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O diretor de TI sempre fica mais preocupado
depois da primeira leitura da lei. Preocupação
desnecessária, dizem os diretores nesta
mesa-redonda: a distância entre a realidade
e a lei não é tão grande
assim, caso o diretor invista em esquemas de
qualidade, inclusive em segurança. Contudo,
nas leis muito jovens, como a Sarbanes-Oxley,
existe uma tendência ao exagero. Às
vezes, fica tão caro montar um sistema
de coleta de evidências que determinados
negócios não se justificam mais.
Será que a sociedade quer realmente pagar
esse custo, na forma de, por exemplo, menos empregos?
A
mesa-redonda foi coordenada pelo diretor editorial
do Informática Hoje, Wilson Moherdaui, e
pelo editor executivo, Márcio Simões.
Participaram: Álvaro Teófilo, gerente
executivo de segurança da informação
do Santander Banespa; Dorival Dourado, diretor
de operações e serviços da
Serasa; Edison Raul Barretti, gerente de estratégias
de TI da Sabesp; Elisabete Cecília Januário
Chaves, diretora de desenvolvimento e tecnologia
da Prodam; George Washington Menezes, gerente nacional
de ativos da Caixa; José Francisco Alvarez
Raya, gerente-geral de tecnologia do Banco do Brasil;
Paulo César Caldera Brantes, gerente de
coordenação de TI do Serpro; e Paulo
Renato Fabiano Franco, diretor de tecnologia da
Liberty Seguros.
IH — O gasto com a submissão a
novas leis, como a Sarbanes-Oxley, obriga a empresa
a investir menos em itens como segurança?
Álvaro — Poucas empresas investem
tanto em segurança quanto banco, mas posso
afirmar que o valor investido em combate à fraude
nunca foi grande coisa. Temos investimentos diretos
e indiretos. Quando a área de TI investe
num sistema de backup, investe em segurança,
mas muitas vezes o valor do investimento cai
na conta da TI, não da segurança. É a
mesma coisa com alta disponibilidade, que também é segurança.
Então, muitas vezes, os valores de fato
aplicados em segurança estão subestimados.
Vamos
dar o exemplo da Sarbanes-Oxley. Ela nos trouxe
o benefício de conhecer a fundo os
processos e os subprocessos. De novo, fizemos poucos
investimentos para construir o que a Sarbanes pede
em termos de segurança — até porque
ela não pede nada, ela fala da necessidade
de controles internos. Assim, o grau de maturidade
da empresa em segurança é que vai
determinar o quanto ela precisa investir em segurança
para se adequar às normas. Até porque
muita empresa não precisava investir em
segurança até agora, pois não
tinha como vender isso para o cliente.
José — Discutimos muito no banco
se as leis são oportunidades ou problemas.
Em geral, as leis tentam estabelecer controles,
transparência. Para os bancos, confiança é um
diferencial de mercado, e por isso há muito
tempo fazemos investimentos que resultem em confiança.
Outra coisa: quanto mais a gente busca se adequar às
boas práticas, mais fácil fica.
E quanto mais desorganizado, mais difícil,
eu imagino. Então, acaba virando um ciclo: é melhor
se antecipar e adotar boas práticas, que às
vezes nem são exigidas por lei, o que
torna a adequação posterior mais
fácil. Fazer as coisas por mera imposição é pior, é mais
caro.
IH — E no banco vocês têm
um processo de adequação as novas
leis e normas, um processo com nome, dono e tudo
o mais?
José — Temos. Temos uma diretoria
para segurança, uma para controles internos,
uma de controladoria, uma de riscos. Essas diretorias
dão a orientação e cabe
a cada diretor cumprir a orientação.
Álvaro — Lembrei agora: faz seis
ou oito meses que a 3.380 foi editada pelo Banco
Central; ela exige a existência de uma área
para o controle dos riscos operacionais. Praticamente
todos os bancos já montaram essa área,
exatamente da forma como a circular está exigindo. É uma
das virtudes da auto-regulamentação.
George — Nos bancos, já discutimos
quem deve ser o chefe da área de segurança,
porque não confundimos mais segurança
da informação com segurança
da TI. Segurança da informação é mais
amplo. Estou falando até da segurança
do que é impresso em papel. Assim, acho
que o investimento em segurança ampla é bem
maior que o investimento naquela segurança
tradicional, de antivírus, por exemplo.
