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Se a TI de uma empresa na área
da saúde espirra, aparecem dez fornecedores com
remédios. Mas a gripe continua. Os CIOs se queixam
— seu negócio é diferente, os vendedores não entendem.
Os CIOs querem ser parceiros no desenvolvimento
das soluções, deixar de ser cobaias que pagam
por elas. A área é cheia de características únicas;
a padronização, o maior desafio. Participaram
desta mesa-redonda (coordenada pelo diretor editorial
do Informática Hoje, Wilson Moherdaui, e pelo
repórter Fabiano Candido): Regina Maria de Souza
Pistelli, diretora de informática e telecomunicações
do Fleury Medicina Diagnóstica; Márcio Quirino
de Oliveira, executivo de TI da Pró-Saúde; Vagno
Antônio Gomes, coordenador de informática do Hospital
Metropolitano de Vitória (ES); Iberê Lima Ranieri,
coordenador de sistemas do Hospital Nossa Senhora
de Lourdes; Luiz Carlos Stuart Júnior, gerente
de TI do Hospital 9 de Julho; Moacyr Campos, diretor
executivo do Hospital Santa Catarina; Marly Kaneda,
diretora de tecnologia e processos do Grupo Inter
Saúde; Klaiton Ferretti Simão, gerente de TI do
Hospital do Sepaco; e Fábio Martins Pereira, consultor
de informática do Santa Helena.
IH — Quais são os principais
desafios da TI na área da saúde?
REGINA —
Toda
a cadeia sofre com a crise na área da saúde, com
o envelhecimento da população mundial. Novas tecnologias
levam a saúde melhor, mas também a gastos maiores.
Há ainda pouco investimento do governo, e os planos
privados crescem muito. O setor privado gasta
55% do que é gasto em saúde. Temos fraudes, pessoas
sem acesso acabam usando. Algumas coisas podem
ser feitas. Uma é a padronização de processos.
Como nas demais áreas de negócios, há três pontos
importantes: processos, TI, gestão de pessoas.
Estou há dois anos na área de saúde. Percebo que
a complexidade aumentou, há muita competição.
Fornecer bom serviço, a custo adequado, está mais
complexo. Inovação não pode existir só pela inovação,
tem de haver retorno. Meu processo de atendimento,
no Fleury, é específico. Quero diferenciação,
invisto nisso, mas nos processos de back office
procuramos padronização. Quanto ao mau uso, estamos
trabalhando bastante na validação eletrônica,
garantir que aquele paciente é ele mesmo e tem
direito ao plano. A área de saúde deveria se unir,
ter mais fóruns, mais processos para definir padrões.
Quando a coisa não é bem-feita, acabamos transferindo
custos.
MÁRCIO — A Pró-Saúde
administra hospitais públicos e privados em diversas
regiões do país. Nosso desafio é a diferença entre
eles, temos de hospitais muito pequenos, com custo
alto e poucos clientes, a hospitais de grande
porte. Falta de padronização é um problema constante.
TI é importante, mas nem sempre o hospital tem
capacidade de investimento. Nos hospitais maiores
é mais simples, há mais atendimento. Mas é complicado
instalar ERP nos pequenos. A informatização é
algo novo, promissor. Para agilizar processos,
centralizamos a administração, unindo hospitais
pequenos para ganhar porte. Tem o alto custo da
tecnologia. Os hospitais ainda não têm estrutura
para transformar prontuário manual em digital.
Um grande empecilho é a adaptação dos médicos.
Há resistência. Tem o problema da certificação:
o prontuário eletrônico precisa ter a assinatura
do médico. Com o cartão virtual, o médico pode
fazer a assinatura digital certificada. Mas é
um negócio complicado. Toda a equipe deve estar
cadastrada.
VAGNO — Talvez
a maior dificuldade esteja na gestão das pessoas
e na interferência do médico nos processos. A
rotatividade, principalmente na enfermagem, é
grande. Se as rotinas são pautadas e otimizadas
conforme a necessidade da instituição, se o pessoal
é motivado e bem treinado, o software passa a
ser o terceiro ponto de equilíbrio. A gente investiu
nos últimos três anos R$ 1 milhão num software
de gestão. A linha de frente está bem servida.
Quanto ao prontuário eletrônico, esbarramos na
regionalidade, nem todos os hospitais têm sistemas
de informação ou se integram. Não adianta gerar
um CD com informações do paciente se o médico
não vai fazer nada com aquilo. Quando entrei no
hospital, já peguei uma infra-estrutura preparada.
Tinha um software de gestão desde 2001. No começo
foi dolorido, mas o problema é o back office —
dão a linha de frente, mas não a retaguarda. Tem
que trabalhar na unha com custo, porque para pensar
em ter BI, precisa ter toda a infra-estrutura
rodando. Não basta ter boa entrada de informações,
mas trabalhar com esses números. Se eu disser
que a ferramenta nos oferece isso, estarei mentindo.
