| O
principal desafio da área de TI nas empresas
de saúde hoje é a integração.
Mas para fazer isso, os CIOs enfrentam grandes
problemas. Os processos não estão
mapeados, não há sistemas adequados
ao que o setor precisa e novas tecnologias como
linguagens de Internet chegam para conversar
com os sistemas legados. Ao mesmo tempo, o governo
conduz o processo de implementação
do padrão TISS (Troca de Informações
em Saúde Complementar) sem deixar uma
mensagem clara para todos os atores; e a oportunidade
de padronizar os dados e baixar custos de desenvolvimento
também aparece. Toda essa movimentação
ocorre em um ambiente em que a urgência
do cliente-paciente não pode esperar.
Aqui, a aplicação é realmente
crítica.
Os problemas e as soluções foram
discutidas na mesa-redonda coordenada por Wilson
Moherdaui, diretor editorial do Informática
Hoje, e por Márcio Simões, diretor
de redação. Participaram: Marco Antonio
Pereira, gerente de TI da Amil. Márcio Quirino,
coordenador de informática da Pró-Saúde.
Teresa Sacchetta, diretora de tecnologia do Fleury.
Luiz Renato Bento, supervisor de administração
de informações do Instituto do Coração
(InCor). Maurício de Moura Amorim, gerente
de TI da Farmasa. José Aparecido Vieira
Pinto, gerente de apoio da Fundação
Pró-Sangue. Suzete Vento, gerente de TI
do Hospital Santa Virginia. Iberê Ranieri,
consultor de TI da área de saúde.
E Adaílton Mendes, gerente de TI do Hospital
do Coração.m
IH — Qual é a maior dificuldade
para instalar ERP numa empresa de saúde?
Luiz Renato — O desafio do HC está na
integração. Para cada tipo de administração,
como em qualquer empresa, você tem uma
onda de revisões a cada seis ou sete anos,
nem que seja na superfície dos sistemas.
Agora estamos num processo contínuo para
identificar os sistemas.
Há também a inserção
de diversos personagens. Os casos médicos
são objeto de análise, não
só dos alunos, mas dos residentes, dos
médicos assistentes e do grupo de enfermagem.
Nós temos uma colcha de retalhos em termos
de sistema de informações. E estamos
trabalhando basicamente na integração.
O paciente entra num instituto para fazer um
atendimento terceirizado, passa um mês,
vai para outro instituto. Aí temos dificuldades
para fazer o tráfego do prontuário
eletrônico.
Teresa — Nós não conseguimos
encontrar no mercado pacotes adequados, a gente
tem que desenvolver. Isso tem um custo e tem
também a questão da integração,
do legado. Nós temos Mumps ainda lá também,
sistemas de 20 anos. Desenvolve tudo de novo?
Como conviver o legado com esses pacotes? Nos
sistemas de back office, nós trocamos
o nosso ERP porque o produto que tínhamos
foi descontinuado. Decidimos buscar um produto
que não fosse preciso modificar completamente.
No passado, o pacote de mercado era totalmente
transformado em função de particularidades
dos processos. Fizemos exatamente o contrário.
Engessamos o processo e adequamos para o pacote
de mercado. Senão, o custo seria muito
alto. E aí a área de TI é culpada
por não atender as necessidades do negócio.
Iberê — Até 2004, o Nossa
Senhora de Lourdes tinha um sistema em que cada
departamento era isolado; suprimentos não
conversava com faturamento; o funcionário
não tinha informação da
entrada do paciente. Aí eles compraram
um ERP com os códigos-fonte e o próprio
hospital começou a administrar o software.
Os departamentos foram integrados. Aí o
nível de dependência do hospital
com relação ao sistema foi total.
Quando falava que ia parar o sistema, o pessoal
entrava em crise.
TI ainda é visto como despesa; na maioria
dos hospitais é assim. No Nossa Senhora
de Lourdes, TI deixou de ser despesa, passou
a ser investimento. O médico agora tem
acesso à prescrição do medicamento
definida pelo farmacêutico. Tudo pode ser
rastreado, todas as informações
estão num mesmo lugar. E hoje 95% dos
médicos aderiram à prescrição
eletrônica.
