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No fim das contas, governança significa
uma coisa distinta para cada pessoa. Está certo.
Como cada empresa é diferente uma da outra,
as normas de gestão que valem para uma
não valem para a outra. Em outras palavras,
para cada cultura empresarial, deve haver uma
governança específica. Mas em todas
as empresas o resultado final da governança é sempre
o mesmo: tomar decisões corretas e fazer
a empresa ter lucro todos os anos, com consistência.
Governança foi o tema desta mesa-redonda,
coordenada pelo diretor editorial do Informática
Hoje, Wilson Moherdaui, e pelo diretor de
redação, Márcio Simões.
Participaram: Adilson Herrero, diretor de tecnologia
da Metro Tecnologia & Sistemas (Banco Alfa).
Davi Carvalho da S. Júnior, diretor de
TI da Transit Telecom. Diego Figueiredo Costa
Viégas, coordenador-geral de TI do Ministério
do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Dorival Dourado Júnior, diretor de operações
e serviços da Serasa. Elisabete Cecília
Chaves, diretora de TI e planejamento da Empresa
de Tecnologia da Informação e Comunicação
do Município de São Paulo (Prodam).
Fabiano Borges, diretor de desenvolvimento pessoal
e TI do Centro de Gestão de Meios de Pagamento
(Via Fácil/Pedágio Sem Parar).
Fernando Menezes, superintendente de TI da Sabesp.
Genilson Gomes Corradi, diretor de tecnologia
do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes).
Gustavo Celso de Queiroz Mazzariol, gerente de
TI do Metrô de São Paulo. Jairo
Pekelman, assistente de diretoria da Nossa Caixa.
Vitor Marcos Almeida Machado, coordenador-geral
de tecnologia e segurança da informação
da Receita Federal.
IH — O que incluir para
montar um bom esquema de governança?
Elisabete — Na
Prodam, nossa renovação inclui até mudança
física, do Ibirapuera para a Barra Funda
[dois bairros de São Paulo]. Até unificamos
duas diretorias de desenvolvimento. Então,
nossa governança inclui reestruturação
de processos, de pessoas, de tecnologia. No ano
passado, nos preparamos para o CMMI, já que
entregamos 60 grandes projetos em 2006, pois atendemos
todas as grandes e pequenas secretarias do município.
Do CMMI, um aspecto importante é a gestão
unificada, com visibilidade do processo de gestão.
Usamos também conceitos do PMI, da ITIL,
do Cobit. Governança é um processo
de melhoria contínua, e temos clientes em
mundos diferentes, uns mais estruturados, outros
menos. Fazemos 700 atendimentos ao cliente por
mês.
IH — Com a mudança
física, as mudanças culturais saem
mais facilmente?
Elisabete — A
mudança
ajudou muito. Agora o RH ficou perto de nós, é essencial,
assim as pessoas se envolvem.
Diego — Somos
um ministério,
e trabalhamos só com informações.
Não temos nada palpável: escola,
estrada, hospital. Somos o órgão
central de vários assuntos, então
nossa busca é a transparência advinda
dos sistemas. Um dos lançamentos recentes é o Portal
Transparência, no qual o cidadão
consegue acesso aos detalhes de como foi gasto
o dinheiro público. Em cerca de um mês,
o cidadão vai saber quanto eu gastei para
vir a São Paulo. Ainda temos bastante o
que avançar, obviamente, outras áreas
estão mais para trás. Por exemplo,
a Secretaria de Patrimônio da União
cuida de todos os terrenos e prédios públicos
da União, mas não fornece tantas
informações ao público, e
estamos trabalhando nisso. Com a governança,
vieram os pregões eletrônicos, que
trazem muita economia ao governo. Com o nosso parceiro
de TI, avançamos bastante na gestão
do desenvolvimento de sistemas. Mas falta melhorar
a gestão e monitoramento de redes, nossa
rede é uma colcha de retalhos, com muitos
legados. Sistemas mais antigos demandam mais investimento
e o resultado só vem com mais dificuldade.
Fizemos um aditivo do contrato com o Serpro, o
nosso prestador de serviços, é um
contrato de mais de R$ 100 milhões por ano,
e a mudança mais significativa nas cláusulas é a
governança: vamos governar melhor esse contrato.
IH — Vocês fizeram
uma sintonia fina nos SLAs com o Serpro?
Diego — Fizemos.
Somos até exemplo para outros órgãos,
porque a discussão com o Serpro foi muito
produtiva. Este ano, a melhora nos serviços
deve ser significativa, com redução
de custos.
IH — Se o ministério
mexe só com idéias, que sistemas
são os mais adequados? Sistemas de apoio às
decisões, como business intelligence e balanced
scorecard?
