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IH
— Quanto aos sistemas de billing, quais
têm sido os desafios principais?
LUIS
— Nosso desafio é atender
às necessidades do dia-a-dia, mas nesse
clima de grande competição entre
as operadoras no Brasil, com a necessidade de
inovar e de lançar novas ofertas quase
todo dia. Isso impacta o sistema de faturamento;
sem faturar, não adianta nada lançar
novos produtos. E ainda existe o desafio de levar
o cliente a usar os novos serviços. Ao
mesmo tempo, estamos realizando um grande projeto
de consolidação de sistemas —
cada uma das seis operadoras que formam a Vivo
tinha seu próprio sistema, alguns de tecnologia
antiga. Casar as duas coisas é quase uma
obra de arte. É difícil decidir:
lançamos um produto agora no sistema legado,
que vamos abandonar em um mês, ou adiamos
o lançamento? Às vezes, lançamos
planos de pagamento mais simples, só para
estimular a apetência do público,
que a seguir sustenta um modelo de negócio
mais completo.
DANIEL —
Uma explicação: sou responsável
por duas empresas, a Iqara, uma operadora de operadoras,
com um billing feito para grandes clientes como
a Embratel; e a DirectNet, um provedor de Internet
com 32 mil clientes no Estado de São Paulo*.
Começamos a Iqara do zero em 2002, fomos
ao mercado procurar um billing, mas todos eram
inconcebíveis para o nosso negócio,
e então todo o nosso sistema foi montado
em casa, e ele é conectado a nosso ERP.
Na DirecNet também, compramos a empresa
em 2004, tentamos trazer um billing da Índia,
mas aproveitamos nossa experiência e acabamos
fazendo em casa também. Toda a parte de
faturamento é distinta, mas a interface
com o banco, o recebimento de pagamentos e a cobrança
de faturas, tudo isso a gente faz com o ERP, da
Microsiga. Já tínhamos bastante
conhecimento, tínhamos parceiros, tínhamos
o ambiente interno todo estável, e então
conseguimos muita sinergia.
IH — Em 2004 não
existia nada no mercado que lhes servisse?
DANIEL —
Fizemos uma RFP, escolhemos quatro fornecedores,
e fomos visitar sistemas em produção.
Tínhamos 22 mil clientes, mas visitamos
sistemas para 1 milhão, 2 milhões
de clientes. O patamar mínimo era US$ 1
milhão. E provedor de acesso é complicado,
tem e-mail, tempo de acesso, hospedagem, armazenagem
de dados. Nenhum sistema de mercado daria retorno,
fora que, no caso de problemas, eu teria de trazer
estrangeiros, ou mandar gente para o exterior
para treinar. Com Internet, o modelo de negócios
precisa ser muito enxuto.
LUCIANO —
Todos conhecem a Sky Brasil, uma TV por assinatura
com uns 950 mil assinantes. Desde o início,
o principal desafio era ter escalabilidade. Também
era cobrir o mundo do assinante dentro de casa:
combinações de pacotes, canais de
temporada (como os campeonatos de futebol), novos
conteúdos, novos planos de pagamento, pay
per view. Como dar apoio ao pessoal de marketing,
vender tudo isso e cobrar tudo isso? Há
muitas campanhas de aquisição, para
trazer novos assinantes, em cada campanha damos
algum benefício. Encomendamos o billing
de uma empresa nacional, um sistema orientado
a objetos, para que as personalizações
ficassem mais baratas. Temos uma matriz de combinações:
12 pacotes obrigatórios, 13 pacotes opcionais,
eventos de temporada e combinações
disso, ofertas casadas. Precisamos controlar esses
benefícios, inclusive em canais distintos,
como call center, URAs, Internet. Isso nos obrigou
a colocar as regras de negócio numa única
camada, num único engine, que fizemos em
Corba. Qualquer equipamento que fale Corba, como
um sistema de mensagens SMS, consegue se relacionar
com o billing da Sky.
IH — Alguma vez
o billing (e a TI) atrapalhou uma campanha?
