| Para o CIO e sua equipe, é
difícil conciliar todos os serviços
de TI com a estratégia e as táticas
da empresa. O sistema inteiro inclui máquinas
velhas e novas, software velho e novo, feito em
casa e comprado pronto; inclui scripts comuns
e web services na arquitetura orientada a serviços;
além disso, o sistema não funciona
sem que as pessoas certas estejam trabalhando
nos horários certos. Por causa da complexidade,
a gestão dos serviços vai muito
além de monitorar links de comunicação
e servidores no ar -- exige governança
da boa. Nesta mesa-redonda, CIOs de instituições
financeiras conversam sobre as inter-relações
entre a gestão dos serviços de TI
e os movimentos táticos e estratégicos
da instituição.
A mesa foi coordenada por Wilson Moherdaui, diretor
editorial do Informática Hoje, e por Márcio
Simões, editor executivo. Participaram:
Adilson Herrero, diretor de tecnologia da Metro
Tecnologia e Sistemas (Banco Alfa); Alessandro
Raposo, diretor de TI da Redecard; Daniel Eduardo
Edelmuth, diretor de TI da Nossa Caixa; Dorival
Dourado Jr, diretor de operações
e serviços da Serasa; Erico Tadashi Yamamoto,
diretor de tecnologia da informação
e processos da Marítima Seguros; Kleber
Candido de Melo, diretor regional de segurança
da TI do HSBC Bank Brasil; Laércio Albino
Cezar, vice-presidente executivo de TI do Banco
Bradesco; Paulo Renato Fabiano Franco, diretor
de tecnologia da Liberty Paulista Seguros; e Roberto
Marucco, diretor de sistemas da SulAmérica
Seguros.
IH — Como é
o desafio de administrar os serviços de
TI?
DANIEL—
Nosso planejamento estratégico tem três
ações para a TI: revisão
da arquitetura de sistemas, revisão do
modelo de processamento, e revisão da estrutura
da área de TI. Queremos olhar mais para
o cliente interno e externo, olhar menos para
o umbigo. É meu resumo dos últimos
24 meses de trabalho dentro da Nossa Caixa..
ADILSON —
Nosso modelo de empresa, e de tecnologia, é
de 1998, quando começamos a operar com
o nome de Banco Alfa. Escolhemos o que cada fornecedor
tinha de melhor. Um fornecedor não é
ótimo em todos os seus sistemas, e em cada
sistema sua qualificação é
crescente ou decrescente. No fim, ficamos com
20 fornecedores de sistemas. Estamos com agilidade
nas operações. Por outro lado, o
banco vem trabalhando na gestão desses
20 fornecedores, porque no fundo são 20
culturas diferentes, mas elas têm de funcionar
de modo harmônico para o banco. Medimos
os fornecedores com métricas, pontos de
controle, e fizemos acordos de qualidade por sistema,
por tarefa. O desafio é fazer com que esse
modelo funcione. Para quem monta uma operação
com sistemas de mercado, é um erro querer
transformá-los em sistemas próprios..
IH — Como o Banco Alfa
faz a gestão de fornecedores?
ADILSON —
Nossa maturidade é determinada pelo fornecedor
de menor maturidade. Estamos criando grupos de
usuários com os demais bancos que utilizam
os mesmos sistemas, para assim colaborar para
que o fornecedor melhore. Outra coisa é
trabalhar junto aos clientes, para ter qualidade
nos serviços, agilidade e baixo custo operacional.
Se a tecnologia não tiver também
essas características, o banco não
terá produtos com essas características.
PAULO —
A Liberty é uma empresa multinacional,
e a gestão é definida na matriz.
Obviamente, posso mudar as ênfases. A primeira
ênfase foi para a base da pirâmide
— bons procedimentos na produção,
monitoração dos recursos, métricas
que garantam a gestão das operações
básicas, planejamento para a gestão
do crescimento da empresa e a gestão dos
riscos, passando pela continuidade dos negócios,
Sarbanes-Oxley e tudo isso. Nos últimos
12 meses, trabalhamos no topo da pirâmide.
O comitê de sistemas passou a ser mais formal.
Hoje temos um comitê bimensal, que discute
os projetos dos próximos 12 meses por quatro
a seis horas. Quem lidera o comitê é
meu chefe, o CEO, com participação
animada de todos os diretores. Recentemente, o
planejamento para três anos ganhou espaço
na pauta. Temos de olhar o mercado de seguradoras
no Brasil, definir projetos razoáveis e
daí derivar os investimentos em TI. Sobre
a gestão do portfólio dos serviços
— tomamos várias decisões
importantes, fizemos investimentos, até
trouxemos para o Brasil algumas funcionalidades
que rodavam em Boston. Hoje já temos um
modelo de gestão dos serviços mais
bem estruturado. O pessoal de help desk, por exemplo,
testa novidades antes que entrem no ar. Na minha
tela, vejo o cronograma dos funcionários
da área de desenvolvimento e de manutenção,
indicadores da qualidade dos serviços que
prestamos na rua, da intranet, das ferramentas
de escritório. Agora a ênfase é
se alinhar aos objetivos de longo prazo.
