|
Entre os 50 vencedores do Prêmio Profissional
de TI 2006, cujo perfil foi publicado na edição
de novembro, os assinantes do Informática
Hoje escolheram dez por meio de voto direto via
Internet. Os leitores escolheram um profissional
de cada setor da economia (o prêmio está dividido
em dez setores) e, em dezembro, sete dos eleitos
participaram de uma mesa-redonda especial. Os
melhores momentos da mesa-redonda estão
publicadas a partir
da próxima página.
O debate foi coordenado por Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje,
e por Márcio Simões, diretor de
redação. Participaram: Gil da Costa
Marques, coordenador de TI da Universidade de
São Paulo; Henrique Rubem Adamczyk, diretor
de TI do Boticário; Manel Benazet, CIO
e vice-presidente de serviços comerciais
e administrativos da Telefônica; Márcio
Biczyk, CIO do Hospital das Clínicas da
USP; Renato Roberto Cuoco, vice-presidente sênior
do Itaú; Washington Luiz Faria Salles,
gerente executivo de TI da Petrobras; Wilson
Maciel Ramos, vice-presidente de gestão
e de TI da Gol Linhas Aéreas.
IH — O apagão
aéreo provocou conseqüências
graves na área de TI?
Wilson — Primeiro, não há nenhum
problema no controle do tráfego aéreo
brasileiro. Não posso falar sobre o acidente
enquanto o inquérito não estiver
completo, mas o motivo desse apagão é o
corporativismo. É o movimento de defesa
de um grupo de pessoas que está num inferno,
digamos assim. O segundo motivo é aproveitar
essa chance para ganhar mais e trabalhar menos.
De fato, durante um bom tempo o governo deixou
de contratar controladores, e os salários
são realmente baixos, já que eles
são militares. Eles querem sair da Aeronáutica,
querem uma organização civil. Os
corporativistas tentam criar um clima para mostrar:
as pessoas que estavam no controle aéreo
no momento do acidente não têm responsabilidade
nenhuma, visto que a infra-estrutura não é boa.
Na verdade, não existe nenhum problema
com a infra-estrutura. Poderíamos ter
equipamentos mais modernos, ter mais aeroportos
com ILS [para facilitar as aterrissagens] — mas,
se não temos, mesmo assim não corremos
riscos. Se o piloto não se sente seguro
para pousar, e se o aeroporto não tem
ILS, o piloto pousa em outro aeroporto. A aviação
brasileira está entre as melhores do mundo.
Essa história de buraco negro é uma
palhaçada. Como conseqüência
de tudo isso, o país está levando
prejuízo, e as empresas aéreas
também. Além de todas as despesas
no contrato de transporte, como alojamento, deixamos
de faturar e as vendas estão efetivamente
caindo.
Como fica a área de TI nessa história? Cada cancelamento de vôo
exige uma atividade pesada de processamento. Os passageiros do vôo cancelado
precisam ser movidos para outro vôo ou outros vôos. Quando é um
vôo ou outro, não nos afeta em nada. Na quantidade que estamos cancelando
hoje, afeta muito, porque sobrecarrega os sistemas. Como é tudo integrado,
sobrecarrega tudo: as vendas, o controle do faturamento, dos aeroportos e tal.
Tivemos até de adiar os relatórios, rodá-los à noite,
e isso atrapalha o trabalho da área financeira. Diminui a velocidade do
atendimento, as filas aumentam, e os passageiros acham que estamos fazendo tudo
na malandragem, e aí sobra para os atendentes.
Não há meio
termo diante de uma greve: ou o governo bate, ou negocia. Como não
existe gente preparada para substituir os grevistas,
não é o caso de bater, mas de negociar.
O governo nem bate, nem negocia, fica tentando
mostrar que não existe nada. Não
sei quanto tempo isso vai durar. Nossa rede de
transporte aéreo é muito integrada,
e o número de conexões é muito
grande. Se um vôo atrasa, a confusão é muito
grande.
IH — Vocês fizeram algo
especial na área de TI, para se preparar?