IH — Ela oferece, é que as
pessoas não usam...
VAGNO
—
Oferece muita estatística
e a gente trabalha com isso, os valores faturados
em cada unidade. O ideal seria que tudo estivesse
integrado. A contabilidade é terceirizada e prefere
trabalhar à parte. Outro problema é integrá-la
ao sistema de gestão.
IBERÊ
— O desafio é o equilíbrio, porque a empresa
tem de crescer. A receita precisa aumentar, mas
não aumenta na proporção necessária e precisamos
reduzir despesas. Enfocamos o trabalho na área
de suprimentos, onde está o maior custo. A área
de TI passou a focar em compras, almoxarifado
e farmácia. Havia um sistema no Nossa Senhora
de Lurdes há 12 anos, numa tecnologia mais antiga,
dos primórdios da mudança do mainframe. O hospital
adquiriu um sistema pelos anos 90. No Brasil,
informática é despesa. Se vamos falar com um diretor
sobre crescimento na área de informática, ele
já fica resistente, porque não vem receita rápida.
Quem mais cresceu no Brasil foram instituições
financeiras e supermercados, os que mais investiram
em informática no país. Não vejo a mesma coisa
na área da saúde. Quando a gente consegue arrancar
esse investimento, ele vem bem filtrado, bem restrito.
Para cada passo, é preciso muita argumentação.
Por isso a aposta em terceirização — nunca recebi
tanta ligação de empresas propondo terceirização.
IH — Em que áreas?
IBERÊ
— Na TI, principalmente de impressão. Impressora
é complicada. Quem fabrica dá três, quatro, cinco
anos de garantia no microcomputador, mas ninguém
garante impressora. As propostas são: eu coloco
as minhas máquinas aí, você compra os toners e
os cartuchos de mim, e não se preocupe com assistência
técnica. Comprou-se muita impressora a jato-de-tinta,
o preço é baixo, mas se esquece do cartucho. Com
dois ou três cartuchos, você paga a impressora
duas vezes. Aí começa um processo difícil, de
cultura. Todo mundo está acostumado com a impressorinha
ao lado.
LUIZ CARLOS
— No 9 de Julho temos um ERP há mais de
três anos, ferramentas de BI, painéis de desempenho,
tudo numa gestão recente. O hospital vinha de
administração familiar e está se profissionalizando.
O grande desafio é atender a três grandes clientes:
paciente, médico e fontes pagadoras, cada um com
suas expectativas. O governo regulamenta os aumentos
e a cadeia que se ajuste. E temos as novas tecnologias,
quero dar o melhor atendimento ao paciente. O
valor disso muitas vezes não se reflete nas tabelas.
Integração e padronização são de extrema importância.
Dentro do 9 de Julho, há uma central com 12 pessoas
só para controlar autorização de guia. Se houvesse
integração, o sistema sozinho faria follow-up
ou workflow junto à fonte pagadora. Criamos também
um setor de planejamento e controle, para custos
e controle de pacotes. Outra realidade: ou o hospital
empacota aquele procedimento ou está fora do negócio.
MOACYR
— A população está envelhecendo. Boa parte
da nossa receita vem do paciente com mais de 65
anos, que várias vezes por ano está no hospital.
A demanda por tecnologia também preocupa. A fraude
e a elevação do custo da tecnologia aumentam o
custo administrativo. Uma pesquisa mostra que,
em média, o custo administrativo está em torno
de 12% do custo final da operação de saúde. No
Brasil, o único dado é da CPI dos planos de saúde,
que fala de 24% a 27%. O Brasil tem em torno de
6.700 hospitais, 40 hospitais são acreditados
e menos de 120 têm ferramentas de gestão de TI.
Nesse universo, temos uma grande oportunidade
de diminuir custo. Quero fazer um mea-culpa. Eu
fui médico. O médio é o único personagem com risco
de imprevisibilidade, porque todo o processo é
previsível. Um exemplo clássico: o sujeito entra
no hospital para operar uma hérnia, por um pacote
com uma seguradora, na faixa dos R$ 3 mil. No
processo anestésico, tem reação alérgica, vai
para a UTI, pega pneumonia, evolui para infecção
por fungo. Depois de seis meses, passa a custar
R$ 300 mil.
IH — Como é a relação com as
operadoras?
MOACYR
— A gente trabalha com 50 operadoras de
saúde, cada uma pode ter cinco planos diferentes.