IH — O que é possível
fazer com as ferramentas de mercado?.
PAULO — Fizemos
um processo transparente de relatórios
de qualidade, todo mês fechamos uma carta
ao presidente, com as medições de
todas as disciplinas, incluindo o tempo gasto
com cada trabalho. Ainda não temos charge
back (mandar para o usuário a conta pelos
serviços de TI). Mas as ferramentas nos
permitem gerir os serviços para o público
externo (são 10 mil corretores) e para
o interno (são mil funcionários).
ALESSANDRO
— A Redecard é a empresa que faz
a captura de transações de cartões
de crédito para Mastercard, Diners, Maestro,
Redeshop. Nosso negócio é estar
presente nos estabelecimentos comerciais e fazer
o transporte de transações até
os emissores de cartões, para que as transações
sejam aprovadas. Com a estabilização
da economia, esse negócio tem crescido
a 20%, 30% ao ano. Percebemos que nossos sistemas
eram incompatíveis com o que viria pela
frente e, então, até 2004 a área
de TI focou em tecnologia para o core business.
Desenvolvemos a cultura da terceirização.
A Redecard compra quase todos os serviços
fora — datacenters, serviços de telecomunicações,
serviços de impressão, etc. Nosso
foco é a gestão de terceiros. De
2000 a 2005, criamos o plano de gestão
desses fornecedores. No ano passado, refizemos
a estratégia, e a tecnologia teve papel
importante. Agora temos um plano bienal, que revisamos
toda semana num comitê de estratégia.
Isso nos fez repensar a tecnologia. Em 2006, nosso
desafio tem sido melhorar a governança
da TI, baseada em três pilares. O primeiro
é ter uma área de TI que sirva as
áreas de negócio, observe o mercado,
mas que defenda seus próprios interesses
também. O segundo é ter processos,
porque, com esse planejamento de longo prazo,
a complexidade dos projetos aumenta. Para que
os processos funcionem, eles precisam ser simples,
então estamos desburocratizando o que é
possível. O terceiro pilar é a cultura
da área de tecnologia. Demos os primeiros
passos para a arquitetura orientada a serviços,
porque, se a empresa pensa em processos, precisamos
organizar tudo de modo mais matricial.
ERICO — Recentemente,
refizemos o modelo de governança. Ao contrário
da Liberty, começamos pelo charge back
— todo mundo reclama bastante quando vê
o custo da TI. Depois começamos um trabalho
intenso de terceirização, porque
empresas médias como a nossa, quando disputam
com empresas grandes, precisam ter um jeito de
ganhar escala. Estamos espremidos entre o pequeno,
que é especialista, e o grandão,
que consegue custos melhores. Terceirizamos o
datacenter, a produção, o suporte,
a comunicação de dados, e vamos
terceirizar a voz e as impressoras. Já
temos as ferramentas para a melhoria desses serviços,
e todos os fornecedores estão certificados.
Começamos a consolidação
do que é possível consolidar, mas
é difícil achar fornecedores bons
em várias coisas. No desenvolvimento de
sistemas, temos trabalhado com fábricas
de projetos, e começamos a terceirização
das equipes de manutenção. Na Marítima
devem ficar poucos técnicos, quem conhece
mais o negócio, eles devem aprender a gerenciar
fornecedores, a olhar relatórios e buscar
possibilidades de ganho, achar os 80-20 (aquelas
20% das possibilidades que dariam 80% do ganho).
Temos ferramentas que controlam os pedidos dos
usuários. Se o projeto parou na fase de
levantamento das especificações,
eu passo a conta para a unidade de negócio,
e isso tem ajudado a filtrar os pedidos que chegam
na área de TI.
