| Profissionais de TI se acostumaram
a executar e gerenciar projetos, e projetos têm
começo, meio e fim. Mas uma empresa exige
outro tipo de gestão, e portanto a área
de TI dentro dessa empresa também exige
outro tipo de gestão: é a gestão
por processos, e tais processos ocorrem todos
os dias enquanto a empresa durar. Fabricantes
e CIOs falam tanto da arquitetura orientada a
serviços (SOA) porque, para eles, uma
SOA serve melhor ao funcionamento dos processos.
Foi o que sete CIOs discutiram nesta mesa-redonda.
Participaram: Abelardo Marcos Júnior, coordenador do grupo setorial de
TI da Secretaria de Estado de Saneamento e Energia do Governo do Estado de São
Paulo. Andre Luiz de Almeida, diretor técnico do departamento de saúde
da Secretaria da Saúde do Governo do Estado de São Paulo. Edilene
Carapeba Rodrigues, superintendente executiva do Banco Real ABN Amro. Jorge Fernando
Krug Santos, executivo sênior de segurança da TI do banco Banrisul.
José Geraldo Loureiro Rodrigues, diretor de sistemas e informação
da Controladoria-Geral da União. Laura Paladino de Lima, assessora de
tecnologia do Banco Cacique. E Waldir Bento de Santis, gerente de desenvolvimento
de negócios da Serasa.
IH — Quais são as principais dificuldades
que vocês enfrentam na gestão da
infra-estrutura de TI?
Jorge — Um problema importante é o
da segurança. Serviços como o banco
via Internet e o banco via celular são
feitos com produtos de mercado, mas muitas vezes
esses produtos não estão padronizados.
Cada banco monta os serviços do seu jeito,
um usa token, o outro usa sei lá o
quê, mas essa despadronização
provoca problemas de segurança. É um
desafio garantir a segurança com a convergência
das tecnologias e a falta de padronização
nos produtos de mercado. É um desafio
não só para os bancos, mas para
os fornecedores dos produtos também.
José — A Controladoria Geral da
União é um órgão
vinculado à Presidência da República;
ela audita todos os órgãos do governo,
diretos ou indiretos, inclusive estaduais e municipais,
para acompanhar a correta aplicação
dos recursos públicos federais. Ela tem
26 regionais e 2.500 funcionários, e quatro
anos de idade.
É um trabalho complexo. Nossos principais problemas são de integração
de sistemas, precisamos de interoperabilidade com outros sistemas corporativos
do governo. Participamos de comitês, como o do e-Ping, feito para conseguir
a integração de sistemas.
Da nossa experiência, é melhor
fazer um trabalho correto, estruturado e estável
do que ter pressa, e amanhã ter de fazer
remendos.
A nossa infra-estrutura tem crescido, e a rede
já é nossa, já interliga
o país inteiro, com muitos servidores
interligados. Como a gente não pode aumentar
a equipe na mesma proporção da
rede, temos de buscar tecnologia, treinamento
e terceirização. Ninguém
pode ficar parado por falta de infra-estrutura
ou de sistema.
Fazemos alguns sistemas internamente, mas temos
terceirização com o Serpro, que
faz outros sistemas e cuida de outros.
IH — De todas as informações
recebidas pela CGU, quantas chegam automaticamente,
por meio da interligação de sistemas
com outros órgãos de governo?
José — Recebemos quase tudo automaticamente,
pelo menos dos sistemas estruturadores [os
maiores e mais importantes do governo].
No Portal da Transparência, temos 500 e
tantos milhões de registros, de R$ 2,7
trilhões. É um dos produtos da
CGU. Recebemos algumas bases de dados em CD,
porque é mais fácil do que transmitir
automaticamente; da Caixa Econômica Federal,
por exemplo, ou do Fundo Nacional de Saúde,
do Bolsa Família.
IH — Mas vocês não
recebem dados em papel, para depois dar entrada
dos dados manualmente?
José — Não. Temos muito
procedimentos em papel no tratamento de denúncias.
Alguns tribunais estão mais adiantados
do que nós nesse ponto.
Mas estamos melhorando os nossos sistemas de
auditoria, de fiscalização e prevenção
da corrupção, com processos de áreas
de inteligência interna, com integração
de dados. No governo federal, os dados estão
muito esparsos.
Abelardo — Na Secretaria de Saneamento
e Energia, participamos de uma rede do governo
do Estado de São Paulo, a Intragov, com
administração feita pela Prodesp.
Acho que nosso principal desafio é cultural.