Wilson — Não. A única coisa
que posso fazer é aumentar a capacidade
do CPD central, mais nada. Hospedamos nossos
aplicativos num provedor de serviços,
um ASP, é ele quem está fazendo
os investimentos. O que nos ajudou um pouco é o
atendimento com computadores de mão, ajuda
a reduzir as filas. O atendente vai buscar as
pessoas na fila, já despacha o passageiro
sem bagagem. Mas isso era para fazer sem crise.
Washington — Seus provedores estavam preparados
para essa demanda inesperada?
Wilson — A grande vantagem de trabalhar
com um ASP é que, se ele não atender
bem, está cheio de outros ASPs querendo
a nossa conta. Trabalhamos com um ASP nos Estados
Unidos, e somos importantes para eles, estamos
entre os cinco maiores clientes. Ter sistemas em
casa é pior. Se a equipe não corresponde,
o que você faz? Já passei por isso
numa outra empresa em que trabalhei; é uma
situação bem mais desconfortável.
IH — Tirando
o apagão, como
foi o ano de 2006? E, com o apagão, mudou
alguma coisa no planejamento de 2007?
Wilson — Cumprimos
quase tudo o que planejamos para 2006, mas vai
sobrar alguma coisa. Aprendemos e estamos até reformulando
a área de TI. Reconhecemos algumas falhas
nos nossos processos e vamos buscar mais eficiência.
Uma das mudanças é dar consultoria
aos usuários na hora da análise de
requisitos. Antes, achávamos que, depois
de um treinamento, o usuário saberia resolver
seus próprios problemas. Mas agora vemos
que o analista de negócios é uma
figura importante para ajudar o usuário
a organizar a cabeça. O usuário sabe
o que quer, mas não consegue pensar no sistema
como um todo. Mas, provavelmente, vamos terceirizar
essa função. Outra mudança
importante é: tendo alguma coisa a ser feita,
como organizamos o fazer? Queremos buscar mais
o conceito de arquitetura, de casar mais os componentes
de software com a infra-estrutura. Já criamos
um escritório de projetos para a TI; deu
bons resultados, mas pensamos em contratar alguma
empresa de consultoria de grande porte, tipo IBM,
Unisys, para trazer idéias de fora. Essa
história de ficar muito tempo pensando sozinho
não gera conhecimento.
Renato — A
incorporação do
Bank Boston não foi traumática, mas
foi diferente, com o Boston Brasil, Boston Chile,
Boston Uruguai, Private Bank na América
Latina. Abrimos agências no Japão,
escritório em Hong Kong. É uma coisa
menor, mas, para abrir uma agência no Japão,
precisamos de sistemas para operar no mercado japonês,
com produtos, serviços, contabilidade; precisamos
prestar contas à autoridade monetária.
Estamos também encerrando a absorção
da Orbital, uma processadora de cartões.
A cisão da Credicard, daquilo que sobrou
entre Itaú e Citibank, já anda sozinha,
já dividimos as bases. Isso tudo tornou
o ano interessante.
Nós temos uma estrutura diferente, e absorvemos
empresas com essas metodologias das grandes consultorias,
BPO, PMI, etc, cantadas em verso e prosa. Conseguimos
reduções de custo significativas
desmontando essas coisas um pouco. A verdade não
está nem de um lado nem de outro.
Duas coisas
foram gratificantes em 2006: fizemos o primeiro
teste de disaster recovery total
[reabilitação depois de desastres],
mas em dia útil. Cortamos o centro principal,
passamos a operar no centro de Campinas, e voltamos
para o centro principal no fim de semana. Temos canais
de fibras ópticas entre São Paulo e
Campinas, e bem no período de testes uma locomotiva
descarrilou e rompeu um conjunto de cabos. O pessoal
da Telefônica levou umas seis, sete horas para
repor essa conexão.
Manel — A locomotiva era pesada. [risos]
Renato — Foi engraçado como a própria
empresa reclamou: Mas como? O desempenho do
sistema ficou em 87%. Claro — a contingência
deve ter menos recursos, senão o custo vai
para o espaço.
IH — Como foi a volta desse disaster recovery?
Renato — A
volta é mais
complexa. Leva tempo, gasta dinheiro, precisa de
planejamento. Testamos antes todos os módulos
nos fins de semana, módulo a módulo.
Deixar de treinar a contingência é como
deixar de verificar a pressão do estepe.