Se tem 120 convênios, são em torno de 400 plataformas
de negociação. A todo momento o sujeito se sente
no direito de mudar uma cláusula, um campo. Se
um aeroporto tem 25 companhias aéreas e funciona,
será que nós, hospitais, não poderíamos ter uma
plataforma única de relacionamento? Não poderíamos
gerar uma plataforma única para que eles trabalhassem
de forma transparente e honrosa conosco? Em algumas
situações percebemos uma certa má vontade, intenção
de postergar o pagamento.
IH — A busca de uma plataforma
única é iniciativa de quem?
MOACYR
— A Abramge (Associação Brasileira de Medicina
de Grupo) tem conduzido uma conversa entre operadores
e prestadores. Até por uma normativa da ANS (Agência
Nacional de Saúde Suplementar), de padronização
de contrato. A plataforma única é mais complicada,
demanda tempo. Na saúde, temos dificuldade de
ter inovação tecnológica que não seja em diagnóstico
e assistência.
MARLY
— Não adianta a Abramge querer fazer, já
tentou há sete anos. As seguradoras não querem
esse padrão Abramge. Quando a gente fala de padronização,
quem tem de impor é a ANS. Não defendo a ANS.
Mas eles estão tentando padronizar. Os prestadores
também têm de ter um padrão. O setor de contas
médicas é uma fábrica. Se tivesse um padrão, não
precisaria de 50 pessoas apurando o que o hospital
e o laboratório me mandam.
IBERÊ
— O exemplo mais forte de padronização
são bancos e supermercados. Ninguém mais tem diversificação
tão grande e é tudo padronizado. Se quiser entrar
no segmento, tem de seguir o padrão estabelecido
ali.
MARLY
— O Banco Central é forte. A ANS não tem
força.
VAGNO
— No Espírito Santo, conseguimos ter um
padrão de contrato. Os hospitais se organizaram,
o sindicato ficou fortalecido. O grupo botou a
faca no peito de uma operadora muito grande, as
outras começaram a ficar acuadas. Todo contrato
passa pelo sindicato, todos os hospitais avaliam.
Barramos a entrada de cinco ou seis operadoras
novas no Estado em função disso.
KLAITON
— O que aparece muito nessa discussão é
a profissionalização da área de saúde. Isso se
discutia na década de 80 na área industrial e
na década de 90 em comércio e serviços. É o supply
chain, a cadeia de suprimentos, a padronização
dos processos. Quando alguém entra no negócio
saúde, não consegue mais se comportar como um
mero analista de sistemas, tem de se embrenhar
num negócio tremendamente específico. Tive de
jogar fora quase todo o conhecimento de negócios
que consegui na indústria e no comércio. Essas
angústias aconteceram lá atrás, em outras áreas,
e elas foram sanadas pela dor, nunca pelo amor.
É a margem diminuindo, a necessidade de administrar
estoque. Isso obrigou indústria, comércio e serviços
a sofisticar a gestão com uso de ferramentas de
TI. De 1998 para cá, houve uma profissionalização
enorme da área de saúde em TI. De dois anos para
cá, parece mais drástico ainda.
FÁBIO
— O desafio é desenvolver a tecnologia,
manter sua qualidade, e gerenciar custos. Nas
operadoras, há a dificuldade de regulamentação
imposta pela ANS, que acaba sendo benéfica, porque
você acaba tendo mais gerenciamento. Como temos
dez unidades de atendimento, nos preocupamos muito
com a comunicação, sistemas novos. Vejo uma grande
dificuldade: você não tem um sistema padronizado
para hospital. Partimos para o desenvolvimento
próprio. Nosso hospital é informatizado, tenho
prescrição eletrônica. A gente não conseguiu terceirizar.
Chegamos a um nível bom de informatização, o hospital
foi inaugurado em julho de 2004 e nove meses depois
conseguiu creditação (registro especial na ANS).
Cada área parece uma empresa. O raio X tem um
funcionamento, a tomografia tem outro.
IH — Vocês chegaram a instalar
e desinstalar um ERP?
FÁBIO — Chegamos
a instalar, mas não era aquilo que precisávamos.
Descobrimos que é melhor desenvolver. A chamada
de enfermagem é interligada ao sistema. Não é
um sistema meu, mas com os bancos de dados e as
linguagens de programação modernas você consegue
facilmente integrar a terceiros. O esqueleto do
negócio tem de ser próprio.
LUIZ CARLOS —
No 9 de Julho, eu uso um ERP, mas houve uma adaptação
enorme no sistema, custou caro. Tive ganho de
faturamento de 18%. Mas foi pelo ERP? Não exatamente.
Refiz parâmetros do sistema, tive de ler contratos.
Conseqüentemente, algo esquecido no sistema interno
foi revisto. Passou-se a fazer cobrança correta.
