IH — O que é mais
vantajoso: certificados para a empresa ou para
o pessoal?
Sandra — Às vezes,
a certificação da empresa e a dos
profissionais estão ligadas uma à outra.
No passado, falávamos da certificação
ITIL para os profissionais, mas hoje já existe
uma certificação no mercado para
a empresa; isso porque, se a gente certifica só os
funcionários, não consegue garantir
os projetos longos. O cliente se preocupa com a
qualidade dos profissionais do fornecedor.
Além das certificações óbvias, temos de nos preocupar
com a qualificação de um profissional diferenciado. É uma
deficiência da nossa educação: os profissionais brasileiros
não sabem outros idiomas, em especial o inglês. É uma alfabetização
difícil, mas necessária. Com os nossos funcionários, a política é:
quem tem inglês fluente, vai atrás de um terceiro idioma, como o
espanhol.
Em alguns casos, nós subsidiamos o estudo de idiomas em 100%. Assim funciona
melhor, porque eu tenho metas que o funcionário deve atingir. Se preciso
de um funcionário com inglês fluente, eu pago, determino os prazos
e faço uma auditoria. Mas o funcionário escolhe se vai estudar
na escola A ou na B.
Mas é importante investir na educação
do funcionário. Alguns dos meus clientes não
querem saber dos certificados da Top. Se eu monto
para eles uma equipe, eles querem ver os certificados
da equipe.
Alberto — De nada
adianta investir em pessoal sem ter técnicas de retenção
desse pessoal. Na verdade, em vez de investir numa
política de formação específica,
nós preferimos investir numa política
mais geral de gestão dos recursos humanos.
Ou seja: o que eu preciso fazer para que a empresa
atraia talentos do mercado? E o que preciso fazer
para que os talentos fiquem na empresa?
Estamos sempre observando cada funcionário, para que ele cresça
na empresa. Isso envolve técnicas de todo tipo, inclusive técnicas
arrojadas de remuneração, mas absolutamente transparentes, com
regras muito rígidas e conhecidas.
Estimulamos a auto-educação. Quando o estudo está ligado à atividade
operacional, a empresa paga tudo. Mas estimulamos outros estudos, de cunho mais
individual. Se ele estudar algo que não tem a ver com a atividade operacional,
mas tem a ver com a empresa, como inglês ou MBA, a empresa paga metade,
caso o chefe dele aprove.
E quando falo de gestão dos recursos humanos, falo de todos os campos:
seguro de vida, assistência médica de nível elevado, trabalho
em casa.
Mas o verdadeiro problema é: como eu faço
para que o funcionário queira ficar? Isso
exige uma certa cultura da organização — a
gente tenta criar valores coletivos que se sobreponham
aos valores individuais. Temos gestão do conhecimento,
do aprendizado. Na fase de encerramento do projeto,
nós fechamos os livros e ativamos o conhecimento,
com documentação adequada e compartilhamento
do conhecimento com outras pessoas da empresa. Se
isso for bem-feito, representa um bem coletivo, que
as pessoas valorizam.
IH — Qual é a rotatividade na
Bull?
Alberto — É de 8%, numa atividade
em que a rotatividade é alta. Esse é um
tema muito curioso. Existe a expectativa de que
a rotatividade fique abaixo dos 5%, mas esse número
vem da história da indústria. Numa
empresa de serviços, a rotatividade também
gera inovação. Se a empresa de serviços
quer gerar conhecimento, se renovar e se reinventar,
precisa de rotatividade mais alta. Na Bull, nossa
realidade é 8%, e é um número
confortável para a nossa atividade. Claro,
não queremos que algumas pessoas
saiam. E outras pessoas é bom que saiam: o
programador, por exemplo, não pode ficar fazendo
sempre a mesma coisa, com a mesma linguagem — ele
se desmotiva.
IH — Então existe uma política
diferente e específica para postos-chave?
Alberto — Eu tenho
uma política
geral de gestão de talentos, mas é lógico
que trato diferente cada pessoa. E isso faz parte
da política geral. Por outro lado, temos
políticas de rejuvenescimento da empresa,
trazemos sempre estagiários, que ficam
dois anos e aí ou ficam ou são
certificados para o mercado. Hoje, somos 600
no Brasil, na Argentina e no Uruguai, com média
de idade de 35 anos. Mas, como a tecnologia da
informação é uma ciência
nova, se a gente baixar de 35 para 34, ou se
baixar um pouco mais, é bom.