As coisas mudam toda semana. Por tudo isso, fomos
obrigados a rever procedimentos internos — aprendemos
muito.
IH — Como foi
2006 para a Petrobras?
Washington — Em 2006, infelizmente, perdemos
nosso principal gerente nesse acidente da Gol;
ele dava suporte para a área de exploração
e produção, e voltava da nossa base
em Manaus. Com relação à TI
em si, foi um ano muito bom. A Petrobrás
conseguiu realizar as suas previsões, em
termos de planejamento. O planejamento da TI da
Petrobras segue par e passo com as estratégias
de crescimento da empresa, temos variado entre
1% e 3% de aumento, de ano para ano. Para nós,
isso é muito, porque estamos vinculados
ao faturamento total da Petrobras.
Ao longo de 2006, tocamos várias iniciativas
para nos aproximar do negócio, o que aconteceu
e aumentou a responsabilidade da área de
TI. Hoje, a TI provoca efeito nas bases de carregamento,
por exemplo. Estamos mais próximos da automação
do processo de produção de óleo.
Com a TI, a Petrobras ganhou de 0,5% a 1% na capacidade
de extrair petróleo de um campo petrolífero,
o que representa uma imensidão de dinheiro.
Fazemos isso liderados pelas áreas de negócio,
obviamente, e sem tecnologia nova — só aplicamos
o que já existe. É claro que teve
um desenvolvimento muito forte dos sensores que
descem nas colunas de produção dos
poços. Esses sensores são engenharia
de automação. Mas, com comunicação
eficiente entre os pontos, monitoramos o comportamento
da produção em tempo real. Assim,
o pessoal mais sênior da empresa, lá na
base, consegue analisar e tomar decisões
mais rápidas — antes, levava uma,
duas semanas. Só conseguimos tirar 50% do óleo
numa jazida, tipicamente, e então 1% a mais é uma
enormidade.
Trabalhamos em 2006 para rever os processos internos
da TI, com a implementação de ITIL
[recomendações de qualidade].
Viramos exemplo em estudos do Gartner, especialmente
por causa da nossa operação de help
desk [atendimento telefônico ao
usuário].
Trabalhamos também
com a Sarbanes-Oxley, que é um
negócio meio louco. O auditor diz, Ôpa,
numa base de 50 mil computadores, encontrei três
com o antivírus desatualizado. Isso não
vai causar impacto no balanço financeiro da
Petrobras, mas o auditor tem de ir lá e levantar
essas questões.
IH — Como
a área de TI ajuda
a Telefônica a se preparar para a convergência?
Manel — Convergência é uma
onda da tecnologia. A rede telefônica já pode
levar qualquer tipo de informação
por meio dos protocolos IP, assim como qualquer
outra rede de telecomunicações. Isso
independe dos controles impostos pela legislação.
As empresas de telecomunicações fizeram
um investimento pesado durante dois, três
anos para acabar com as listas de espera e atender
os requisitos de universalização.
Mas a voz, nós gostamos de levá-la
conosco, de forma sem-fio [tira um celular
do bolso e o mostra para os outros]. Ainda
bem que chegou o nosso querido ADSL, com novas
oportunidades para usar todo esse cobre enterrado,
todo esse ativo debaixo da terra. É uma
oportunidade enorme, e estamos focados em aproveitar
essa oportunidade. O que vai dentro desses cabos,
quem vai gerar os sinais, isso é outra discussão.
Além disso, cada vez mais uma pessoa vai
colocar conteúdo à disposição
de outras pessoas — a geração
de conteúdo está indo para as mãos
do consumidor.
Do ponto de vista da TI, isso tem conseqüências.
Coisas que antes processávamos à noite,
em lotes, hoje têm de ser processadas online.
O cliente quer contratar conteúdo e vê-lo
no mesmo minuto, ou quer contratar mais banda e
usá-la por só duas horas. E ainda
por cima, por causa da regulação,
a conta deve ser detalhada, minuto a minuto. Sem
perder de vista os grandes processos que precisamos
rodar, como o de faturamento e gestão.