Sempre enfrentamos a questão cultural
quando precisamos rever processos, implementar
novas tecnologias e, é claro, treinar
as pessoas. Estamos fazendo agora o nosso planejamento
plurianual, e estamos preocupados com a padronização,
porque temos de tudo um pouco. Padronização
significa segurança, disponibilidade e
também redução de custos.
Andre — Na Secretaria de Saúde
do Estado de São Paulo, eu tenho toda
a população do estado como cliente,
são 41 milhões de clientes. Divido
o estado em 17 regiões, e tenho unidades
administrativas em cada uma dessas regiões.
Fora os hospitais diretos, sob a gestão
do estado, e os indiretos, com os quais temos
uma troca de informações.
Temos dois grupos de desafios, um físico
e outro lógico. No físico, tenho
de instalar e manter servidores e rede para toda
essa turma. Usamos também a Intragov.
Como dependemos de pregões, não
conseguimos montar um parque unificado. A gente
não escolhe, mas especifica. Algumas unidades
ficam longe, e elas têm autonomia para
comprar; às vezes, elas nos pedem ajuda
para fazer a especificação, porque
elas não se sentem qualificadas.
Temos também o desafio da disponibilidade,
um dos mais ímpares que eu conheço.
Se um sistema ficar parado num minuto fatídico,
a perda é tangível em vidas. Por
exemplo, o sistema de transplantes.
Meu desafio lógico é de segurança.
Tenho registros de pacientes com HIV no estado
inteiro, por exemplo. É uma informação
muito sensível.
Outro desafio lógico: o dos sistemas que
não estão na minha alçada.
Estou entre órgãos, como a Secretaria
Municipal de Saúde e o governo federal. Às
vezes, o governo federal me impõe sistemas,
como o registro nacional de nascimentos e óbitos.
Eu não conheço todos os meandros
desses aplicativos e sistemas.
Mesmo o conjunto de informações
nos bancos de dados da Secretaria da Saúde,
que é muito rico, nós usamos pouco;
quando começamos a montar um projeto de business
intelligence, percebemos isso.
IH — Se algum dado de algum banco de dados
for roubado ou copiado, você pelo menos
tem condição de saber que isso
aconteceu?
Andre — Filtramos muito bem quem acessa
as informações, então eu
consigo saber se houve uso inadequado da informação.
Mas a gente sofre com o fantasma do pen drive.
A indústria farmacêutica, por exemplo,
adoraria conhecer o meu banco de dados de diabéticos.
IH — Quais são os desafios na gestão
da infra-estrutura de TI nos bancos?
Edilene — Estou há seis anos no
ABN Amro, entrei na área de infra-estrutura,
passei dois anos cuidando do help desk mundial.
Acho que é do conhecimento de todos que
o ABN fez uma terceirização radical
da área de informática.
Partimos para uma padronização
mundial da área de serviços, e
dentro da área de serviços, a de
infra-estrutura.
Um desafio é a governança. Usamos
o conceito de centro de serviços compartilhados,
mas temos uma estrutura de serviços mundial,
com governança local. O CIO, por exemplo,
se reporta no Brasil e no exterior. É uma
matriz complexa.
Outro desafio são os contratos — eles
são globais. Fizemos um esforço
muito grande de padronização dos
serviços, de como o serviço passaria
a ser contratado, os SLAs nos contratos, a governança
técnica e a administrativa, os contratos.
Portanto, nessa terceirização,
usamos muito padrões e práticas
como o ITIL [biblioteca de textos com boas
práticas na gestão da infra-estrutura
de TI] e o CMMI [modelo para a gestão
da produção e uso de software].
Estamos até fazendo uma consolidação
do help desk no mundo. A mudança
da operação foi brutal. Transformamos
também o perfil dos gestores: agora eles
são gestores que sabem especificar.
No nosso modelo, escolhemos manter a arquitetura
dentro do banco, tanto a arquitetura de aplicativos
quanto a arquitetura de infra-estrutura. Então,
a inteligência das soluções
permanece no banco, mas com a complexidade de
uma governança mundial: não fazemos
mais nada sozinhos.
E temos agora de manter benchmarks [medições
e comparações] dessa governança
pós-terceirização.
IH — O ABN então não
compra tecnologia quando ela briga com a arquitetura
do banco?
Edilene — Temos o ABN Amro global e o
Banco Real. Um banco de varejo no mercado nacional
segue uma dinâmica de mercado diferente.
No Real, a governança já manda
buscar soluções mais globais, mas
sempre discutimos como ajustar a solução
global para as necessidades do mercado nacional.
