| Na prática, gestão
de riscos é mãos na massa: o pessoal
de TI tem de fazer política para obter
apoio e informações, tem de ajudar
a empresa a rever processos (pois todo risco é
um risco de processo), tem de ajudar o RH a treinar
funcionários e a gerir conhecimentos e
atitudes, tem de instalar tecnologia para vigiar
e medir aspectos relevantes da estrutura de TI,
tem de imaginar esquemas para que a empresa não
pare em caso de acidentes, tem de passar horas
em salas de reunião para dar e ouvir explicações.
Mas, quando a gestão de riscos funciona
bem, os gastos com segurança caem bastante,
e a segurança aumenta. O segredo está
nas prioridades, como explicaram os profissionais
nesta mesa-redonda.
O debate foi coordenado por Wilson Moherdaui,
diretor editorial, e por Márcio Simões,
editor executivo. Participaram: Agostinho H. Teixeira
Gouveia, superintendente executivo de TI do Banco
Real ABN Amro; Dorival Dourado Jr, diretor de
operações e serviços da Serasa;
Edison Raul Barretti, gerente de estratégias
de TI da Sabeso; Jacob Batista de Castro Jr, gerente
de segurança operacional da Caixa Econômica
Federal; Marcello Pinsdorf, gerente de TI da TMais.
IH — Como é
uma boa gestão de riscos?
Dourado —
Gestão de riscos já é componente
importante no modelo de governança. O primeiro
passo é classificar cada risco: natural,
tecnológico, cultural, social, comercial.
O segundo é entender como cada risco afeta
a empresa. O terceiro é entender em que
grau a empresa está madura para fazer a
gestão dos riscos. Na Serasa, há
riscos em todas as etapas do negócio, inclusive
o risco de apostar numa tecnologia que não
vai se desenvolver. Como nossa empresa também
vende segurança e confidencialidade, a
gestão de riscos está na pauta de
todos os diretores e do presidente.
IH — Essa gestão
limita sua vida?
Dourado —
As conseqüências do risco ficam claras,
caso ele não seja tratado com prioridade
— prioridade de agenda, de ação
e de investimento. Nas nossas reuniões
de diretoria, o risco está na pauta. Uma
parcela significativa do investimento vai para
gestão de riscos. Damos a nossos funcionários
um manual específico sobre gestão
de riscos e de segurança — conscientização
é importante, e todo mundo tem a incumbência
de contribuir. Recebemos sugestões pela
intranet, temos comitês de risco e grupos
de risco com fornecedores e clientes. E monitoramos
tudo isso. Temos um mapa dos riscos corporativos,
com indicadores. Como nosso ambiente computacional
é de alta disponibilidade, temos ferramentas
e procedimentos para monitorar a segurança,
temos trilhas de auditoria, etc. Gestão
de riscos é um processo, nunca termina,
e então o desafio é manter esse
processo sempre ativo, ou não é
possível estar sempre um passo à
frente. Vejo muita gente fazendo projetos pontuais
— atende um projeto, faz um investimento,
compra uma ferramenta, e depois esquece o assunto,
não trata dos riscos como parte de um modelo
de excelência na gestão.
IH — Dizem que a gestão
de risco racionaliza investimento em segurança.
É verdade?
Dourado —
Quando não existe um programa ou um processo,
a gente age por espasmos, corre atrás do
problema do momento. Se é um problema de
acesso indevido ao sistema, a gente vai lá
e resolve aquele problema.
Marcello —
Fazer a gestão do risco é mais barato
que agir por espasmos, porque a gestão
dos riscos reduz a vulnerabilidade, o que reduz
o consumo de recursos.
Dourado — Com
a ISO 27000, quando olhamos o problema como um
todo, os gastos ficam mais consistentes. Mas,
em geral, as pessoas não se sentem sujeitas
àquele risco, e aí só tratam
do problema quando surge. E as empresas não
gostam de destinar uma parcela do orçamento
da TI à gestão de riscos no atacado.
Mas gestão de riscos é como apólice
de seguro: é importante fazer seguro e
renovar a apólice todo ano.
Jacob
— Para mitigar riscos, é interessante
fazer um plano eficiente de continuidade dos negócios.
É importante saber o quanto vou perder,
o quanto estou disposto a perder em determinado
processo, e então decidir até quanto
vou investir em tecnologia para sustentar aquele
processo em caso de sinistro. Na Caixa, nós
temos tratado disso como um programa contínuo,
e os gastos começam a cair, porque não
gastamos velas boas com defunto ruim. Por que
eu vou gastar X milhões com um processo,
se ele pode ficar fora do ar por um ou dois dias
sem me trazer prejuízo de X milhões?