KLEBER
— Um dos trabalhos atuais do HSBC
é padronizar mundialmente processos, tecnologias
e alguns produtos. Para cada linha de tecnologia,
seja segurança, seja infra-estrutura, temos
contratos mundiais ou tentamos atingir um padrão
mundial. Tentamos obter vantagens globais, pelo
volume. Mas temos autonomia para regionalizar
algumas soluções. Estamos criando
uma estrutura global com quatro grandes centros
regionais, um deles está em construção
em Curitiba. Outro trabalho importante é
a integração da área de TI
com as unidades de negócio. Nosso charge
back funciona na forma de serviços compartilhados,
a unidade de negócio paga conforme os serviços
que utiliza. É um modelo global, que está
sendo implementado no Brasil. Quando abrimos a
caixa-preta da TI para mostrar seus custos e para
cobrar, ganhamos mais oportunidades, porque as
unidades de negócio passam a ver possibilidades
dentro da área de TI. Estamos trabalhando
na integração de canais, por exemplo,
do ponto de vista do cliente. Ele não vai
mais precisar de 500 senhas. Isso começou
quando mostramos os custos de cada canal: as unidades
de negócio entenderam a necessidade de
facilitar as coisas para criar novos negócios.
ROBERTO
— Nos últimos 12 meses, trabalhamos
com desafios estratégicos, táticos
e operacionais. O principal desafio estratégico
foi uma centralização na área
de sistemas. Até maio de 2005, cada unidade
de negócio tinha uma área de sistemas
— automóveis tinha a sua, saúde
tinha a sua. Isso gerou algo positivo: o pessoal
de TI aprendeu a conversar sobre problemas de
negócio, e o pessoal de negócios
passou a vivenciar as dificuldades da TI. Como
malefício, não acompanhamos direito
o mundo da TI. Com a centralização,
nosso desafio é não nos afastarmos
das unidades de negócios, é manter
o alinhamento.
IH — Você já
consegue avaliar essa centralização?
ROBERTO — No
primeiro ano, o desafio era obter o reconhecimento
das unidades de negócio. O desafio número
dois é revisar processos. Antes de desenvolver
qualquer coisa, revisamos o processo em questão.
Estamos remodelando toda a nossa infra-estrutura,
toda a arquitetura de negócios e de sistemas.
Essas duas revisões ocorrem sempre em paralelo.
Buscamos o apoio de novas tecnologias, como BPM,
BI, ferramentas para detectar fraudes. Como essas
tecnologias estão muito mais próximas
das unidades de negócio, a gente montou
um grupo de arquitetura, não para se preocupar
com modelagem de dados, como antigamente, mas
com metodologias e tecnologias. E o desafio número
três é criar métricas e atrelar
essas métricas aos nossos fornecedores.
Nosso objetivo é ter um cardápio
de serviços, como num restaurante, mas
um cardápio tão bom que o cliente
fique com vergonha de pedir alguma coisa fora
do cardápio.
DOURADO
— A TI faz parte de cada etapa na
cadeia de valor da Serasa. Isso é bom,
mas também trabalhoso. Todos aqui nesta
mesa são nossos clientes, e a complexidade
dessas empresas é repassada para nós.
Então, nossos desafios são os de
uma empresa de serviços: se ajustar ao
negócio dos clientes, fazer a gestão
de um portfólio heterogêneo de tecnologias,
manter um ambiente seguro. Mas, nos últimos
12 meses, temos procurado uma boa relação
de custo-benefício para nossos ativos de
TI, já que TI para nós é
fonte de receita. Quando existem metas de faturamento
em cima da tecnologia, a visão de governança
muda. Por isso damos prioridade a dois grandes
processos. O primeiro é o de inovação:
inovar nos modelos de negócio, na operação,
nos produtos e serviços, na identificação
de novos mercados, tudo isso com uso intenso de
tecnologia. O outro é o processo de busca
pela excelência nos serviços, o que
é mais difícil quando os clientes
exigem produtos sob medida. Nossos esforços
nos últimos 12 meses e nos próximos
24 se concentram nesses dois processos, inovação
e excelência.
LAÉRCIO
— Costumo dizer que a tecnologia da informação
deveria se chamar tecnologia do negócio.
Em 2001 começamos a reconstrução
da nossa TI, e daí decorreu o Projeto TI
Melhorias, um projeto de seis anos, com investimento
ao redor de R$ 1,2 bilhão. É o projeto
que visa dar o norte para os próximos anos
do banco. Nesses últimos 40 anos, fizemos
muitos sistemas e muitas pontes de safena entre
sistemas novos e velhos, e hoje os sistemas não
conseguem mais dar conta do recado. Daí
porque, em todas as empresas, falamos tanto em
reformulação. A tecnologia está
passando por uma transformação,
mas não podemos fazer mudanças que
atrapalhem a empresa. Então, fizemos um
planejamento que nos permita sair do velho para
o novo. Esse projeto de TI Melhorias deve terminar
em 2009. Mas o principal é que encaramos
a tecnologia no banco como o próprio negócio.