Na TI, estamos começando a trabalhar com
verticais, o que bagunça qualquer arquitetura,
pois convivemos com coisas processadas em lotes
e coisas processadas online. Adaptamos muitas estruturas
e convivemos mais com o pessoal da engenharia de
redes. Estamos trabalhando bastante com portais,
com as plataformas de atendimento ao cliente, isso
tudo casado com o universo do mainframe, é um
senhor desafio. Na frente do cliente, com os holofotes
na nossa direção, não dá para
corrigir erros ocorridos no meio da noite.
Outro
desafio importante para a TI é a necessidade
de estabelecer e de controlar parcerias comerciais,
através dos sistemas das duas empresas. Por
causa de exigências legais, a Telefônica
não pode gerar, por exemplo, um serviço
de TV, mas podemos nos associar a um parceiro e dar
um desconto no serviço de banda larga, cumpridas
determinadas condições. Para isso temos
de juntar duas empresas, juntar processos de venda,
entender quando se produz a condição
comercial que dá lugar a um desconto. Outra
obrigação é fazer conjuntos
de produtos, assim se o cliente fala uns tantos minutos
aqui, ganha um produto lá, ou se compra um
produto lá, ganha uns minutos aqui. Isso não é simples,
porque precisa ser desenhado por duas empresas ou
mais.
IH — Houve
alguma mudança
na organização do trabalho?
Manel — Está havendo
uma mudança no comportamento de quem atende
o cliente. Na área de vendas, existe uma
estação de trabalho para cada cinco
vendedores. O vendedor precisa estar fora da empresa,
vendendo. Fizemos isso também na área
de TI, na área de atendimento aos usuários.
Tiramos metade das cadeiras desse grupo, assim
eles têm de se organizar, metade trabalha
no computador, metade atende usuários. Esse
grupo está provocando mudanças, pois
já conseguem prever demandas e problemas,
e desde já incluímos um espaço
de soluções. Quando depois vierem
as demandas, a solução vira um simples
problema de configuração. Diminuímos
assim a fila de pedidos.
IH — Alguma idéia
surgiu na área de TI e foi usada pelo
grupo Telefônica?
Manel — Começamos
agora algumas instalações dessa volta
ao passado, o thin client [terminal
leve de acesso a aplicativos instalados num ponto
central e a distância]. É para
empresas pequenas e médias: o cliente contrata
dez posições de trabalho com ADSL,
por exemplo, mas os servidores, os pacotes comerciais,
a tarifação, o e-mail, tudo foi empacotado
pela Telefônica e funciona na Telefônica.
IH — Essa criatividade
tem a ver com a agilidade das operadoras de telefonia
celular?
Manel — Na
verdade, tem a ver. Para alguns produtos, a telefonia
móvel é um
diferencial. Uma vez tentamos levar o SMS [mensagens
de texto] para o telefone fixo, não
deu certo, em nenhum país do mundo deu certo,
exceto uma experiência na Alemanha. Nossa
aposta é a banda larga, que vai servir para
outros serviços.
IH — E a USP:
consegue investir bem em TI, apesar dos limites
impostos pela lei de licitações?
Gil — A USP também fez uma incorporação
no ano passado: a Faequil, Faculdade de Engenharia
Química de Lorena. Com a USP da Zona Leste
e o campus 2 de São Carlos, nossa capacidade
de atender estudantes cresceu 30%. O poder de investimento
centralizado da USP está em mais ou menos
R$ 25 milhões. Além disso, os pesquisadores
também têm uma enorme capacidade de
investir no sistema de TI. Assim, por causa dessa
especificidade, nosso sistema é bem anárquico.
O pesquisador decide o que comprar, compra e espeta
na rede. Assim é a universidade. Por conta
dos pesquisadores, acabamos de comprar um cluster [grupo
de computadores] que nos colocou na lista
dos 500 maiores computadores do mundo. Foi um investimento
de mais ou menos US$ 800 mil. São 848 processadores.
Queria chamar a atenção para o problema
dessa área de TI. A USP usa basicamente
computação de alto desempenho, e
tudo bem distribuído, então precisa
de banda. Por exemplo, alguns pesquisadores participam
de experiências com o CERN, na Suíça.
Este ano, o CERN deve colocar em operação
o LHC, o maior acelerador de partículas
do mundo. Ele deve começar a gerar 15 petabytes
de dados por ano [ou 15 milhões de gigabytes
por ano]. Então, o desafio é transmitir
dados e processar dados.