Sandra — Mas o caráter da pessoa?
Caráter ou ela tem ou não tem.
Na Top, costumamos procurar gente que tenha os
valores humanos, a postura, o comportamento.
Para ter excelentes técnicos, você bota
essa pessoa num curso técnico.
Alberto — Estou totalmente
de acordo. Na Bull, não administro grupos de pessoas,
mas cada indivíduo. Ele é administrado
do dia que entra ao dia que sai. Nenhuma pessoa
entra na Bull se não for aprovada por
três diretores e nenhuma pessoa sai da
Bull sem a unanimidade do comitê de direção.
Em mais de 90% das nossas demissões, o
funcionário aprova a própria demissão.
IH — Todo esse esforço de gestão é remunerado
pelo mercado?
Gustavo — É por isso que fazemos
tudo isso — para servir alguém, e
servir bem, para que essa pessoa, essa empresa,
esteja disposta a pagar o valor do serviço,
esteja disposta a continuar fazendo negócios
conosco.
Então, uma questão básica é vender tudo isso, todos
os nossos talentos, para o cliente. Muitos dos clientes olham só o preço.
Eles acham que, durante o processo, conseguem consertar as coisas, conseguem
fazer as coisas com menos metodologia.
É um desafio adotar muitos desses
modelos de gestão, porque, quando vamos ao mercado,
não encontramos respaldo. Nesse ponto, os
fabricantes podem ajudar. Alguns fabricantes atuam
no cliente para vender essa cultura, para explicar
que não basta comprar o produto X ou o Y,
mas que é importante comprar também
um bom serviço associado.
IH — Os clientes compram mais por preço?
Gustavo — Se o cliente
tem a cultura de TI como missão crítica, como alguns
bancos têm, ele olha tudo o que está por
trás dos serviços. Caso contrário,
o próprio cliente pede para degradar um
pouco o serviço e baixar o preço.
Mas isso não funciona. No dia-a-dia, ele
vai exigir algo melhor. Meu técnico, meu
engenheiro, vai oferecer também algo melhor — e
vai ficar frustrado, porque não pode.
IH — Do ponto de vista estratégico,
como o integrador deve encarar a formação
do pessoal?
Tadeu — Os certificados
da empresa, os certificados do funcionário e os SLAs são
quase uma regra — os clientes exigem, os
governos exigem. E, para ter todas essas qualificações, é preciso
formar os atores.
Mas é preciso um sentido de preservação. Não podemos
pegar um indivíduo e dar todas as qualificações para ele.
Precisamos de uma matriz de competências, formar o time conforme o projeto,
para que uma pessoa não saia e o contrato despenque.
O gestor deve ter as qualificações de liderança, de formação
de equipe, até para lidar com esses técnicos que, normalmente,
têm egos exacerbados.
O mais importante, contudo, é ter um processo
para que esses técnicos cresçam dentro
da empresa, para que aprendam. Para eles, isso é mais
importante que salário.
IH — Se as margens caem, então
os integradores vivem mais de clientes antigos,
aqueles dispostos a pagar pelos investimentos
que o integrador fez em qualidade?
Tadeu — Sim, o serviço se vende
pela qualidade do serviço que já prestamos.
Manter o cliente é importante, porque
nos leva a resultados melhores.
Fernando — Um problema é que
existem poucas estatísticas sobre projetos
fracassados no Brasil. Quando os projetos fracassam,
todo mundo esconde a história, inclusive
os CIOs. Essa falta de números prejudica
todo mundo — os clientes, os CIOs, os integradores.
IH — Os clientes costumam assediar os
funcionários do integrador?
João — Os clientes
vêm em
cima dos funcionários, sim. Conforme o tamanho
do projeto, a equipe do cliente não se sente
preparada para cuidar daquele sistema.
Em algumas operadoras de telecomunicações, fizemos o seguinte:
depois do sistema instalado, a gente fazia uma operação assistida.