IH — O médico
vira o cadeado do sistema?
Iberê — Exatamente — mas 5%
dos médicos ainda se recusam a fazer a
prescrição eletrônica. Normalmente,
são plantonistas. Em 2007, estimava-se
que havia no Brasil 6.700 hospitais; 120 hospitais
foram considerados com ferramentas adequadas
de TI, e 120 não dá 2%. [Dá 1,8%.]
IH — É uma
oportunidade para os fornecedores?
Teresa — É, mas temos dificuldade
de encontrar algo pronto; a gente tem que desenvolver
o processo com o fornecedor. O custo é alto;
temos que pagar por uma coisa que não
existe. Na maior parte das vezes, a gente desenvolve
internamente.
Marco — A Amil tem hospitais, laboratórios
e operadoras de saúde; o desenvolvimento é interno.
O legado é antigo, mas a gente conseguiu
fazer uma evolução dele, porque
o ambiente Mumps que tínhamos evoluiu
para o Cache. Uns três anos atrás,
fomos para a Internet. E passamos a ter dois
tipos novos de profissionais: o programador Java
e o artista, que faz um site de Internet cheio
de imagens e Flash [animações].
Um quer pensar em tecnologia pela tecnologia,
com processos complicados; outro quer fazer um
site bonito, mas que leva cinco minutos para
carregar. A gente conseguiu um meio termo. Nossa
equipe de tecnologia tem hoje 50 técnicos.
O desafio está em manter esses dois pólos,
essas duas equipes de desenvolvimento com tecnologias
completamente diferentes, e fazer a coisa andar.
Teresa — Há poucas empresas na área
de saúde que podem adquirir um pacote
de mercado para fazer a gestão do início
ao fim. A TI nessa área é relativamente
nova, comparando com mercado financeiro e outras
indústrias. Os fornecedores estão
aprendendo junto conosco a colocar SLA no contrato.
Se houver erro no aplicativo, precisamos ser
atendidos em até duas horas em função
da urgência do paciente. Esse processo
ainda está em amadurecimento. Esse é um
dos problemas que a gente tem em relação
aos pacotes de mercado. Desenvolvendo internamente,
ainda é muito mais fácil de resolver.
Adaílton — Quando colocamos o ERP,
foi o melhor dos mundos, todos satisfeitos com
o desempenho e o nível de informação.
Baseado nessas premissas, aquilo foi fatiado
e o foco da estratégia foi o atendimento;
em segundo plano, a enfermagem. E um ponto de
inflexão foi a atuação do
pessoal da farmácia. Hoje é muito
claro para o farmacêutico que a responsabilidade é dele,
não do médico, não da enfermeira.
Eles se responsabilizaram por toda a informação
de medicamentos no sistema antigo.
A minha preocupação maior também é a
integração. Para automatizar a
UTI e informatizar o centro cirúrgico, é preciso
ter fornecedores e tecnologia adequada. Sem isso,
não vamos entender o uso da tecnologia
no processo médico e não vamos
passar para o médico o ganho nesse processo.
A atuação de TI é muito
focada nisso.
O desafio maior é treinar e reter profissionais.
Os grandes hospitais estão incorporando
muita tecnologia. Os profissionais precisam ser
treinados. E isso leva tempo. As empresas não
treinam, elas buscam nos hospitais que têm
profissionais com Seis Sigma, tempo ótimo
de atendimento, tecnologia disponível.
E perdemos um profissional treinado por R$ 100
ou um vale-transporte adicional.
Há um ganho funcional na implementação
do ERP onde o atendimento rápido é necessário.
Mas o sistema de agendamento tem de ser ágil
para aliar tempo de relacionamento com clientes,
regras de faturamento e a expertise em informatizar
o parque. Se não trouxer isso, não
entra nem no ranking de seleção.
Como temos os processos de ERP consolidados,
queremos aquilo que ainda não conseguimos
fazer. Preciso de um produto que encante os 5%
dos médicos que ainda não usam
o software de prescrição eletrônica,
inclusive o médico de clínica,
que inclui a farmácia. As empresas de
software não conseguem fazer uma demonstração
em que mostrem o processo para o médico
e a enfermeira. E que tenha recursos de mobilidade.