Mas aprendemos algumas coisas em 2006. As unidades
de ensino e pesquisa continuam com a autonomia
que sempre tiveram, mas agora estamos mostrando
para elas o valor das compras centralizadas.
Acabamos
de lançar uma licitação
para a compra de 556 switches [equipamentos
de transmissão de dados da rede local].
Queremos trocar 800 hubs [um equipamento
mais simples]. Procuramos saber quanto as unidades
gastavam, porque antes nós repassávamos
o dinheiro para as unidades, e elas compravam. Era
uma tremenda besteira. Cada unidade compraria um switch desses
por R$ 2.500. Então, reservamos R$ 1,4 milhão
para os 556 switches e, para nossa surpresa,
gastamos R$ 400 mil [ou R$ 719,00 por switch].
Recentemente, a CTI disparou um programa para a compra
de 1.400 computadores para a CTI e 900 para outras
unidades, e ganhou a Itautec depois de uma disputa
enorme. Ou seja, os preços caíram muito
com as compras centralizadas. Em 2007, vamos aumentar
esse programa.
IH — Estão fazendo pregão
eletrônico?
Gil — Estamos fazendo pregão presencial,
o que também é uma maravilha. Para
2007, a nossa preocupação é de
inclusão digital, porque temos 120 mil pessoas
ligadas à USP, é um enorme mercado.
Estamos chamando empresas que vendam micros de
mesa. Depois, vamos ver notebooks para professores,
funcionários e alunos também. Como
somos uma instituição de pesquisa,
a Microsoft vai oferecer aos docentes a licença
do Office por US$ 10. Numa primeira experiência,
ganha a empresa que oferecer o menor preço
pela configuração e ganha o banco
que oferecer a menor taxa de juros. Também
vamos abrir a possibilidade de declarar vencedores
todos aqueles cujo preço fique 5% acima
da menor oferta, e com isso esperamos mais de um
banco oferecendo crédito, e mais de uma
empresa fornecendo equipamentos, o que é bom
por questões de distribuição.
Outra preocupação nossa é o
ensino a distância. Estamos investindo numa
infra-estrutura para isso, nas salas de aula, no
centro de produção de material didático
e em IPTV [televisão distribuída
pelo protocolo IP]. Temos nos descuidado da
capacitação do nosso pessoal, e a
idéia é investir nisso também
em 2007. Na USP, 650 funcionários trabalham
com TI; com cientistas e estudantes de pós-graduação,
esse número pode chegar a 2 mil pessoas.
IH — A pulverização
de usuários é um problema para
O Boticário?
Henrique — Era um problema, porque antes
tínhamos o papel de orientar nossa rede
de franquias. Só que esse modelo não
funciona. Em 2006, passamos a prestar um serviço
para nosso franqueado, em que colocamos toda a
infra-estrutura de informática e de telecomunicações à disposição
dele. Estabelecemos os nossos níveis de
serviços. Orientamos o franqueado a focar
mais em vendas e menos em tecnologia. E começamos
a gerenciar isso. A partir desse momento, começamos
a ter uma série de benefícios. A
produtividade no ponto de venda aumentou, porque
antes tínhamos um problema sério
de disponibilidade. Melhoramos a eficiência
dos nossos processos e o relacionamento dos franqueados
com os clientes deles. Por exemplo: entre 2.367
lojas, só 150 tinham transferência
eletrônica de fundos com links dedicados.
Agora, todas têm, o que diminui a fila no
caixa. Havia também um desequilíbrio:
uma coisa é você criar a estratégia
de marketing, outra é convertê-la
para aquelas 12 mil pessoas espalhadas pelo país.
Em alguns lugares, é difícil até achar
serviços de tecnologia.
Mas em 2006 conseguimos tocar esse projeto, integramos
toda a rede de varejo, instalamos até um
ramal IP para o pessoal falar entre lojas e com
o Boticário, e tivemos uma redução
significativa no custo de telefonia. Por incrível
que pareça, outra coisa boa foi o acesso à Internet,
porque em muitos lugares não existe provedor
adequado. Passamos a ser o provedor de Internet
para eles. O programa de fidelidade agora é online
e nacional. E quando falamos de licenciamento de
software em empresas pequenas, não necessariamente é tudo
conforme o figurino... Nesse projeto, regularizamos
tudo, e evitamos o risco de imagem.
