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Justificar o investimento em
segurança é difícil em qualquer
empresa, mas é mais difícil ainda
nas empresas de saúde. O orçamento
de TI é apertado, a direção
é dada por médicos (que simpatizam
mais com equipamentos claramente ligados à
atividade médica), a cooperação
entre as empresas do setor é pouca, a experiência
dos fornecedores é recente. Nesta mesa-redonda,
seis executivos discutiram o desafio de ajustar
a segurança da informação
nas empresas de saúde: José Aparecido
Vieira Pinto, gerente de gestão de apoio
da Fundação Pró-Sangue; Klaiton
Luis Ferretti Simão, assessor de TI do
Hospital Samaritano; Luiz Carlos Suart Júnior,
gerente de TI do Hospital 9 de Julho; Márcio
Biczyk do Amaral, diretor de TI do Hospital das
Clínicas da Universidade de São
Paulo; Regina Maria de Souza Pistelli, consultora;
Teresa Elena P. Sacchetta, diretora de informática
e telecomunicações do Fleury. A
coordenação foi de Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje,
e de Márcio Simões, editor executivo.
IH — Na saúde,
a segurança deve ser especial?
Márcio —
Trabalhamos com vários enfoques na segurança:
infra-estrutura, acesso às máquinas,
bancos de dados, criptografia das informações,
firewalls. Precisamos de tecnologia para garantir
a privacidade das informações sobre
pacientes. Por isso investimos, nos últimos
três anos, na atualização
de toda a rede; temos 5 mil computadores, 200
servidores, 200 máquinas distribuidoras.
O Hospital das Clínicas é na verdade
um complexo de vários hospitais —
o InCor é um dos hospitais, o SUS Central
é outro. Temos 26 prédios conectados
em arquitetura mista, estrela e anel óptico.
Temos uns 20 quilômetros de fibras ópticas
e uns 300 switches, para segmentar a rede dos
vários institutos, inclusive da Faculdade
de Medicina. Usamos como referência a norma
ISO NBR 17799, sobre segurança em todos
os seus aspectos. Colocamos na intranet uma política
de segurança, com várias normas,
para o usuário conhecer as regras, o que
pode baixar, o problema dos vírus, etc.
Todo o nosso cadastro de usuários é
alimentado pelo sistema de gestão de recursos
humanos — para acessar a rede, a pessoa
precisa ser funcionário de uma dessas 26
instituições. A informática
faz várias checagens para construir uma
matriz de acessos permitidos por sistema e por
módulos. Temos cerca de 200 subsistemas
na lista, além de um grande sistema hospitalar
e vários sistemas menores. Até pouco
tempo atrás, esses subsistemas não
estavam integrados. Ao longo dos últimos
três anos, unificamos os quatro cadastros
de RH, três sistemas de gestão hospitalar
— isso tudo está agora num portal
único, um índice de todos os sistemas
da rede. Pelo portal, fazemos o controle dos acessos,
das senhas.
IH — Para os esquemas
mais tradicionais de segurança, existe
até modelo pronto de justificativa dos
investimentos. E quanto à segurança
de serviços mais elaborados, como o de
diagnóstico automático a partir
do exame?
Márcio —
Vamos conforme as prioridades do hospital. Uma
delas é o painel de administração,
o cockpit, com indicadores sobre clientes, mercados,
finanças, gestão. O orçamento
do hospital está em torno de R$ 1 bilhão,
e o orçamento da informática está
um pouco abaixo de 1% disso, isto é, está
abaixo da média de mercado para o setor
de saúde, que é de 3% a 5%. Então,
no primeiro ano do nosso planejamento, demos prioridade
à parte de infra-estrutura, atualizamos
a tecnologia da nossa rede, o que é também
uma questão de segurança. Esse investimento
foi aprovado num comitê, composto de 16
gerentes de informática do complexo hospitalar.
A partir dessa primeira fase, atualizamos também
software, pusemos gerenciamento de rede, antivírus
e assim por diante, até chegar ao ponto
de ter serviços com bom grau de segurança
e de confiabilidade na rede.
No que é específico da área
hospitalar, na rede nós temos dados de
pacientes, vários tipos de procedimentos,
tudo disponível para os médicos.
O paciente colhe a amostra, o tubinho com o código
de barras vai para uma das máquinas da
biologia, no segundo andar, a máquina faz
a análise (hemograma, sódio, potássio,
etc.), e assim que o exame está pronto,
fica disponível na intranet para os médicos
de vários setores — pronto-socorro,
internação, ambulatório.
Em alguns casos, o exame já vem com sugestão
de diagnóstico, assim o profissional de
saúde exerce sua profissão da melhor
forma possível..