José Aparecido — No ano passado,
compramos um software alinhado com SOA [arquitetura
orientada a serviços] para o rastreamento
do sistema. E deu certo. Os médicos de
hospitais públicos são apáticos à tecnologia.
Não são facilitadores. E são
eles que decidem.
Tivemos um grande problema com mobilidade quatro
anos atrás. Um grupo de funcionários
coleta de 50 a 100 bolsas de sangue todos os
dias. Isso era feito com fichas, manualmente,
e gerava erros e reclamações de
clientes. Não encontramos no mercado um
software para a coleta externa de bolsas. A solução
foi caseira. É um desafio fazer um legado
de 20 anos e um sistema PHP em Java conversarem.
Compramos notebooks e fizemos uma solução
offline integrada ao sistema legado de ciclo
do sangue.
IH — A tecnologia não atende as
necessidades de vocês?
Luiz Renato — Quando encontramos o produto
certo, ele é pioneiro e pagamos um preço
altíssimo. O InCor fez algumas experiências
com PDA para a UTI. Teve enormes dificuldades.
A solução tinha mobilidade e integração,
mas o processo de prescrição de
medicamento não casava com o processo
de assistência. A tecnologia existe, as
linguagens de programação existem
e a infra-estrutura existe. É só alguns
fornecedores acordarem.
José Aparecido — A fundação
tem um sistema legado. Não havia um sistema
que atendesse todos os processos. Há 16
anos contrataram uma empresa para desenvolver
e até hoje costuram essa colcha de retalhos.
Agora o desafio é integrar. Criaram uma
equipe para integrar os dados de pacientes porque
os vários sistemas não conversam.
Também será criado um painel de
controle de BI.
Adaílton — Um software de qualidade
tem de ter uma ferramenta de colaboração
eficiente. Quando médico e enfermeiras
fazem o prontuário, é preciso um
ambiente de colaboração. O software
tem de trazer essa engenharia do processo médico.
Teresa — Nós fizemos um grande trabalho
interno de identificação dos motivos
pelos quais a tecnologia não atendia o
negócio. Por que não atende? A
alternativa foi verificar onde valia realmente
a pena ter um processo absolutamente diferente
do mercado. Apenas nesse caso desenvolvemos.
Para descobrir onde estão esses pontos,
os processos precisam ser mapeados. Aí eles
podem ser mantidos como estão. Normalmente
reclamam que o sistema não atende, pedem
para refazer o sistema, mas não querem
que tenha custo. Enfim, agora estamos com um
grande projeto de SOA/BPM com esse objetivo.
[BPM: gestão dos processos de negócio,
em geral com o apoio de computadores.]
O mapeamento dos processos de gestão não é responsabilidade
de TI. Mas cada novo sistema precisa ser feito
em cima de um processo documentado. A TI gerencia
o projeto, mas quem define o processo é a área
usuária.
Suzete — As freiras que estão no
momento administrando o hospital descobriram
que ou você entende que a TI é suporte
ao negócio ou o negócio não
sobrevive. Há um ano e meio eu fui contratada
e tudo era problema da informática. Uma
consultoria estava jogando um ERP de mercado
goela abaixo das irmãs, sem rever processos,
sem rever pessoas. E tem um problema grave. Compraram
equipamentos diversos; um dia descobriram que
um não conversava com o outro. Não
adianta trocar o ERP se está tudo bagunçado.
A ferramenta atual é antiga, arcaica,
mas conceitualmente funciona.
Marco — Para algumas pessoas, definir processo,
aprovar, fazer sistema e implantar leva mais
tempo. Mas é um engano. Você leva
um pouco mais de tempo na definição
dos processos, mas depois ganha muito tempo no
desenvolvimento e na implantação.
Luiz Renato — Aquele papel do O&M antigo,
da década de 70, é uma coisa que
falta hoje. A TI pegou uma parte dele e ninguém
pegou o resto, que seria mais engenharia de produção.
Não tem quem faça essa parte do
O&M no hospital.
José Aparecido — A gestão
da qualidade tem que ser profissionalizada. Desde
o começo eu venho pedindo alguém
de O&M para mapear os processos.