Trabalhamos também a ambientação
da loja, a sonorização, criamos um
serviço de rádio e a TV O Boticário,
com orientações sobre como atender
o nosso cliente. Pensamos que, um dia, o cliente
vai entrar na loja e ver uma TV de plasma, ou alguma
coisa assim, para que ele possa ver nossos conceitos,
dicas, atitudes.
E, obviamente, a transferência de dados entrou
nesse pacote de serviços: toda a troca de
informações, nota fiscal, pedidos,
inventário, estoque, vendas, tudo o que
você imaginar.
Do ponto de vista da área de TI, somos uma
empresa de médio porte com a complexidade
de uma operação de grande porte.
Pois somos uma indústria, com todo o processo
de automação industrial, mas também
desenvolvemos nossos produtos, com todos os processos
de pesquisa, gestão do conhecimento... E
também somos uma empresa de logística,
tenho 2.637 pontos para atender, com horário
para descarregar em shopping...
Por isso tudo, em 2006 trabalhamos na estruturação
dos nossos processos internos, para buscar eficiência
operacional. Colocamos o nosso ERP num outro patamar,
para atender o planejamento, as compras, as previsões,
a colaboração até com outros
parceiros e fornecedores. Agora temos um planejamento
otimizado de toda a cadeia. Nossa solução
de marketing, nosso CRM já consegue avaliar
o retorno das campanhas, sabemos quais as campanhas
mais adequadas, quais as categorias de produtos
nós conseguimos influenciar mais ou menos.
Também instalamos ferramentas para o gerenciamento
do ciclo de vida dos produtos, a edição
de documentos. Foi um ano muito produtivo para
a área de tecnologia.
Em 2007, a estratégia está calcada
nessa nova base tecnológica, com processos
colaborativos, cadeia de suprimentos, atendimento,
com um CRM realmente diferenciado, que gere um
atendimento diferenciado lá na ponta. Vamos
qualificar as pessoas, trabalhar a questão
do conhecimento como um todo.
É interessante
como um investimento em infra-estrutura pode ter
influência sobre a marca, que é um
assunto meio esotérico.
Wilson — Como vocês cobram do franqueado?
Henrique — Nem
o Boticário
nem o franqueado fazem investimentos em infra-estrutura.
Nós compramos os serviços de vários
fornecedores e repassamos os serviços para
o franqueado, sem nenhum tipo de lucro nessa operação.
O franqueado paga por mês. Hoje, nosso nível
de disponibilidade médio nos canais é de
89,26%, um índice bom. A mensalidade total é muito
atraente para o franqueado.
Wilson — É um preço único?
Henrique — O
preço
varia conforme o porte da loja, até porque
as lojas menores não têm a mesma capacidade
de lucrar com a tecnologia. As lojas maiores usam
mais o sistema. Mas o nível de serviços
que todos têm é exatamente igual.
Têm a mesma estação de trabalho,
o mesmo software de antivírus, os mesmos
aplicativos, a mesma impressora fiscal.
IH — As lojas
foram obrigadas a aderir ou elas podiam se recusar?
Henrique — Fizemos um trabalho de venda
do projeto. Algumas pessoas resistiram, não
tinham a noção exata dos custos reais.
Tivemos de chegar, sentar com cada uma, fazer planilhas,
pôr os gastos com telefone, gastos com isso,
gastos com aquilo, até provar para elas
que era um bom negócio. E dizíamos:
a linha estratégica que estamos seguindo é essa.
No fim, todos aderiram.
Esse negócio todo nasceu porque a área
comercial queria criar uma Rádio O Boticário.
Antes, um franqueado colocava música de São
João, outro colocava fandango. Era uma salada.
Nem sempre a música estava associada aos atributos
da marca, ou associada à promoção
do momento. Fizemos uma reflexão mais profunda
e resolvemos buscar uma tecnologia para a convergência
de dados, voz e imagens.
IH — Como é cuidar
da infra-estrutura de TI num hospital, em que
os clientes correm risco de vida?