Para fazer negócios, precisamos cumprir
uma série de etapas (patrimônio,
recursos humanos, processos, infra-estrutura)...
e também tecnologia. Partimos do pressuposto
de que primeiro é preciso escrever os processos,
em seguida buscar tecnologia para cobrir todos
os gaps. Constituímos comitês executivos
de TI, em que executivos de todos os segmentos
se sentam para discutir, usar a tecnologia para
buscar os resultados. O empenho da diretoria e
de todos os escalões é fundamental.
É difícil para uma equipe de TI
interna conduzir sozinha um trabalho de grande
envergadura, e por isso temos um processo rigoroso
de homologação de fornecedores e
de certificação de produtos. Por
exemplo: no centro do projeto TI Melhorias, há
o projeto de tornar a TI mais modular, e nesse
projeto específico vamos investir R$ 500
milhões, com pico de 700 pessoas, algumas
vindas até da Espanha. Esse projeto está
dividido em três ciclos. No primeiro, vamos
refazer os 18 produtos principais do banco até
2007, como depósitos, investimentos, aplicações.
Tudo isso parece simples, mas a complexidade vai
além do que a imaginação
consegue alcançar.
IH — O Bradesco vai ficar
sem legados?
LAÉRCIO—
Vamos ficar melhor do que
hoje, mas sempre o novo terá de conviver
com o velho. Temos 92 mil terminais de computadores,
mas vamos trocar 70% desses equipamentos nos próximos
18 meses. Para romper com o velho e adotar o novo,
é preciso mudar a cultura. Outra questão
importante é a gestão dos serviços,
porque, no bom sentido, confundimos negócios
com tecnologia. Cobramos resultados das unidades
de negócio: ora, você me pediu isso
e aquilo, e você só aproveitou 10%
do sistema que lhe construí. Usando os
recursos da própria tecnologia, fazemos
levantamentos, colhemos estatísticas, e
deixo essa dica na mesa: discutir, de forma cordial,
o uso da tecnologia pelo negócio.
DANIEL— Quero
deixar uns recados, para a gente pensar no sistema
financeiro globalizado. A World Future Society
diz o seguinte: toda a mudança ocorrida
entre 1980 e 2000 não passa de 10% das
mudanças esperadas entre 2000 e 2020.Em
1972, um estudo da IBM falava em consumo de 295
mil PCs na década de 80. Consumiram 25
milhões. Estamos errados quando imaginamos
o que vai acontecer. Mesmo assim, alguns números
assustam. A soma de todos os ativos dos cinco
maiores bancos brasileiros não chega a
300 bilhões de dólares. Juntos,
esses cinco ficam com o 54º lugar no ranking
mundial de bancos. Viajei para a Índia
e tinha HSBC, viajei para Israel e tinha HSBC,
viajei para a França e tinha HSBC, viajei
para a Jordânia e tinha HSBC, não
é à toa que o HSBC está em
terceiro lugar. O que vai acontecer no Brasil
quando os 20 maiores bancos do mundo, com 20%
dos ativos mundiais, resolverem ocupar mais espaço?
Há dez anos, eles tinham 12% dos ativos
mundiais. Para nós, sobra focar no nosso
negócio, nos nichos em que somos bons e
fortes, e trabalhar cada vez mais na inteligência,
no conhecimento do cliente. A Nossa Caixa está
presente em todos os municípios do Estado
de São Paulo, é forte no atendimento
ao governo, ao poder judiciário, às
pequenas e médias empresas do interior.
Entendemos o seguinte: não adianta correr
para ocupar outros espaços. Temos de ser
bons para os clientes que já conhecemos.
IH — Como entra a gestão
dos serviços nessa história?
DANIEL — É
combinar uma operação barata, custos
reduzidos, aumento de eficiência, ganho
de escala, terceirizações —
é ajudar seus talentos a controlar a inteligência
dos negócios em que somos bons. Essa é
a essência da boa gestão de serviços.
IH — Um cardápio
de serviços bem amarrado não deixa
o CIO numa zona de conforto e inibe inovações?
ROBERTO— Sim
e não. Na SulAmérica, temos um comitê,
e qualquer plano de negócios precisa de
business case completo. Se o executivo tem algum
anseio tecnológico, fora do cardápio
de TI, vamos discutir nesse comitê. Se o
projeto for aprovado,vamos tocar. O que não
pode é dizer: ah, agora a moda é
pod cast, então vamos fazer pod cast. Mas,
se vale a pena, a gente cria um prato novo.
DOURADO — O
cardápio não pode virar uma coisa
escrita em pedra. Todo diretor de TI, quando perde
o emprego, é porque deixou de escutar.
Ele precisa necessariamente criar um processo
de inovação.
PAULO— Um
comentário sobre inovações:
elas vêm de pessoas inteligentes, dentro
ou fora da empresa, desde que estejam lutando
por ela.
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