IH — Nessa fase de implantação,
vocês descobriram algum erro recente?
Jacob — Na
primeira fase, a gente sempre acha riscos descobertos,
porque nenhuma empresa é essencialmente
segura. Fazemos os relatórios e dizemos:
para cobrir esse risco, é preciso atuar
assim e assado. Isso vai para os conselhos de
diretores e para o conselho de administração.
Não é fácil gastar uma fortuna
com uma coisa que não pretendemos usar
nunca, exatamente como no seguro do carro. Precisamos
investir na conscientização dos
gestores, convencê-los da importância
de gastar num programa desses sem ter a possibilidade
de retorno.
Dourado — Eu queria frisar: a segurança
e a gestão dos riscos ultrapassam as fronteiras
da empresa, é preciso envolver toda a comunidade
relacionada com o negócio. Conscientização
é fundamental. E hoje o plano de continuidade
de negócios não inclui só
tecnologia — a empresa precisa continuar
operando em qualquer circunstância.
IH —
Por exemplo: o que é um risco cultural?
Dourado
— Gestão de senhas de segurança
é uma questão tipicamente cultural,
está relacionada com a história
de cada pessoa.
Jacob
— Posso complementar? O israelense,
por exemplo, aprende desde cedo a importância
da informação. O brasileiro é
mais espontâneo, basta puxar conversa e
ele te dá informações de
bandeja. Imagine cuidar da segurança de
uma empresa com 120 mil pontos conectados à
Internet. É difícil impedir que
as pessoas conversem no elevador sobre um processo
importante. E como convencer o cliente a instalar
um firewall pessoal, a não abrir e-mail
de pessoas desconhecidas? A gente paga por fraudes
em que o computador do cliente foi burlado, mas
não o sistema da Caixa. Essa conscientização
do cliente é trabalho árduo. Também
é difícil convencer o jovem funcionário
a não colocar informações
da empresa num blog ou no Orkut.
Agostinho — Sobre
a racionalização dos investimentos,
a palavra é prioridade. Com os riscos mapeados,
você racionaliza o investimento porque dá
prioridade aos riscos. Sem o mapa de riscos, às
vezes gastamos nosso dinheiro num risco menor,
e deixamos o risco maior descoberto.
IH — Por exemplo?
Jacob
— O que custaria à imagem
de um banco o sistema de recursos humanos ficar
parado por 15 dias? Nada. Dá tempo de recuperar.
Mas se o sistema de atendimento ficar parado uma
hora, isso representa prejuízo.
Dourado
— Um parêntesis: algumas empresas
instalam infra-estrutura de alta disponibilidade,
que às vezes o negócio não
demanda.
Agostinho
— Na área financeira, gestão
de riscos é inerente. Principalmente empréstimo,
que tem um risco inerente. O setor financeiro
está à frente por causa de leis
como Basiléia 2, Sarbanes-Oxley. Todo comitê
de produto tem gente de riscos e de segurança.
Cada produto já tem de nascer robusto,
porque é distribuído para milhões
de clientes, não podemos descobrir um furo
de segurança depois. Cada área é
responsável pelos seus processos, segundo
uma metodologia de risco operacional. Por exemplo:
como fazer para não pagar a mesma fatura
duas vezes? Como fazer para não rodar um
job duas vezes? Isso entra no risco operacional.
Temos o comitê de risco executivo, com o
presidente e os vice-presidentes, que distribui
o dinheiro e decide o que fazer. Temos comitês
intermediários das áreas, temos
o comitê de contingência de negócio
e um comitê de segurança de TI. A
junção desses comitês todos
é que faz a nossa gestão de riscos.
Todos os 30 mil funcionários do banco fazem
cursos online obrigatórios, sobre riscos,
compliance, lavagem de dinheiro. Aliás,
acabei de fazer o curso de segurança, é
obrigatório, e vai para o portfólio
do funcionário.
IH — Qual o papel
das auditorias?
Agostinho —
Temos uma auditoria interna, que trabalha em cima
de riscos, e temos auditorias externas. Se a auditoria
chega, identifica um risco, e descobre que eu
também já identifiquei o mesmo risco
e que tenho um plano, o tratamento é outro.
Se o risco estiver descoberto, é diferente.
No setor financeiro, o cliente precisa acreditar
que nossa empresa está bem, está
segura.
Jacob —
Uma coisa importante é: a informação
não é só eletrônica.
A página na impressora, a conversa ao telefone,
a conversa no elevador, a conversa num barzinho,
na happy hour. É um dos nossos ativos,
a informação, saindo das fronteiras
seguras da empresa, indo para o domínio
público.