Existe a preocupação com a continuidade
dos negócios, com o risco operacional — nossa
capacidade de investimento está diretamente
relacionada ao risco operacional. [É um
dos efeitos do Acordo da Basiléia 2: quanto
maior o risco operacional, menos o banco pode
dispor do dinheiro dos correntistas.] Mesmo a
Lei 8.666 [é a lei de licitações],
que poderia ser um entrave, pode resultar em
iniciativas como o pregão eletrônico,
que trouxe uma agilidade fantástica para
a Caixa, e já fizemos compras com 50%
de redução nos preços. Uma
coisa: os bancos conseguem se antecipar por causa
das discussões e dos fóruns na
Febraban.
Paulo Renato — As empresas de seguros
estão um degrau atrás dos bancos,
porque nossa entidade legisladora, a Susep, só recentemente
começou a se preocupar com regulamentação,
lavagem de dinheiro, essas coisas. Mas a Liberty
também responde para uma casa matriz, é uma
empresa de 100 anos, tem suas práticas
e seus processos de controle. Hoje estamos sujeitos
a quatro processos de auditoria durante o ano:
Susep, Boston (onde fica a matriz), interno e
o da Ernst & Young. Desde 2003 a empresa
vem passando por um processo pesado de adequação à Sarbanes-Oxley.
Existe
uma linha fina entre o adequado e o exagerado.
Os executivos, o presidente, eles ficam meio que
reféns de questões que eles não
conhecem bem: ligadas a riscos, controles, documentação
de processos, dualidade de responsabilidade...
De modo geral, um presidente não percebe
bem questões operacionais, e acho que isso é um
desafio significativo para os presidentes. Eles
querem que tudo seja resolvido logo, como se isso
fosse uma coisa binária, ser ou não
ser. Na verdade, é um processo. Estar organizado
faz sentido, porque acelera a decisão de
onde colocar os controles, mas existe o risco de
excesso de formalismo. Excesso de formalismo é uma
definição boa para burocracia, o
que pode levar uma empresa a montar estruturas
desnecessárias para cumprir seu papel, e
a perder competitividade. O papel do CIO é ajudar
todos a enxergar o que é adequado e o que é exagerado.
IH — E o que você considera adequado
bate com o que o auditor considera adequado?
Paulo Renato — Tem conflito. E o auditor
sempre ganha. Mas o conflito é saudável.
Álvaro — Mas se usamos as boas
práticas de mercado, que todo mundo usa,
o auditor não vai conseguir argumentar
por muito tempo, a não ser que tenha argumentos
muito bons.
Paulo Renato — Em algumas empresas, não
existe ainda liberdade para uma conversa aberta
depois da auditoria. É o que chamamos
na Liberty de exit meeting, uma reunião
na presença do presidente da mesa e dos
auditores, uma reunião de balanço,
em que podemos discutir o que julgamos fora de
propósito. O auditor usa as mesmas listas
de checagem que nós usamos, então,
se alguma coisa não foi aprovada, existe
sim uma interpretação do que está nessas
listas.
IH — Nessa batalha entre o adequado e
o exagerado, a tendência é que ganhe
o exagerado?
Paulo Renato — É o que está acontecendo
neste momento. E não vamos falar só dos
auditores, vamos falar também do legislador.
A Susep passou várias circulares impondo
regras que, realisticamente, não têm
sentido. Não podemos tratar contratos
de R$ 100,00 e de R$ 100 milhões como
se fossem iguais, do ponto de vista do controle
dos negócios. Os riscos são diferentes,
e precisamos discuti-los. Com esse exagero, podemos
até inviabilizar uma operação,
um negócio: o controle fica mais caro
que o negócio em si.
Dorival — Na área financeira, compliance é mais
forte por causa dos impactos da empresa financeira
no mercado. Os órgãos reguladores
tentam reduzir os riscos por meio de leis e normas.
Eu concordo com o Paulo, aí a gente cai
um pouco no desespero, mas acho que depois do
tsunami vem a razão. Eu costumo usar como
exemplo a resolução 3.380 do Banco
Central. A primeira leitura é preocupante,
mas depois a gente começa a ver que a
distância não é tão
grande, ou que às vezes a gente faz mais
do que a resolução pede. Mas compliance é na
verdade um conjunto de processos, para te dar
controle e gestão sobre o que você está fazendo.