Se for desenvolver um sistema para hospital, o
analista tem de ir lá e sentir o ambiente. O que
falta é isso. O desenvolvimento interno ajuda
nisso, porque você olha e altera para aquela necessidade.
IH — Existem riscos no desenvolvimento
interno?
KLAITON
— O desenvolvimento interno reflete a organização,
e pode não trazer as melhores práticas. O segundo
risco: qualquer ERP nasceu de demanda. Nos hospitais,
99% da demanda é gerada pela necessidade de registrar
faturamento. Mas a empresa precisa ter uma estrutura
de processos que já funcione de forma eficiente.
Sistema não é computador, sistema é um conjunto
de processos interligados. Só vem automatizar.
Se o processo está ruim, o sistema vai ser ruim.
Às vezes, o ERP nos hospitais vem fazendo o caminho
inverso, vem para criar o processo.
IBERÊ
— A principal dificuldade é alinhar a direção
da empresa àquilo que você vai fazer. O problema
é como a instituição está, lastro financeiro,
condição de espera. Em alguns casos, começa a
se desenvolver e começa a impaciência dos donos:
“Mas isso vocês estão desenvolvendo há quanto
tempo? Não termina mais?”
KLAITON
— Mas olha só o que você falou: “Vocês
estão desenvolvendo”. De quem é o desafio de implantar
um sistema de gestão, é da área de TI? Eu acho
que é da instituição.
IBERÊ
— No ERP, o tempo é fundamental. Quando
você vai definir sistemas, precisa do usuário,
ele vai ser o dono. Na área de saúde, experimenta
parar uma pessoa para te ouvir. Você tenta marcar
40 reuniões, vai conseguir duas, se tiver sorte,
e o cronograma está comendo solto. Esse pessoal
ganha por hora.
MARLY
— Temos um software integrado de gestão
de plano de saúde. É muito legal, focado no negócio,
não na operação. Não existem no mercado pacotes
de gestão de plano de saúde, porque cada um tem
a sua forma de gerir. Os fornecedores querem sempre
juntar com uma operadora para pegar o know-how
e depois vender o pacote. Essa é a verdade.
IH — Quem deve definir a padronização?
MARLY
— Existe um quarto player no mercado, os
prestadores de serviços na área de saúde. Estou
falando na área de TI. As pessoas que entram no
segmento saúde, na área de TI, são muito despreparadas.
O negócio é muito diferente de uma indústria.
Os fornecedores poderiam ajudar na padronização,
começar a conhecer um pouquinho mais o segmento.
Talvez eles tenham até medo de entrar.
VAGNO
— A gente deve usar o mesmo ERP. De certa
forma, isso acaba acontecendo. Precisamos definir
o principal fornecedor e saber cobrar. Recebi
um e-mail sobre se unir para ter uma prestação
de serviço em comum pelo fornecedor de ERP. Às
vezes existem ferramentas comuns para os 400 hospitais,
o custo pode ser compartilhado.
KLAITON
— E talvez o custo já esteja sendo pago
por você, através da manutenção mensal, etc. Mas
isso reflete o processo de maturação. Por que
tanta personalização? Por que tanta falta de aderência?
Daqui a cinco anos, a curva vai ter de declinar.
O 9 de Julho foi pioneiro na implementação do
sistema x, incorporou uma série de práticas, quem
veio depois se beneficiou disso.
MARLY
— A saúde despertou nos fornecedores de
TI uma curiosidade. É um segmento ainda não explorado.
A área industrial já está, a financeira já está.
Eles estão se voltando para a saúde há três, quatro
anos. Tenho sido abordada por vários fornecedores,
grandes, para fazer parcerias. Eu passo know-how
e eles não cobram nada. Tenho duas propostas de
sistema hospitalar, para passar o know-how de
hospital, assim eles vendem o sistema no mercado.
Mas o governo tem de ajudar, a ANS tem de comandar
a padronização.
REGINA
— Sim, tem o governo aí para regulamentar,
mas se ficar só esperando o governo, complica.
Temos visto iniciativas em vários segmentos da
sociedade, grupos se unem e conseguem fazer muita
coisa. Vimos isso na área de TI durante esses
anos todos. Os bancos se viraram sozinhos, no
final. Trabalhei muito tempo em banco multinacional.
A impressão é que foram os bancos que disseram
ao governo o que fazer, e até hoje não é muito
claro quem manda em quem. Padronização é muito
importante. Os fornecedores não são inimigos,
eles só não conhecem a área. Por outro lado, estamos
muito preocupados porque percebemos a rentabilidade
cair. Mas, se percebemos tudo isso antes que o
negócio despenque de vez, significa que tem muita
gente inteligente nesse mercado. Cabe à TI entender
que é uma relação de parceria e que nós, da tecnologia,
somos inovadores por natureza.
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