Agostinho —
A gente fala muito de prioridade. Os próprios
sistemas do banco são classificados, com
a ajuda da área responsável por
continuidade dos negócios. Se uma área
de negócios só pode ficar sem sistema
por até duas horas, a classificação
é nível 1, e essa área precisa
de um alto grau de contingência nos sistemas
de TI. E assim por diante. Resolvemos em comitês
todas as prioridades, verificamos se não
estamos fazendo o mesmo trabalho ou a mesma função
em lugares diferentes. A decisão final
é sempre do comitê executivo de risco,
formado pelo presidente e pelos vice-presidentes.
IH — Jacob, como
vocês tratam do risco político, das
ingerências políticas inevitáveis
num banco público?
Jacob —
Eu assumi a gestão da segurança
da Caixa há pouco tempo, mas sempre trabalhei
na área de segurança da informação.
Temos muita independência, tanto neste governo
quanto no governo passado. Temos trabalhado de
maneira tranqüila, em conformidade com as
práticas de mercado e com a legislação
vigente, sem nenhum tipo de ingerência política.
Temos a liberdade de colocar empecilhos a determinados
programas e de mostrar a fragilidade de determinadas
iniciativas. Nossos procedimentos de segurança
não podem ser burlados, e assim uma investigação
vai sempre levar aos nomes das pessoas envolvidas
em qualquer ação.
IH — No caso do
caseiro Francenildo Costa [cujo extrato vazou,
o que derrubou o ex-ministro Antônio Palocci],
o presidente da Caixa tinha acesso às informações
do correntista?
Jacob —
Não tinha, e não pode ter. Cada
funcionário só tem acesso ao que
precisa para trabalhar, e por isso ele precisou
pedir [o extrato do caseiro] para outros funcionários.
Os direitos de acesso são checados pelas
nossas auditorias internas. É por isso
que o sistema mostrou passo a passo tudo o que
aconteceu, tudo certinho. O sistema de segurança
foi totalmente eficaz.
IH — Como é
a gestão de riscos na Sabesp?
Edison —
Com o nome de Sabesp, a empresa tem 23 anos, mas
começou mesmo na época do Império.
A área de TI sempre teve as preocupações
básicas de segurança, como o tal
do backup, mas era mais difícil discutir
com a alta administração investimentos
mais altos. A gente até brincava: para
que sala-cofre, se nunca pegou fogo na Sabesp?
Para que um CPD de reserva se nunca caiu um avião
aqui? Essas brincadeiras mostram como era feita
a gestão dos riscos. Com a abertura de
capital, com o lançamento de ações
na Bovespa, com o lançamento de ações
em Nova York, com a submissão à
Sarbanes-Oxley, essas coisas mudaram bastante.
Hoje a gestão de riscos está muito
presente na cabeça de todos. Tanto é
que a gestão de riscos começa já
no balanced scorecard, no planejamento estratégico.
Ficou mais fácil tomar decisões.
Um exemplo: vamos reformular o portal e a intranet
da Sabesp. Com a análise de riscos, percebemos
que não precisamos gastar demais quando
o risco é pequeno, e com isso conseguimos
economizar nesse projeto algo em torno de 40%.
Conseguimos também o nosso site backup.
Era difícil, porque o mainframe da Sabesp
é da linha Univac, da Unisys, é
uma linha antiga, e o próprio fabricante
não se dispunha a montar um site backup.
Mas nossa gestão de riscos mostrou que
isso era muito importante: no caso de um incêndio,
levaria uns três meses para importar e instalar
uma máquina nova, isso geraria prejuízo
da ordem de bilhões. Então, conseguimos
convencer a Unisys a trazer uma máquina
e montar o site backup. Com nosso passado estatal
monopolista, o risco cultural também era
grande. Teve uma época em que todas as
deliberações da diretoria estavam
logo publicadas na intranet. Isso causava constrangimentos,
com gente ligando, até de fora da empresa.
Hoje cada um só tem acesso às informações
necessárias ao seu trabalho, nem mais nem
menos. Estamos montando um comitê de informações,
para discutir a política de informações,
não só as informações
armazenadas em sistemas eletrônicos. Sobre
novas tecnologias, temos um bordão: novas
tecnologias, novos riscos. Fizemos, por exemplo,
uma coisa óbvia: proibir o uso de fax-modem
nos computadores. A gente faz toda uma análise
de mensagens e de anexos que saem da empresa por
e-mail, e depois alguém manda um fax sem
filtro nenhum. Agora esbarramos numa invenção
maravilhosa, que é o pen drive.
Dourado —
Existem aplicativos que impedem o usuário
de espetar um pen drive na porta USB. Recentemente,
visitei a fábrica da Itautec Philco, e
lá não tem conversa: não
entra celular com câmera fotográfica,
não entra Palm, todo mundo passa no detector
de metais.