LUCIANO —
Aqui é meio a teoria da evolução,
o predador e a presa, o pessoal de marketing e
o pessoal de TI. A gente vai ficando mais rápido
e assim eles não nos alcançam; e
eles vão ficando mais ferozes... Tirando
a brincadeira, fizemos um trabalho de aproximação
da TI ao negócio, para confundir a TI com
processos. Isso foi tão longe que, por
um ano, eu fui gerente de produtos da Sky, para
ver o problema. Como estive lá, agora eu
sei quais são as necessidades do pessoal
de marketing. A idéia é ter um sistema
flexível para suportar bastante coisa —
mas flexibilidade completa exige complexidade
completa. Perto do negócio, eu consigo
saber o que vai acontecer, consigo mostrar o que
a TI é capaz de fazer e consigo, até
certo ponto, influenciar o modo como as coisas
são feitas.
CEZAR —
Às vezes, começamos a vender amanhã
para faturar só em 20 dias, e então
usamos esses tempos para avaliar o novo serviço.
E também fizemos como a Sky: nosso gerente
de produtos veio de TI. Ele cuida do CRM, conhecia
toda a interface, e então quando falamos
com o marketing, falamos com um sujeito que vestiu
a camisa da TI. Sobre a Tmais: foi criada como
uma espelhinho, em 1999, mas começou a
funcionar mesmo em 2001. Temos um pouco de tudo:
rede sem-fio, com tecnologia CDMA, em Lajeado
(RS), rede cabeada, um projeto de VoIP em quatro
capitais; temos acesso à Internet e pré-pago.
Atendemos mais empresas. O billing sofre muita
pressão. Os dois produtos que o cliente
usa o tempo todo são a voz e a fatura,
que chega todo mês. Tomamos cuidado para
só liberar coisas quando o mercado está
pronto. Temos mais de 70 produtos dentro do billing,
e esses produtos são divididos por localidade,
tipo de acesso, etc. Até agora não
tivemos problema com o billing, mas a complexidade
aumenta e as coisas ficam mais velozes. É
uma preocupação constante, nossa
maior equipe está dedicada ao billing,
são cinco pessoas, porque nele está
também a parte financeira, contas a pagar
e a receber, cobilling. Conforme a gente vai crescendo,
o importante é manter o foco na estratégia
— billing ou qualquer outro sistema não
pode ser empecilho.
ANTONIO —
Vejo três desafios: o primeiro é
o sistema a usar. No segmento de TV a cabo, passamos
por muitas consolidações, e então
o esforço foi para a migração
de sistemas. A própria Vivax é uma
empresa de TV a cabo e foi formada há um
ano, de outras empresas. Migração
demanda muito recurso. Hoje, os sistemas ou são
feitos por empresas brasileiras ou são
próprios, porque os sistemas americanos
eram muito grandes. Só que, no caso dos
fabricantes brasileiros, a operadora precisa bancar
uma parte do desenvolvimento. O segundo desafio:
a competição. Quem não tem
criatividade fica para trás, temos uma
pilha de requisitos que o marketing gostaria de
ter, e vamos tentando atender. E o terceiro: começamos
como uma empresa de TV, mas hoje nos posicionamos
como uma empresa de multisserviços digitais
— 30% da nossa receita já é
banda larga. Queremos vender serviços de
voz. Mas e se o cliente de três serviços
só paga uma parte da conta, só paga
dois, o que fazer? Desconecta só a voz?
Desconecta tudo? Combina o que fazer? Não
tínhamos problemas assim antes, quando
era só TV.
ARTUR —
A TIM começou no Brasil comprando empresas,
elas na época usavam tecnologia TDMA, e
existiam então quatro áreas de informática,
em Curitiba, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro,
onde está hoje a grande informática.
Fizemos um grande esforço no lançamento
da tecnologia GSM em 2002, começamos a
nos preocupar com a consolidação
de sistemas e com cobrir as duas tecnologias,
com uma estrutura única de criação
de software. Até o final de 2003, passamos
pelo processo de espelhar as bases de billing.
E acabamos fazendo o desenvolvimento de um sistema
multimarketing, para que viéssemos a ter
contas únicas em ambas as tecnologias,
pensando no mercado corporativo, que tinha uma
base instalada expressiva de TDMA. Evidentemente,
o cliente quer uma fatura única com a história
toda. Outra coisa complicada, mas positiva, foi
o crescimento do número de clientes, que
duplicou em um ano, e nos obrigou a mexer na arquitetura
dos sistemas. E um ponto sempre importante é
o serviço de valor adicionado, para aumentar
a receita. Temos uma equipe de criação
bem atuante na Itália e no Brasil. Os problemas
são maiores com serviços como o
envio de mensagens multimídia, fotos e
tudo o mais, porque o billing é processado
em lotes (não é online). E lançamos
novos serviços quase duas vezes por mês.