Vale para quando desenvolvemos um aplicativo:
se estamos com a cabeça lá na frente,
na compliance, adotamos desde já metodologias,
princípios, práticas. Por isso é importante
olhar outros aspectos da empresa que ajudam no
futuro: plano de continuidade dos negócios,
segurança física, políticas
de classificação das informações.
Por isso compliance não é um problema
só do CIO, mas da empresa inteira. Quanto
mais a empresa usa sistemas eletrônicos,
maior o risco operacional que a TI coloca à empresa,
e maior a ajuda que essas leis nos trazem. É fundamental
que haja comunicação contínua,
comunicação interna. Todo mundo
precisa entender por que esse compliance é importante
para a empresa. E todo mundo contribui para o
risco da empresa e do sistema financeiro de alguma
maneira.
A gente nota que, no mercado brasileiro, nem todo mundo está cuidando
das questões de compliance. As empresas no topo da pirâmide estão.
Muitas outras enfrentam uma dificuldade terrível.
Uma pesquisa diz que,
em função de
compliance, o custo da empresa aumenta uns 30%.
Esse número é discutível,
mas a idéia central é — existe
um custo administrativo, que só vai voltar
ao longo dos anos, porque a empresa mexe com processos,
com infra-estrutura, com a qualificação
das pessoas. E, em alguns casos, o investimento
em compliance não dá nenhum aumento
de eficiência. Você tem de implementar
os controles e ponto final.
Paulo Renato — Vamos partir da hipótese
de que a empresa não estava organizada
e foi obrigada a se organizar por causa de alguma
lei. Mas uma coisa é ficar mais eficiente
por causa da lei, e outra coisa é provar
que a empresa está correta. Ficar provando é que
deixa a empresa mais cara e mais lenta.
Álvaro — Existe aqui uma oportunidade:
quem passou pela Sarbanes-Oxley não precisa
mais nada para tirar um certificado ISO 27.001.
Pode ser uma boa oportunidade de marketing. Só tem
meia dúzia de empresas com a 27.001.
Dorival — Vou fazer uma propaganda agora:
nós somos ISO 27.001. Mas recebemos tantas
auditorias por ano que tenho duas pessoas na
Serasa só para receber auditor.
IH — No médio prazo vale a pena?
Dorival — Não. É um processo
de longo prazo.
Paulo César — Posso dizer que compliance
não é nem hardware nem software. É investimento
em processos, em pessoas, em conscientização, é uma
coisa mais ampla. Não adianta desenvolver
sistemas se as pessoas que vão usar aquele
sistema não estiverem conscientes. E os
processos também precisam ser bem definidos.
Só assim o investimento em compliance pode
dar algum resultado operacional bom.
Elisabete — A Prodam está há quase
dois anos numa grande reforma, porque as secretarias
e as subprefeituras de São Paulo agora podem
escolher outros fornecedores. Então, estamos
trabalhando com boas práticas; estamos trabalhando
em 17 processos dos 34 do Cobit [modelo de referência
para a gestão da área de TI]. Estamos
implementando ITIL também. Como não
dá para atender todas as necessidades do
município, que pelo menos a Prodam possa
ter a inteligência, possa ser a integradora,
não só da TI, mas dos dados também.
A gente está começando a trabalhar
com fábrica de software também — é muita
coisa nova ao mesmo tempo. Diferente das empresas
no setor bancário, nós temos muitos
processos a consolidar ainda, dentro da Prodam
e das secretarias.
Cada secretaria é um mundo
diferente: finanças,
saúde, educação, as grandes
secretarias. E tem as menores, como cultura. Este
ano, melhoramos o escritório de projetos,
para mostrar os benefícios dos controles para
os funcionários da própria Prodam e
para os clientes.
Paulo César — Às vezes, o
próprio cliente não enxerga as diferenças.
Ele pergunta: por que você presta aquele
serviço com essa qualidade para o cliente
X e para mim não? Às vezes, o cliente
não está preparado; para receber
um serviço de maior qualidade, ele precisa
passar por um processo de reforma da infra-estrutura,
precisa instituir processos.