Diego — Começamos
em 2006 um projeto básico, mas ainda necessário
no ministério: desenho, análise e
melhoria de processos. Compramos uma ferramenta,
treinamos pessoal e estamos trabalhando numas poucas áreas
do ministério. Isso vai trazer muitas vantagens,
vai mostrar em que pontos do processo a gente consegue
ser mais transparente para o cidadão.
Elisabete — Estamos
instalando monitoração da área de finanças
e de educação; temos mais de 30 mil
computadores em escolas. Coisas como monitoramento
e pregão eletrônico são governança
também, porque nos ajudam muito a acelerar,
tudo no mundo público é muito moroso.
IH — A governança é melhor
num órgão de arrecadação,
como a Receita Federal?
Vitor — Uma palavra
sobre modelos de governança
no governo: existe um componente histórico.
Em alguns órgãos, como o Ministério
da Fazenda, a construção do modelo
de gestão vem sendo feita há anos.
Começamos em 1995, porque a complexidade
da tecnologia começou a ficar bem real na
década de 90. Num ministério como
o nosso, em que a matéria-prima é a
informação, foi uma barra assegurar
a gestão com os microcomputadores. Órgãos
como o Ministério da Fazenda ou a Receita
Federal precisavam amadurecer, virar órgãos
de Estado, e não órgãos de
governo. Isso não se resolve por decreto, é uma
evolução histórico-cultural.
Se essa mudança de mentalidade não
ocorre, o órgão finge que implementa
a governança, porque tudo muda quando muda
o governo, e nesse caso a TI vai ser comprada como
se compra tapete. Hoje, a Receita Federal funciona
como órgão de Estado, a interferência
política é pequena, e as mudanças
de governo tendem a agregar.
Vou voltar um pouco para 1995: como você constrói
um modelo de gestão de TI da Receita e do
Ministério da Fazenda sem um modelo de gestão
de TI do governo federal? Sem referência,
estamos construindo nosso modelo até hoje.
Este governo tem um modelo de gestão, o
que ajuda. É um esboço, com linhas
gerais, mas existe. O negócio é aproveitar
o momento histórico e aderir — não é acatar,
mas aderir.
Em 2003, tínhamos receios na Receita. Falando
português claro: será que esses caras
vão começar a construir um monte
de regras baseadas num ambiente de torre de marfim?
Basta imaginar, por exemplo, uma dificuldade nos
sistemas que suportam o comércio exterior.
Mas nossos receios não se materializaram.
As diretrizes de gestão do governo federal
são light, permitem a troca de
informações e modelos.
O problema
agora é incorporar quem não
tem modelo de governança. A receita previdenciária
não tinha modelo de gestão, e sua relação
com a Dataprev é completamente diferente da
relação entre Receita Federal e Serpro.
A governança de TI da Previdência era
parte no gabinete do ministro, parte no INSS, parte
dentro da Dataprev. Então isso tudo já foi
tratado e temos um plano.
IH — Para montar uma boa governança,
qual é a melhor referência? ITIL,
Cobit, ISO 20000?
Dorival — Sozinho,
nenhum desses modelos presta. O melhor modelo
de governança está muito
ligado ao momento em que a empresa vive, sua cultura.
Mas é claro que temos de conhecer todos
eles: Cobit, ITIL, BS 7799, ISO 20000, ISO 27001,
CMMI. Tudo isso é importante conhecer, assim
ajudamos a empresa a compor um bom modelo. A Serasa é uma
empresa ISO com um bom modelo de qualidade.
No modelo
de governança, é fundamental
descobrir onde chegar, descobrir os propósitos
da empresa. Senão, esses modelos viram um
monte de informações. Depois, o negócio é envolver
a empresa; governança não pode ser
uma coisa só da TI. A empresa precisa de capacidade
de gestão: medir, entender os objetivos. Vocês
conhecem a máxima: só conseguimos melhorar
o que medimos. Então, é importante
escolher bem os indicadores, que mostrem o resultado
da TI na gestão do negócio. Se a governança
de TI não ajudar no resultado final da empresa,
não adianta.
IH — Na Serasa, quais são os melhores
indicadores?
Dorival — Não tem uma receita de
bolo, mas o indicador está errado se ele
está sempre no ótimo. O propósito
do indicador é ajudar na melhoria da empresa,
então temos de medir o que não fazemos
bem. E precisamos comparar nossas medições
com as de mercado, fazer benchmark
IH — Um sistema exigente como o Sistema
de Pagamentos Brasileiro estimula a governança?
Adilson — O SPB é um modelo muito
rico, porque, com ele, temos só duas alternativas:
ou estamos de acordo e estamos operando ou não,
e aí estamos fora do sistema bancário.