E a meninada quer ver TV no celular. Como administrar
tudo isso no billing? Em alguns momentos, o billing
é gargalo para as criações
do marketing. Assim, em 2005, passamos o ano reestruturando
a área de informática, e agora sou
o encarregado de uma área nova, a de gestão
de relacionamentos. Tenho um grupo de técnicos
e muitas pessoas das áreas de negócios.
Acabamos de fazer o plano de projetos 2006/2007.
Alguns desses planos até exigem a criação
de sistemas satélites, que demandam mais
tempo. Hoje, as áreas de negócios
já têm noção das dificuldades
de TI, e então, para os grandes lançamentos,
eu começo a trabalhar meses antes. Outra
coisa importante é o pólo de desenvolvimento
tecnológico que criamos em Santo André
(SP). Temos uma fábrica de software com
centros de competência em billing, pré-pago,
pós-pago, mediação, provisionamento.
É lá que também adaptamos
o que trazemos da Itália. O grande desafio
dessa brincadeira toda é o serviço
de valor agregado, a convergência, o download.
O sistema que mais tem nos dado trabalho é
o de relacionamento com as empresas de TV, com
bilhetagem por tempo e por filme.
MANEL —
Temos um legado grande, com sistemas em serviço
há 30 anos. Nos primeiros quatro anos,
o desafio foi atender a fila de clientes não-atendidos.
O cenário mudou muito com os celulares:
diante dos bonitos aparelhos celulares, é
difícil defender o valor da empresa com
uma linha telefônica fixa. Então,
a empresa precisa transformar seus produtos, para
vender mais que um simples número, e por
isso começamos a usar todas as funcionalidades
da linha telefônica, por exemplo, adicionando
o acesso à Internet. No meio de tudo isso,
tem o famoso sistema brasileiro de seleção
de prestadoras de ligações de longa
distância — então nosso billing
é bem complexo. Os sistemas prontos de
software não contemplam essas coisas todas.
E temos presença na Argentina, no Peru
e no Chile, todos com legados bem antigos. Era
preciso fazer um investimento para trocar esses
sistemas. Fizemos algo parecido com a indústria
de carros, que trabalha no conceito de plataformas:
estudamos o assunto do billing durante três
anos, e em vez de correr atrás de uma solução
para cada problema, definimos um grande espaço
de soluções, em que o marketing
pode mexer; 90% dos problemas possíveis
já estão lá. Fizemos o desenvolvimento
nós mesmos, a primeira instalação
foi feita em dezembro de 2005, já temos
12,5 milhões de clientes nesse sistema,
com todo o ciclo de cobrança e o catálogo
de serviços. O ano de 2005 foi terrível,
um sistema desse tamanho é um desafio para
o desempenho dos sistemas e é um desafio
noturno. O billing tem forte componente noturno,
e como ele não é online, a noite
é jovem e está a nosso favor. No
meio de tudo isso, surgiu o ADSL, com a propriedade
de rejuvenescer coisas já velhas... Como
o produto de voz tem muitos competidores, a exigência
do marketing é vender ADSL muito rápido.
Com a pressa, o melhor seria cobrança flat,
mas esse tipo de cobrança é para
mercados decrescentes. Resolvemos combater as
deficiências da tecnologia, e desenvolvemos
também um sistema para a banda larga, que
cobrasse por banda, tempo de conexão, horários.
Esse sistema está pronto, fizemos um ou
outro lançamento, a gente precisa massificar
isso e, portanto, precisa diversificar muito o
portfólio. E aparece um novo conceito de
billing — online. Queremos saber o que o
cliente está fazendo, para oferecer novos
produtos, novas banda, um acelerador de downloads,
etc. Com tudo isso, já estamos com mais
de 100 milhões de CDRs por dia (CDR é
o pequeno arquivo com os detalhes de cada chamada
telefônica, gerado pela central telefônica
e transmitido aos sistemas que preparam os CDRs
para o sistema de billing). E vem a necessidade
de vender não só linhas e minutos,
mas pacotes de minutos, como as celulares fazem
desde o começo. O fato de já ter
trocado o billing nos deixa numa situação
mais confortável, já que trocamos
a programação por configuração.