IH — Barretti: dentro da Sabesp, a tendência
da TI é se antecipar aos problemas?
Edison — Para nós, a Sarbanes pode
ser resumida a uma palavra: oportunidade. Há muitos
anos ansiávamos pela implementação
de modelos como o Cobit, o ITIL. Uma boa governança
só traria vantagens para a empresa. Mais
objetivamente, procuramos nos antecipar à regulamentação.
Mas existem barreiras culturais tremendas, especialmente
para uma empresa que, por décadas, foi puramente
estatal. Cada um fazia do jeito que achava melhor
fazer. Depois, chega um momento em que todos são
obrigados a fazer o que a legislação
exige — é uma grande oportunidade
para introduzir uma série de controles e
para revisar processos. Sempre digo para os auditores
que nós estamos do mesmo lado, e que temos
os mesmos desejos. Se o auditor sente empatia por
você, ele fica aberto para discutir as formalidades
em excesso. Um exemplo: a certa altura, os auditores
queriam que a correção de um erro,
notado num sistema em produção, passasse
por todos os passos da metodologia de desenvolvimento
de sistemas. Temos 36 fases nessa metodologia.
Não adianta querer fazer um reunião
de kick off [pontapé inicial], fazer
documentação, se estou com um erro
num sistema em produção! Se é um
erro, se está fora das especificações
originais do sistema, então corrige e comunica
e registra, mas sem exageros. Isso foi muito bem
aceito, como muitos outros pontos foram bem aceitos.
Quando eu vou conversar com qualquer pessoa da
empresa para falar de compliance, eu sempre mostro
dois dedos: você tem que ser honesto e parecer
honesto, você tem que fazer a coisa certa
e reunir evidências. Outra vantagem: por
questão de segurança, estamos impedindo
o funcionamento de mensagens instantâneas,
de Orkut, e e-mails na web. Então, aumenta
a produtividade. Mas a comunicação
precisa ser incansável, precisa dizer as
mesmas coisas o tempo todo.
José — O que mais me incomoda, nesse
negócio todo, é a quantidade de vezes
que sou obrigado a mostrar que estou na norma.
Álvaro — Se a gente olhar bem os
resultados das auditorias de Sarbanes, vai perceber
que muitos dos controles nas empresas são
manuais. É uma oportunidade de melhoria.
Se você joga esses controles num sistema,
tira um pouco do peso da cultura da empresa. Por
exemplo: o gerente de uma agência precisa
de uma autorização do cara lá de
cima. Hoje, ele pega o telefone e fala: Fulano,
estou fazendo essa operação, me passa
um e-mail confirmando. Isso é um processo
manual, que até pode ser fraudado. A automação
dos controles vai ser um ponto importante daqui
para a frente.
Edison — No planejamento de 2007, temos
62 projetos, perto de 30 são para melhorar
os processos ligados à Sarbanes, e a maioria
deles é de automação de controles.
Paulo Renato — Mas isso é custo também
Edison — É custo, mas é também
ganho de eficiência.
Paulo Renato — Eu queria falar duas palavrinhas
sobre a questão cultural. Tudo isso — essas
iniciativas ligadas a compliance — não
tem muito charme, e então temos de motivar
as pessoas. As pessoas querem trabalhar em projetos
inovadores, como lançar banco via celular.
Compliance é um serviço de bastidores. É um
desafio e tanto manter a equipe motivada para cumprir
a Sarbanes-Oxley. E se a equipe não está motivada
e treinada, não só a de TI, mas de
toda a empresa, vamos ser obrigados a colocar controles
para administrar a má vontade e a burrice.
IH — Existe tecnologia para automatizar
qualquer tipo de controle?
Álvaro — Existe, sim, mas também
vejo empresas por aí em que todo o sistema
contábil está baseado em Excel. Acreditem.
Eu pessoalmente estou focando agora na gestão
das operações terceirizadas, começando
a exigir dos parceiros o mesmo nível de
maturidade, e esse pessoal está sofrendo,
porque os contratos são muito enxutos. A
gente até percebe que uma empresa de porte
pequeno, por exemplo, já não consegue
mais vender produtos para um banco de porte médio,
por causa dessas exigências.
Paulo Renato — A pergunta que fica é se
a sociedade quer pagar isso, porque no fundo é dela
que tudo emana. |