Não tem meio-termo. Isso trouxe à luz,
para todos os bancos, quão críticas
são aquelas operações realizadas
em cadeia por todo o sistema bancário. Não é nada
simples.
Quando o SPB começou a ser implantado, as incertezas a respeito da tecnologia
e da área de tecnologia vieram à tona. Ficou clara a necessidade
de gerir melhor os ativos e os serviços de tecnologia. Isso coincidiu
com a introdução desses modelos internacionais de boas práticas
e de qualidade.
Respondendo à pergunta, o SPB estimulou uma
gestão mais apurada da tecnologia. É uma
operação muito rígida, de
muita responsabilidade.
Genilson — Estou na
diretoria do Banestes há três anos — até 2002,
o banco vinha de uma operação deficitária.
Nós recebemos o desafio, e nos últimos
quatro anos multiplicamos o patrimônio líquido
por seis. Em 2005, fomos o segundo melhor banco
em gestão financeira, o quinto melhor banco
em rentabilidade. Para chegar a esse ponto, a TI
teve de agir muito. Nosso foco ficou em alinhar
a TI à estratégia e melhorar a transparência
na relação entre TI e usuários.
Começamos com um processo de gestão
dos pedidos feitos à TI: todo pedido precisava
de ROI [cálculo de retorno do investimento],
feito pelo gerente do negócio ou pela própria área
de TI. Esses pedidos seguem um fluxo, de três
níveis: o diretor, o comitê de tecnologia,
o comitê da empresa como um todo. Temos um
plano estratégico de TI. Hoje todo mundo
sabe o que tem de ser feito, publicamos na intranet.
Nossa diretriz tecnológica é no sentido
de simplificar, padronizar a infra-estrutura de
TI. Resumindo: planejamento, organização
e padronização fizeram diferença
para nós.
Jairo — No final de
1985, a Nossa Caixa entrou na bolsa de valores,
e aí tem de
seguir as regras de governança corporativa
do mercado de capitais, e por conseqüência
tem de seguir a governança da TI. Usamos
o Cobit como referência principal, porque
o Banco Central usa o Cobit nas auditorias. Quando
nos estruturamos por processos, como manda o Cobit,
ficou até mais fácil para a área
de risco — agora é mais fácil
medir o risco da TI. Há um ano e meio, fizemos
até um balanced scorecard de TI,
alinhado ao balanced scorecard corporativo.
A governança ajuda muito nisso.
IH — Como é a governança numa
empresa jovem?
Fabiano — Temos seis
anos e alguns meses de existência, mas a empresa mudou bastante
todo ano. Apesar de parecer que não temos
concorrência, temos a concorrência
do dinheiro de papel. A empresa nos pressiona muito
por resultados, mais que lidar com fornecedores
ou padronizar. Quando o marketing exige flexibilidade
para lançar uma nova oferta, e a gente tem
alguma restrição, nossa governança
começa pela gestão do portfólio
da TI.
Nossa área de TI é centralizada.
A gente opera dois negócios, o Sem Parar
Via Fácil e o Onda Livre no Rio de Janeiro,
a partir de uma estrutura centralizada em Osasco.
Como a gente não é o operador do
pedágio,
a gente repassa o dinheiro; ficamos com uma parcela
muito pequena. Nas principais rodovias, as que geram
os números mais expressivos, nossa participação
na arrecadação do pedágio está em
40%. Quando entrei na empresa, em 2005, processávamos
9,5 milhões de transações por
mês; fechamos 2006 com 12,5 milhões.
Davi — A área de TI da Transit existe
há um ano e meio, e eu estou na Transit
há sete meses. A Transit cresceu rápido.
Na cultura, não havia a consciência
de processos estruturados, e esse desafio nos fez
pensar em governança. Se falamos de processos,
de fluxos, o pessoal entende; se falamos de governança — o
que é isso? Precisamos ir devagar. Começamos
a discussão de governança há quatro
meses, e já temos nosso primeiro documento
de governança. Desenvolvemos quase tudo
em casa, mas nosso negócio é telecomunicações,
não desenvolver software. TI, portanto, é suporte,
mas com a vantagem de que, na Transit, a área
de TI está numa vice-presidência de
tecnologia. Um dos nossos desafios é a arquitetura
orientada a serviços: como gerenciar? Precisamos
estar preparados para a implementação
da portabilidade, é um desafio enorme. Temos
muitas demandas regulatórias, e temos a
limitação dos recursos, e por isso
apostamos numa arquitetura orientada a serviços.
Uma vitória nesses três meses foi
a criação de um comitê deliberativo.