IH — A arquitetura de tudo o que os fornecedores
de hardware e de software oferecem está ficando
mais padronizada com o tempo?
Edilene — Por incrível que pareça,
não.
Waldir — A Serasa está dentro da
cadeia de negócios do banco, da indústria,
do setor de telecom. Como toda empresa com tradição,
ela tem mainframe, que antes era uma arquitetura
difícil para oferecer serviços
novos ao mercado. Então, de uns tempos
para cá, olhamos a informática
como um negócio: o desafio é integrar
a informática ao modelo de negócio,
para fazer a empresa inovar e lucrar.
Mas a gente entende que toda empresa é um
organismo vivo. Assim, ela não tem destino,
mas ela tem uma jornada. Olhamos a tecnologia
assim: passo a passo, para cumprir essa jornada.
Como nós somos acessados por n instituições,
e como para cada tipo de acesso temos tecnologia
específica, estamos criando um modelo
para atender cada instituição mais
rápido. Esse modelo é a SOA, a
arquitetura orientada a serviços. Essa
arquitetura exige uma cultura e exige processos.
Os técnicos são altamente capacitados,
mas não conseguem conversar, se interligar.
Acho que as palavras-chave disso tudo são gestão
de demanda — é o modo de fazer
com que a TI se interligue aos negócios.
Existe software para ajudar nisso: gerenciamento
de aplicativos, do service desk [o
mesão de atendimento por telefone ao usuário],
mas esses software não se integram direito
com os outros sistemas da empresa. A gente sofre
na hora da compra e sofre na hora da integração
de sistemas.
Esse é um problema para nós, porque
vendemos informações, e informação é basicamente
tecnologia.
Laura — Há uns dois anos, o Banco
Cacique mudou a estratégia e passou a
abrir lojas de rua no Brasil inteiro. Estamos
então adaptando toda a nossa estrutura
de informática; no começo deste
ano, mudamos as nossas máquinas, para
suportar a quantidade de trabalho.
Para ficar claro, o Banco Cacique é mais
conhecido pelos empréstimos consignados,
empréstimos para pessoa física.
Por causa dessa mudança de estratégia,
abrimos quase 200 lojas de rua no Brasil inteiro,
quase uma loja por dia. Isso requer não
a movimentação de equipamentos,
mas a movimentação de pessoas,
de competências, para que tudo funcione
em todos os níveis.
Estamos também mapeando, revisando e documentando
todos os processos internos. É um trabalho
feito em conjunto; temos vários comitês:
desenvolvimento de produtos, definição
de prioridades, desenvolvimento de novos projetos,
continuidade e contingência dos negócios.
Nós só compramos soluções
de mercado, por isso nos preocupamos para que
tudo seja integrado: bancos de dados, segurança.
IH — Nessa reavaliação de
funções, a TI assumiu funções
ou dispensou funções?
Laura — Em geral, os funcionários
achavam que a TI tinha de resolver tudo o que
era tecnologia, do ar-condicionado ao servidor.
Nessa revisão, devolvemos algumas coisas
para outras áreas. No-break, ar-condicionado,
telefonia, essas coisas ficaram com outra área,
que chamamos de facilities [instalações
de infra-estrutura]. Nós, da TI,
somos usuários da área de facilities.
Antes, contingência era só TI.
Hoje, a TI faz parte da continuidade dos negócios,
mas ela não é o todo.
Antes, o pensamento era: pôs na tomada, é responsabilidade
da TI. Mas, de madrugada, não podemos
deslocar o operador dos servidores para checar
as medições do ar-condicionado,
por exemplo. Essa pessoa não pode ficar
preocupada com isso.
IH — A área de TI consegue ajustar
a TI aos novos negócios, ou seja, aos
novos processos da empresa?
José — Os sistemas estruturadores
do governo federal são absurdamente grandes
e, até pela história, são
antigos. Temos sistemas com mais de 15 anos de
idade, sem interligação entre eles.
Por isso a gente pega dados em CD, como os dados
do Siafi, o sistema de controle financeiro do
governo federal, ou como os dados do Siape, o
sistema de controle de pessoal. Como esses sistemas
são focados em processos, somos obrigados
a entender como os processos funcionam também.
Andre — Na área da saúde,
a integração é bem complicada.
Por exemplo, a Secretaria da Saúde não
usa o Serpro, mas o Datasus. Houve uma separação
de sistemas, na época do Inamps, e criaram
o sistema da previdência e o da saúde.
Mas é um quebra-cabeça em que faltam
alguma peças.
Jorge — Hoje, com um pen drive de
2 gigabytes, qualquer um rouba um sistema inteiro.