IH — O usuário
realmente lê essas normas na intranet?
Márcio —
Fizemos divulgação via e-mail para
todos os usuários, e mais para a frente
vamos repetir a divulgação. Mas
estamos passando as normas como iniciativa de
diretoria, não da informática..
Klaiton —
É difícil separar o que deve ser
apropriado como investimento em segurança
da informação, porque a segurança
pode ser facilmente confundida com uma funcionalidade
da tecnologia. Mas o investimento em segurança
segue o velho tripé tecnologia, pessoas
e processos. No setor de saúde, vejo três
tecnologias importantes: biometria, que é
importante para as operadoras [empresas operadoras
de planos de saúde], pois fraude é
um dos grandes tumores do setor. Não sei
se é desinformação minha,
mas os avanços na biometria têm sido
pequenos, e não vejo as operadoras usando
a biometria para identificar clientes. Há
dez anos, achávamos que haveria um terminalzinho
de biometria para autenticar todos os procedimentos.
Certificação digital é outra
tecnologia. O Samaritano investe em certificação,
especialmente para o prontuário eletrônico,
assim o médico não precisa imprimir
aquilo e assinar o papel, como o Conselho Federal
de Medicina exige. Enquanto o médico for
obrigado a imprimir e assinar, não é
prontuário eletrônico na acepção
correta da palavra, mas é prescrição
médica auxiliada por computador... Outra
tecnologia são os aplicativos para o negócio-fim
do hospital, e não só para as atividades
administrativas. Imagine se uma receita médica
vai para o paciente errado por causa de um erro
de programação. Então, biometria,
certificação e uma profunda revisão
no código dos aplicativos são o
grande desafio de segurança — isso
no âmbito da tecnologia.
Com relação às pessoas, o
desafio é a conscientização.
A segurança da informação
deveria ser um problema da corporação,
não da TI.
Com relação aos processos, faltam
políticas e normas, porque a segurança
ficou meio restrita apenas ao perfil do usuário.
Mas esse assunto é novo, até mesmo
para o pessoal de TI. Acho que a tecnologia ficou
complexa demais, de forma muito rápida,
e por isso as empresas não tiveram tempo
de se estruturar..
José
— A Pró-Sangue lida com 15,
20 mil bolsas de sangue todos os meses, num processo
regido pela norma ISO 9000, e usa tecnologia para
proteger o processo de doação em
si e todo o ciclo do sangue, como chamamos, que
termina na aplicação do sangue no
paciente. Contamos com uma estrutura centralizada
de dez servidores. No nosso banco de dados, temos
3,5 milhões de doadores. Como estamos dentro
do Hospital das Clínicas, usamos os firewalls
do HC. Mas, para mim, o problema da segurança
é o pessoal. A solução é
treinamento.
Acho que ainda não houve um evento, no
Brasil, que fizesse a alta direção
do hospital valorizar o investimento em segurança.?
IH — Só para esclarecer:
o ciclo do sangue é o caminho do sangue
do doador ao receptor?
José —
Exatamente. Acabou virando também o nome
do software que controla todo o ciclo. Ele exige
documento com foto, tem entrada para os sinais
vitais e o doador tem lá um momento a sós
com a máquina para responder 94 perguntas,
por exemplo, se ele esteve no Reino Unido no tempo
da vaca louca. Mas investimos mais nos usuários,
no conhecimento..
Teresa
— O tema, segurança da informação,
é relevante. O chão-de-fábrica
é a realização do exame,
mas o produto final entregue ao cliente é
a informação. As pessoas sentem
mais o que mexe com o bolso, mas o sigilo da informação
médica nem sempre mexe com o bolso, então
a conscientização é mais
difícil.
Eu vejo o tripé da segurança da
informação assim: confidencialidade,
disponibilidade e integridade. São os três
pontos críticos. A tecnologia aplicada
à confidencialidade, as redes, os firewalls,
é bem discutida. Mas tem o problema da
consciência das pessoas. Não temos
como prever as implicações de divulgar
as informações de um exame. Tem
o problema do convencimento: é fácil
calcular o retorno do investimento num espectrômetro
de massa, um aparelho caríssimo, mas que
gera receita. Temos de convencer a empresa de
que existem os riscos, como o risco de imagem
se uma informação vazar. Temos de
fugir do tecniquês ao dar explicações.
A disponibilidade é até mais simples
de enxergar, porque se o Fleury promete o resultado
do exame para as 18 horas, o cliente vai reclamar
se entrar na Internet e o exame não estiver
lá. E é sempre assim: tem que estar
disponível, 24 por 7, mas não pode
gastar muito. Por isso a gestão de riscos
é importante: não é possível
gastar com tudo o que seria necessário
para manter todas as funções do
sistema 100% garantidas, 100% do tempo.