Edison —
Na Sabesp, antes até encarregado de consertar
subadutora dava entrevista à imprensa,
falava de investimentos e tudo o mais. É
claro que os números não batiam.
Esse tipo de coisa agora é também
uma questão de risco, e temos cursos de
comunicação, para que todo mundo
saiba até onde pode ir.
Marcello —
A TMais é uma empresa telefonia do Rio
Grande do Sul e, recentemente, começou
uma operação de voz por IP. Como
é nova no mercado, vinha crescendo muito,
e nossa preocupação sempre foi crescer
rápido, para atingir logo o ponto de equilíbrio.
Só que, sem gestão de riscos, fomos
aprendendo que o break even ia ficando mais longe
do que a gente gostaria. Entendemos que precisávamos
ser bons em três pontos. Tínhamos
um bom plano de continuidade na operação
da telefonia, porque uma falha na telefonia implica
imediatamente perda de receita. Depois, recentemente,
fizemos um plano de continuidade para o atendimento
por telefone ao cliente. Para a imagem da empresa,
não atender o cliente é muitíssimo
grave. Agora, temos até redundância
de pessoas, temos uma operação em
Lajeado e outra em São Paulo. Todo dia,
uma parte da equipe trabalha no atendimento lá
no site backup, para praticar.
Agostinho —
Só complementando: plano de contingência
não testado tem 99,99% de chance de falhar.
É incrível como, naquele plano maravilhoso,
esquecem o arquivo, esquecem a tomada.
Marcello —
O terceiro ponto é um risco inerente ao
nosso negócio: o risco de aquisição
de clientes. Esse é um risco para a área
de telefonia. Mesmo para a operação
de voz por IP, temos de cumprir o ritual da Anatel
quando conseguimos um mau cliente. Bloqueamos
parcialmente o serviço com 30 dias de atraso,
bloqueamos totalmente com 60 dias, cancelamos
a linha com 90 dias. Ou seja: ele tem no mínimo
60 dias para falar de graça. Então,
a gestão da aquisição do
cliente passou a ser uma política. Quando
a aquisição do cliente é
pela Internet, comparamos a localização
do IP com o endereço declarado pelo cliente,
por exemplo. Cruzamos as informações
do cartão de crédito com outras
empresas que também fazem negócio
pela Internet. Tem a documentação
depois. E tem um sistema que checa todo dia a
minutagem do cliente. Se sai do padrão,
o pessoal de antifraude entra em contato para
saber o que aconteceu. Até o final do ano
passado, a gente tratava fraude e inadimplência
como uma coisa só, mas isso mascara o problema.
Na inadimplência, o cliente não entrou
no sistema com o propósito de não
pagar.
IH — E como está
a tecnologia? Ela está adequada à
gestão de riscos?
Jacob —
Eu tenho me sentido bem atendido — tem ferramentas
antifraude, filtro de conteúdo para a web,
filtro de conteúdo para e-mail, administração
de logs... Mas, pelo tamanho da Caixa, não
é qualquer ferramenta que serve. Estamos
falando de tratar os logs de 10 mil servidores,
de 120 mil estações de trabalho,
de filtro de conteúdo para 100 mil usuários.
Mas o mercado tem soluções, desde
que você esteja disposto a pagar o preço.
Dourado —
Se você faz gestão de riscos seguindo
uma metodologia, é mais fácil identificar
fornecedores e tecnologias para ir preenchendo
suas necessidades, porque existe muita coisa no
mercado. Outra coisa importante é que esses
produtos consomem bastante do processador e da
capacidade de comunicação de dados.
Para fazer uma boa análise de custo-benefício,
precisa pensar no custo da metodologia, na compra
da ferramenta, no treinamento do pessoal, no uso
adicional de infra-estrutura. Demora um ano para
aprender a usar bem as ferramentas, 20% da banda
da rede vai embora, 30% do servidor vai para o
espaço. E a solução comprada
precisa evoluir, escalar: mudança de rumo
custa caro.
Agostinho —
Um ponto sério é a arquitetura.
Se o pacote não entra na arquitetura, não
entortamos a arquitetura por causa do pacote,
porque isso aumenta o risco, você começa
a perder a visão de futuro.
IH — Na gestão
de riscos, existe o caso de tratar melhor o presidente,
para reduzir o risco de o presidente reclamar?
(risos)
Dourado —
Se um cliente é estratégico, se
a percepção dele é importante,
se ele é formador de opinião, se
ele é patrocinador da área de TI,
como é o caso do presidente, não
tem conversa: ele merece um SLA diferenciado.
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