Então, existe tecnologia, um sistema operacional
que instalamos no pen drive; sem esse
sistema, nenhum computador aceita o pen drive.
Mas é mais importante conscientizar a
organização, para que ela conheça
a política de segurança. Fazemos
de tudo: até mandamos docinhos em forma
de cadeado.
IH — E como convencer o pessoal de TI
a cooperar com as mudanças?
Andre — Uma vez, peguei uma equipe de
desenvolvimento, pegamos uma viatura, e fomos
até a farmácia de dispensação
de medicamentos de alto custo. Quando chegamos
lá, o sistema não passava umas
informações para o balconista,
e um senhor de idade, cansado de esperar, ameaçava
o balconista com a bengala. É preciso
conhecer a vida na outra ponta para entender
o que significa disponibilidade.
Edilene — Quando a gente passa de uma
estrutura mais centralizada para uma descentralizada,
temos de mudar a coordenação dos
processos em tantos pontos ao mesmo tempo. Nesse
caso, o conceito de service desk é fundamental
para alinhar todos os serviços.
Como vivemos uma grande terceirização,
um dos desafios é alinhar os nossos processos
com os processos dos fornecedores, colocar as
pessoas conversando de forma estruturada.
No banco, além de reuniões regulares
com a área de operações,
temos de ir para a área de soluções
ao cliente, para ouvir reclamações.
Precisamos saber quão bravo o cliente
fica, quão urgente é aquilo. É diferente
ouvir um cliente no momento em que ele está reclamando.
IH — É possível padronizar
a entrega de serviços no mundo inteiro?
Edilene — Antes, tínhamos 40 e
tantos help desks no mundo, mas agora
só temos cinco. Vencemos o apego do usuário:
ele sempre quer um help desk ali perto.
O usuário em Amsterdã vai ligar
para a África do Sul e vai ter de acreditar
que, dali a duas horas, vão instalar alguma
coisa no micro na mesa dele. O desafio disso
está nas ferramentas, na integração
das ferramentas de help desk de todos
os fornecedores envolvidos no projeto; construir
essas pontes foi uma das coisas mais complexas
do projeto.
Para quem escreve aplicativos, o hardware está padronizado.
Mas não para quem dá assistência
técnica: HP é diferente da Dell
que é diferente da IBM. Daí a necessidade
de equipamento confiável: quanto menos
quebrar, menor o problema da assistência
técnica.
José — O ministro editou uma portaria
baseada na ISO 17799, que dizia: todas as estações
de trabalho serão do tipo usuário
restrito. Isso melhorou nossa vida, porque
parou de aparecer vírus, trojan, software
livre, desenvolvimento próprio de soluções.
Agora controlamos, por meio de logs [registros
automáticos] que funcionário
usa o quê. A gente associou o patrimônio
público ao login do usuário,
por meio dessa portaria.
IH — Qual é o maior desafio de
uma grande terceirização?
Edilene — Quanto maior a rede, quanto
maior a quantidade e a variedade de serviços,
mais importante a governança. Na parte
de infra-estrutura, usamos como base as práticas
do ITIL. Com uma prática, significa que
você mesmo precisa desenhar sua solução.
A grande vantagem do ITIL: é um conjunto
de recomendações. Ele recomenda
gestão de mudanças, gestão
de incidentes, gestão de problemas, mas
nós temos de desenhar a nossa solução.
E aí entram as pessoas. Com as pessoas,
entram os processos.
Não podemos cair em armadilhas. Precisamos
da governança, dos processos, mas também
precisamos treinar as pessoas. Quanto fazemos
uma reunião com a IBM ou com a Oi, o que
queremos que essas empresas nos entreguem depois
de uma reunião? Então, como alinhamos
as pessoas? Essas coisas também são
projetos, precisam ser definidas. No banco, treinamos
os coordenadores de vários fornecedores.
Isso é muito importante: como duas ou
três empresas, quando estão envolvidas
com o mesmo serviço, se envolvem e se
comunicam para que o serviço aconteça?
Uma armadilha da terceirização é essa:
a soma das partes não dá um todo.
Todo mundo está certo, mas o serviço
não é entregue.
Jorge — Se vamos ao mercado, encontramos
de tudo com certeza. Mas precisamos saber o que
levar para dentro da empresa. No Banrisul, resolvemos
isso com comitês: temos o comitê de
tecnologia, o comitê de riscos, e todos
os comitês se fundem num comitê de
gestão bancária. Aí, tudo
fica mais claro. Mas precisamos conhecer primeiro
os meandros da tecnologia.
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