Márcio — Sem dúvida, nosso
negócio é a vida das pessoas. Nossa
missão é a pesquisa, o ensino e a
assistência ao paciente. Temos 5 mil computadores
em 26 prédios, e a infra-estrutura está atualizada,
com gigabit ethernet. Temos 200 servidores, distribuídos
nos nossos 16 centros de informática. Cada
centro tem sua própria equipe e o desafio
foi integrá-los, para oferecer serviços à instituição.
Na administração dos negócios,
temos uma parceria de 30 anos com a Fundação
Getúlio Vargas. Temos ERP, CRM, e agora
o nosso grande foco tem sido business intelligence,
para a construção de um painel de
indicadores em tempo real, como se fosse um canal
da Bloomberg.
O nosso diferencial é a pesquisa, por exemplo
oferecer aos pesquisadores a infra-estrutura de
bioinformática para o Projeto Genoma, o
de mapeamento genético. Telemedicina, medicina
a distância, para vender ou compartilhar
serviços e opinião com profissionais
de outros estados. Fazemos videoconferências
da Amazônia ao Rio Grande do Sul, às
vezes até com os Estados Unidos.
Os estudos mostram que a TI pode reduzir os custos
da saúde em 20%, com aumento de qualidade,
o que é importante: a população
está envelhecendo, a nova tecnologia diagnóstica é sempre
mais cara.
Precisamos colocar ferramentas para os profissionais
da saúde, para apoiar o diagnóstico,
checar a prescrição de remédios,
ajudá-los a explorar bases de conhecimento.
Hoje, metade das publicações científicas
do mundo é sobre ciências da saúde;
são uns 50 mil periódicos. Os americanos
fizeram o seguinte cálculo: todo ano, 10%
da população é internada
por algum motivo. Se houver um erro médico
no caso de 0,01% desses pacientes, mesmo assim é muita
gente. [São 18 mil pessoas numa população
de 180 milhões.] A tecnologia ajuda
a reduzir esse tipo de problema.
Estamos trabalhando num projeto de prontuário
informatizado, para ter todas as informações
do paciente disponíveis num cartão,
um smart card, com a vida inteira do paciente
naquele cartão, com todas as internações,
diagnósticos, tratamentos, medicamentos.
O problema é tirar esses dados das várias
organizações; cada uma tem seus padrões.
Uma
das iniciativas mais interessantes no hospital é a
de gestão do conhecimento. Nossa intranet
tem milhares de páginas em que estão
indexados todos os 200 sistemas da casa: portal de
medicamentos, interação medicamentosa,
conhecimento das especialidades, protocolos de atendimentos.
Essa iniciativa gerou vários trabalhos científicos.
Os pesquisadores fazem uma boa quantidade de análises
com os dados organizados dentro dessa base hospitalar.
IH — É possível
exportar esse conhecimento?
Márcio — Os
Estados Unidos já importam o trabalho de radiologistas
da Índia, China, Austrália. Fizemos
uns estudos com a Unicamp, para compreender o mercado
americano, e exportar software e serviços.
Isso é um bom negócio para a primeira
checagem da radiologia, por exemplo, que nos Estados
Unidos custa US$ 1 mil, US$ 2 mil, e aqui pode
ficar mais barato. Num hospital universitário,
a discussão é mais rica, podemos
discutir um caso com 20 especialistas: ultra-sonografistas,
alunos, professores. Existem 12 mil diagnósticos
catalogados na medicina, e no Hospital das Clínicas
temos os 12 mil diagnósticos na base de
dados. Em outros hospitais, a base mal chega a
mil diagnósticos.
Renato — Antes
de vender a análise radiológica por US$ 100
para empresas de saúde americana, não
seria melhor usar a tecnologia para ajudar no diagnóstico
de pacientes no Pará ou no Amazonas?
Márcio — Temos
projetos assim. Vocês sabem que, na medicina,
cada caso é um caso, cada médico é um
médico. Às vezes, um médico
dá um diagnóstico e um tratamento,
e outro médico dá outro diagnóstico
e outro tratamento. Por isso estamos colocando
nossos protocolos de atendimento na Internet: para
cada diagnóstico, descrevemos os medicamentos
e os procedimentos naquela situação.
|