Na primeira fase, meu pessoal cuidava do sistema e o pessoal do cliente aprendia.
Na segunda fase, invertia: o pessoal do cliente cuidava do sistema e meu pessoal
supervisionava. Na terceira fase, o pessoal do cliente assumia 100% do sistema.
Isso
funcionou muito bem, assim elas não
vieram atrás dos nossos funcionários
como vinham antes.
Alberto — Nós somos muito duros
com a ética das relações
comerciais: 100% dos nossos contratos têm
cláusulas de não-competição
por recursos humanos com parceiros, com clientes
e com fornecedores. Nenhum parceiro da Bull terá assédio
dos seus funcionários e não aceitamos
assédio no sentido contrário. São
cláusulas contratuais, com multas. Isso
melhora muito as relações. Se eu
invisto no meu parceiro ou cliente, quero ficar
tranqüilo para fazer o meu trabalho sem
me preocupar com o roubo dos meus funcionários.
Sandra — Como a Top
também trabalha
com a busca de recursos humanos, como somos também
uma empresa de hunting, nós deixamos
essa possibilidade aberta para o cliente — mas
vamos cobrar.
Alberto — Só esclarecendo um ponto:
as relações contratuais são
rígidas, ou seja, nenhum pode assediar o
outro lado sem o OK das empresas — o que
não quer dizer que não é possível
negociar. Só não pode negociar direto
com o funcionário, tem que ser com a empresa. Às
vezes a gente cobra, às vezes a gente libera.
Mas as relações são sempre
transparentes, em cima da mesa.
Aliás, ao
final dos trabalhos, nossa intenção é fazer
uma transferência completa de know-how, para
que o cliente não precise de nós para
continuar.
IH — O que é melhor: registrar
pela CLT ou contratar funcionário pessoa
jurídica?
Sandra — Alguns clientes
exigem que os funcionários do prestador de serviços
sejam registrados pela CLT, sem nenhum tipo de
exceção. Não pode pagar
nada por fora: tudo tem de ser registrado. Isso é mais
comum nas multinacionais, que estão sob
constante fiscalização. E esse
cliente está disposto a pagar por isso,
para não correr riscos. Mas, para uma área
de tecnologia, isso engessa muito.
Tadeu — Esse é um tema complicado.
Os riscos fiscais e trabalhistas hoje são
tão grandes que não vale a pena
ter pessoa jurídica.
Fernando — Na maioria
das empresas tudo virou CLT e já há uma tendência
de flexibilizar de novo.
Tadeu — Precisamos
flexibilizar isso, tem de haver alguma forma,
porque a carga tributária é muito
pesada. O problema é que, no mercado,
nem todos seguem a mesma política. A concorrência
fica meio desleal.
Alberto — Quando a
empresa perde ação
na justiça, a ação é executada.
Então, não há dúvidas
sobre isso: há certezas.
João — Independente disso, as
empresas desrespeitam a lei.
Alberto — Desrespeitam
e vão
pagar o triplo lá na justiça. Por
isso, alguns clientes pedem as folhas de salário
e os recolhimentos de impostos, um a um, para
checar. Por quê? Porque mais recentemente
surgiu uma onda de interpretação
da lei um pouco mais flexível, do tipo:
tem que ser CLT mas ninguém diz que tem
que ser tudo CLT. Então o cara paga mil
por CLT e cinco mil por fora. É a CLT
Flex. Aí o cliente pede a folha de pagamento,
para ver o quanto a gente paga para cada funcionário.
Não adianta ter CLT Flex, porque também é fácil
de autuar.
Sandra — É até mais vulnerável
em alguns casos.
Alberto — Na Bull,
nós gostamos
desse movimento. Ele nos beneficia. Todos os nossos
funcionários são CLT. Mas nós
achamos que os impostos estão corretos?
De jeito nenhum. Achamos que o governo achaca a
sociedade, e cria um problema para o desenvolvimento
da área em que existe o maior potencial
de crescimento do emprego, que é a área
de serviços.
O governo não vai,
na nossa geração,
diminuir a carga tributária de forma significativa.
Basta olhar as dívidas do Estado. Não
tenhamos grandes ilusões com isso.
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