Sobre integridade: nenhum teste é infalível,
assim nenhuma informação é
sempre correta. Usamos os sistemas para diminuir
a chance de erros humanos. A biometria ajuda nisso
— às vezes, o funcionário
se esquece de pedir o documento de identidade.
Por exemplo: no Fleury, um robô processa
mais de 10 mil exames por dia. Com o código
de barras, ele leva a amostra para a máquina
de análise correta, e com isso ninguém
comete o erro de colocar a amostra na máquina
incorreta. Os resultados já vão
para os bancos de dados. E existem os sistemas
para ajudar nas decisões. Em geral, o paciente
faz vários exames, e às vezes já
tem um histórico de exames armazenados,
e o sistema de apoio às decisões
já simula o raciocínio médico.
Faz sentido esse exame de T3, já que ele
tem o T4, o TSH e o hemograma, já que ele
tem essa idade e esse sexo e esses exames anteriores?
Tudo o que não faz sentido, gera um alarme,
para ser checado depois por um especialista. Mas
o problema principal está nas pessoas,
é uma questão cultural. O treinamento
ajuda, mas, por exemplo, na central de atendimento
ao cliente, a rotatividade é alta. O trabalho
é estressante e os atendentes não
se consideram daquela profissão.
IH —
Você mede a quantidade de falhas humanas
sistematicamente, como pré-requisito para
conseguir verba para investimentos em segurança?
Teresa —
A própria área de negócios
faz medições, todo o nosso sistema
de qualidade ISO exige o registro das não-conformidades.
Fazemos análises disso, que se convertem
em melhorias no sistema, feitas por meio de segurança
e de qualidade..
Luiz —
A partir de 2004, segurança da informação
passou a ser da área de gestão de
riscos. Temos o risco da informação,
do paciente, do negócio e do patrimônio.
Falamos de sistemas, mas se alguém joga
um pedaço de papel no lixo, uma informação
pode sair da empresa. Por isso, saco de lixo no
9 de Julho agora é transparente, assim
vemos o que está lá dentro. Assim,
a área de TI dá apoio de tecnologia
para essa área de gestão de riscos.
Sobre usuários: todo novo funcionário
passa por uma prova de TI — sabemos o quanto
ele conhece de Windows, Excel, Word, PowerPoint.
Se ele for trabalhar com computador e não
estiver capacitado, ele vai colocar ali informação
inconsistente, nem sempre o sistema consegue perceber
o erro. Assim, todo o trabalho da TI é
feito com a ajuda do comitê de risco. O
médico está prescrevendo —
então, o sistema pode checar algumas coisas,
fazer uma auditoria. Existe uma certificação
hospitalar chamada ONA [Organização
Nacional de Acreditação], e ela
exige um escritório de gestão de
riscos, cujo objetivo é incluir todos os
riscos empresariais. Um cuidado importante é
o manual, com regras de segurança, de marketing,
como se comportar com a chegada de alguém
importante, responsabilidades — esse manual
reduz a quantidade de problemas..
IH — Você
compartilha o problema da segurança com
as operadoras?
Luiz —
Elas trazem as maquininhas e nós obedecemos
as regras do jogo..
Teresa —
Temos muita dificuldade no relacionamento com
as operadoras, e o problema principal é
a falta de padrões..
Luiz — Tem
a iniciativa da ANS, a tal da TISS [troca de informações
em saúde suplementar], mas a TISS é
apenas um começo. Deve melhorar alguma
coisinha, mas sempre achamos que alguém
está tentando nos passar a perna..
Regina —
A área de saúde tem esse viés.
Todo mundo sempre acha que o outro está
ganhando mais, e isso atrapalha um pouco a regulamentação.
Mas acho que a segurança, na área
da saúde, é tão ou mais importante
que na área financeira. A imagem do paciente,
se houver divulgação de informações
confidenciais, pode ser destruída, como
já aconteceu no Brasil e no mundo. E a
instituição de saúde deixa
de ser confiável. O profissional de saúde
se preocupa com as informações que
tem nas mãos, mas o sistema todo, os profissionais
todos não têm percepção
clara dos riscos associados às falhas de
segurança..
IH — Os riscos
não são percebidos pelas empresas?
Regina —
Sim, pelas empresas, pelos gestores. As pessoas
precisam de conscientização, e a
necessidade desse trabalho é um reflexo
da cultura do setor. Iniciativas como a da ONA
falam de formalizar processos, o que é
importante, porque na saúde temos funcionários
celetistas, não-celetistas, médicos
fixos, médicos da rede, outros profissionais
de saúde. Com o processo, esse trabalhador
consegue ver suas responsabilidades de segurança.
