Não consigo fazer BI sem dados,
é preciso saber depurar, limpar, ter segurança,
sigilo. A gente tem sempre que se lembrar dos
quatro pilares.
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