Outro desafio pela frente é o triple play,
não teremos um single play multiplicado
por três, não queremos três
sistemas artificialmente unidos na mesma conta,
mas um sistema só, que nos permita oferecer
descontos cruzados, o que não é
básico, pois precisa integrar várias
etapas de rating (avaliação de risco
de crédito). Esse sistema todo foi desenvolvido
no Brasil e já está instalado nos
outros países da América Latina.
IH — Qual é
o futuro dos sistemas de billing?
LUIS —
Toda a questão do billing tem a ver com
comunicação. Mais de 90% dos nossos
clientes não saberiam explicar quanto custa
a utilização de um serviço.
Eles assinaram o serviço em meio a uma
campanha promocional, e, no fim de três
meses, ou seis meses, quando a promoção
termina, eles nem lembram mais o que compraram.
Portanto, o desafio é mais de comunicação
com o mercado, nem tanto de tecnologia. Outro
desafio é o de controle de risco. Com toda
a diversidade de serviços, podemos oferecer
mais coisas do que podemos explicar ao cliente
em campanhas publicitárias. Apresentamos
a fatura ao cliente no fim do mês, e assim
o que fazemos é dar um crédito ao
cliente, como faz a empresa de cartão de
crédito, só que nem sempre esse
crédito está bem explicado. Então,
mesmo para clientes pós-pagos, precisamos
de sistemas que controlem a conta do cliente em
tempo real. Não vamos faturar em tempo
real, mas precisamos acompanhar a conta em tempo
real, e até avisá-lo de possíveis
problemas na conta. Então, ainda é
difícil comunicar de forma clara o que
o cliente está pagando. Já resolvemos
vários problemas de tecnologia, resolvemos
até a distribuição de filmes
pelo celular, mas as questões básicas
da fatura continuam importantes: pontualidade,
exatidão e clareza. Não adianta
ela ser pontual e exata, se em seguida o cliente
liga para o call center e discorda da conta, porque
ela não está clara. Ou vamos para
um negócio em que todas as tarifas são
flat, mas depois fica difícil a empresa
crescer, como o Manel já disse, ou teremos
de ser capazes de explicar com clareza ao cliente
os produtos que ele está consumindo.
LUCIANO —
Ao entregar essa capacidade de trocar a conta
em miúdos, estamos quase entregando um
business intelligence para o usuário. E
mesmo assim ele pode vir a reclamar da conta.
MANEL —
Esse tema é importante. No caso de talvez
90% dos clientes, a interação mensal
é com a conta. Aquele papel estabelece
a relação entre o que ele usa, de
forma natural, e o contrato que ele assinou. À
medida que o telefone entra em outras camadas
sociais, de gente mais humilde, o desafio de esconder
a complexidade dos nossos serviços em explicações
simples fica ainda maior.
ANTONIO —
Outro desafio para a operadora é a distinção
entre clareza e comprovação. Uma
coisa é a conta bonitinha. Outra coisa
é comprovar que o cliente usou o serviço
que ele está dizendo que não usou.
E aí o sistema de billing fica muito dependente
de outros sistemas de nível mais baixo
na operadora, como provisionamento e workflow.
Essa integração é um desafio
tecnológico.
ARTUR —
O casamento das operadoras com o mercado corporativo
é fantástico, mas é uma briga
para não perder a qualidade. Com a complexidade
dos serviços e das contas, fica uma confusão
danada no billing, porque temo a parte principal
do sistema rodeada de sistemas aditivos, o que
é uma arquitetura muito perigosa. Estamos
brigando com os fornecedores por causa disso.
A gente quer atender o pessoal de marketing, eles
estão lá desesperados para atender
segmentos específicos de mercado, mas temos
de tomar o máximo cuidado para não
escorregar, porque se o tempo de billing duplicar
com os sistemas satélite, aí vira
um caos.
CEZAR —
Outro dia, eu estava limpando umas pastas de dez
anos atrás e achei contas da Telesp e da
Telerj. Aí comecei analisar a conta, com
o olhar de um sujeito de billing, a conta era
um papelzinho assim: nome e consumo total. Olha
como a gente era feliz e não sabia! (risos)
Um dia, a gente chega lá de novo.
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