Mas quando levamos as coisas para a alta direção,
ela vai olhar o faturamento e quanto gastamos com
TI. No final das contas, o que interessa é quanto
a Transit vai ganhar com isso. É o que estamos
tentando fazer na Transit: demonstrar o valor da
TI. E agora a responsabilidade pelo projeto é da área
usuária; é outra mudança cultural.
Um
fator de sucesso é ter um time de arquitetura,
por menor que seja. Não adianta trazer solução
se não é possível integrar a
solução com os sistemas atuais. Estamos
também usando modelagem de processos, assim
ajudamos o gerente de área a definir o modelo
de negócios, o projeto, o produto, antes de
descer qualquer coisa para a TI.
IH — Quem dá mais trabalho: o usuário
ou o profissional de TI?
Gustavo — O usuário ficou rebelde,
ele não vem mais com uma pergunta, mas com
uma resposta: eu preciso disso. Já vem com
a solução pré-formatada, e
isso é um problema cultural difícil
de lidar. Governança exige tudo isso: que
a gente aprenda a negociar, medir, mostrar, prometer
prazo. Uma parte da governança é com
a cúpula: cada vez que muda uma diretoria,
a gente tem de negociar tudo de novo, sempre vem
aquele pessoal com as métricas ideais e
a gente tem de, mais uma vez, explicar que investimento é diferente
de investe menos. É uma briga.
ITIL, processos, tudo isso é uma forma de
me defender. Esse lado cultural é o que
mudou nos últimos dez anos: o usuário
passou a conviver com tecnologia no dia-a-dia,
não é mais intangível, então
mudou para ele o conceito de missão crítica.
O correio eletrônico não pode parar.
E
tem o pessoal com 20, 30 anos de informática.
Eles não querem saber de regras, controles. Eu
sempre fiz assim, eles dizem. Na empresa
pública,
convivemos com esse tipo de problema. Tem muita gente
acomodada, é duro evoluir.
Vitor — Eu queria falar
sobre isso: TI versus usuário, TI versus a alta administração
e TI versus TI. Um dado da natureza: o usuário
tem visão parcial, não é a
função dele entender o negócio
globalmente. Então, em algum momento o indicador
dos indicadores deve prevalecer: o resultado da
organização como um todo. Sobre a
administração: no melhor dos mundos,
a TI decide sozinha sobre as operações.
A administração fica com tempo para
compreender os processos, e etc., mas isso não
atrapalha a operação.
Agora, TI versus
TI é o pior dos mundos. A
cultura de um grupo é muito diferente do outro,
o prestador de serviços, por exemplo, e não
há como reprimir o conflito.
Gustavo — As
pessoas têm vaidade,
querem exercer sua criatividade, tem a questão
do poder.
Genilson — Todo ano
a gente faz uma pesquisa interna de satisfação
e percebe o problema de TI contra TI: uma equipe
estimando alguma coisa a mais para comportar
algumas outras coisas.
IH — Tecnologia ajuda a empresa a melhorar
a governança?
Fernando — Ferramenta sozinha não
faz nada, acho que até piora, e por isso
falamos de processos, pessoas. Então, o
essencial são as pessoas, e então
o essencial é a mudança cultural.
Nem o usuário, nem a administração
e nem a TI estão acostumados à cultura
do controle, do acompanhamento, da transparência.
Americano inventa nome novo para coisa velha e
aí vende tudo de novo, e a governança é isso,
uma coisa que, de uma forma ou outra, todo mundo
faz. Talvez não sistematizado, que é o
princípio americano. No fundo, o investidor
quer saber o seguinte: aquele dado ali no balanço
reflete a realidade? Sim ou não? Governança é para
isso: garantir que, na sua rede, só entra
quem tem autorização, e toda entrada
de dados precisa de respaldo. O auditor da Sarbanes-Oxley
gosta muito de evidência, e para ele às
vezes evidência é papel assinado. É um
complicador, já que, quanto mais as coisas
ficam informatizadas, menos papel nós temos.
Outro ponto importante: indicadores. Vivemos uma
tirania dos indicadores. Mas o ponto essencial é:
de que adianta um indicador se eu não sei
o que fazer com ele? O ponto essencial não é o
indicador, mas sim: o que eu preciso medir, em
que ponto eu devo medir e o que eu faço
com a medição, ou seja, qual é a
ação? Estamos criando muito indicador
e pouca ação em cima dos indicadores. É uma
briga que temos na Sabesp, mais com fornecedores:
se você não tem o que fazer com o
indicador, não meça. É jogar
dinheiro fora, e eu tenho fama de pão-duro.
Fabiano — Além de tudo isso, a governança
não pode virar burocracia. Temos de fugir
da mediocridade metodológica. Não
podemos abraçar o nosso kit fariseu, ITIL
e Cobit, ficar cego e fazer isso só porque é bonito.
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