Mas tudo isso é muito recente.
Com relação à TI, é
importante que os fornecedores nos ajudem a mostrar
à empresa a necessidade de investir em
equipamentos, software e serviços de segurança,
porque as pessoas sempre perguntam: como assim?
Com relação às seguradoras,
ninguém precisa de conscientização
sobre fraudes, porque mexe com o bolso, é
negócio. Mas como o negócio da saúde
não tem sido bom para ninguém, não
dá para ter tudo de segurança —
temos de achar a melhor equação,
porque a distância entre custos e lucratividade
é pouca. O desafio é achar a segurança
adequada, o que é bem complexo. O ser humano
sempre vai errar, e por isso devemos investir
em tecnologia e processos. Um bom processo, com
tecnologia adequada, padroniza o trabalho e reduz
o risco de erros. Ser obrigado a buscar uma certificação
da ONA é uma maravilha, porque nos obriga
a trilhar um caminho sem precisar inventá-lo
sozinho. Padrão é sempre a melhor
alternativa. E, se o investimento for bem feito,
na segurança e tudo o mais, reduzimos os
custos e melhoramos a assistência.
Sobre tecnologia, a área da saúde
tem uma particularidade: trabalha com imagens.
Quando passam imagens na rede, os problemas de
segurança triplicam. Além disso,
os médicos também trocam executáveis.
É difícil separar o que é
do bem e o que é do mal.
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IH — A oferta
de tecnologia está adequada ao setor de
saúde?
Klaiton —
Acho que a tecnologia não supre nossas
necessidades, até por culpa nossa, por
causa dessa falta de colaboração
na cadeia produtiva. Existe tecnologia, mas o
custo é proibitivo, o que equivale a não
existir. Controle de fraude é um grande
problema, até porque agora os sistemas
de gestão são usados não
apenas pelo pessoal administrativo, mas também
por médicos, enfermeiros, auxiliares de
enfermagem, nutricionistas, terapeutas. Esses
sistemas são caros, mal escritos, instáveis,
sujeitos a erro. Não conheço nenhuma
ferramenta com o nível daquelas usadas
pela indústria..
Márcio —
Acho que até existe, mas o preço
ainda está alto demais. Nas soluções
mais baratas, não existem controles de
segurança típicos da área
de saúde, por exemplo saber se um paciente
tomou ou não a medicação
corretamente..
José —
Esta semana conversei com um fornecedor
de pulseira, que de minuto em minuto manda a temperatura
do paciente, mas você pega o preço
e multiplica por umas 400 pulseiras — fica
inviável falar daquilo com a administração
da empresa..
Márcio —
Na verdade, a tecnologia existe, leva dois segundos
para identificar uma máquina infectada
e bloquear a porta na rede, dá para controlar
o inventário e tudo o mais. Mas o governo
americano gasta 15% do PIB com saúde, e
os custos só aumentam, e para eles a TI
é a única grande resposta para controlar
o sistema de saúde como um todo. Evitar,
por exemplo, que o paciente peça o mesmo
exame em dois laboratórios, só porque
discordou dos resultados do primeiro exame.
Teresa —
Existe também o problema da profissionalização
da área de TI nas empresas de saúde,
que é recente. Os próprios médicos
cuidavam da administração da empresa,
até porque é mais fácil,
sendo médico, aprender de administração.
Quando veio a TI, os médicos assumiram
a TI também, mas depois foram percebendo
que não dá. Com o crescimento das
empresas, a gestão da TI precisa ser profissionalizada.
Isso impacta também na percepção
do custo. Para os médicos, é fácil
ver o valor de um espectrômetro de massa,
mas é muito mais difícil aceitar
o valor da TI.
IH — A justificativa
dos investimentos deve ser feita pelo terror?
Klaiton —
Um pouco, sim, porque, diante da escassez de recursos,
o sujeito que assina os cheques é obrigado
a estabelecer prioridades. Segurança é
intangível, e só ameaçando
ou listando os possíveis prejuízos
para tornar a segurança um pouco mais tangível.
É difícil dar prioridade ao intangível.
Luiz — Eu
sempre levo para a diretoria tudo o que é
bom sobre alguma tecnologia e tudo o que é
ruim. Assim, não há ilusões.
O fabricante diz que o servidor funciona 99,9999%
do tempo — mas e se falhar? A empresa precisa
decidir se quer o servidor de volta em 1 segundo
ou em 4 horas, porque cada tempo tem seu custo.
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