Maurício — No primeiro semestre,
implantamos na Farmasa um SAP em 100 dias, um
tempo recorde. Fizemos uma implementação
goela abaixo, ou seja, não mapeamos os
processos. Simplesmente adquirimos um pacote
de indústria farmacêutica, que atende
80% do mercado. Aí dissemos para a empresa
que íamos instalar o ERP da mesma maneira
que em todos os outros grupos farmacêuticos.
Com isso nós economizamos a parte de mapeamento
do processo. Os 15% que restaram, que não
eram padrão do mercado farmacêutico,
foram desenvolvidos com a cara da empresa. Quando
se implementa um projeto em 100 dias, o projeto
de um SAP completo com todas as integrações,
a parte de mapeamento fica a dever. Agora o nosso
grande desafio é a governança de
TI. Temos que ter os processos alinhados à TI
e o mais difícil é manter essa
documentação atualizada. O usuário
mexe no processo e não avisa. A gente
só descobre que o processo mudou quando
o sistema pára de funcionar.
Marco — Os dados do Gartner dizem que 75%
dos projetos de engenharia chegam a um final
feliz, ou seja, terminam dentro do prazo, etc.
Mas, na área de TI, 5% dos projetos chegam
a um final feliz. Acho que a gente é responsável
por isso. Para atender um cliente que está na
ponta, eles perguntam para a TI como é que
tem que fazer.
Márcio — Estamos trabalhando em
um sistema de gestão para hospitais menores,
com capacidade de investimento menor. É um
sistema que trabalha via web, feito principalmente
em Java. Continuamos usando outros sistemas de
gestão para hospitais que estão
alocados principalmente na região sudeste,
com capacidade maior de investimento e uma aplicação
de tecnologia melhor. Mas para os hospitais com
mais restrições é preciso
uma solução diferente. Isso faz
com que tenhamos que nos adaptar a cada um dos
ambientes. Um exemplo é a implantação
do TISS, que deu bastante trabalho. Embora já tenha
funcionado em uma boa parte, o TISS não
se enquadrou facilmente em todos os hospitais.
Teresa — O TISS é uma particularidade
absoluta da área de saúde. Existe
um interesse maior, existe uma união também
maior das empresas na área. Portanto,
tem um poder de pressão muito maior. Existe
a possibilidade de reunir e resolver em conjunto.
Marco — Ao definir um padrão, você tem
que seguir. E é bom para o fornecedor.
Acho que o problema do TISS é que ele
foi gerado muito rapidamente. Então assustou
muito, houve os adiamentos.
Adaílton — As dificuldades que a
gente tem no TISS não são técnicas.
Essa parte está resolvida.
Marco — As sociedades médicas acham
que a Classificação Internacional
de Doenças (CID) não deve ser incluída.
Na minha opinião, foi incluído
um volume muito grande de informação
e ainda não houve condição
de discutir, de digerir e botar para funcionar.
Adaílton — No caso do setor bancário,
o SPB deixou claro o ganho para o cliente e para
as empresas. No caso do TISS, não ficou
claro o ganho para o cliente, que é o
médico e o próprio paciente. É interessante
que todo o esforço da ANS [Agência
Nacional de Saúde] em divulgar não
focou o paciente, apesar de você ver a
ANS em várias apresentações
falar em melhorar para o paciente. Mas o foco
da mensagem da ANS não é no paciente
em si. A essência do TISS é melhorar
o relacionamento com o cliente, que é o
médico no primeiro nível e o paciente
no outro nível, com os hospitais e as
operadoras. A mensagem não foi clara.
Em 2008, o processo vai entrar na parte médica
e é absurdo o baixo nível de informação
que os médicos têm. E ninguém
faz esforço nenhum de resolver isso.
Os médicos são muito sensíveis
ao apoio que o hospital está dando para
eles. O que vai acontecer? Quem está fora
de hospitais, vai sentir muito. A área
de TI deve focar em se antecipar a esse movimento,
lá na frente. Até faço uma
crítica: a interlocução
com as operadoras de planos de saúde é complicada.
Luiz Renato — O problema não está nas
operadoras, é interno. Você não
tem capacidade para desenvolver, então
paga caro para um profissional desenvolver. Os
parceiros para isso não existem porque
os fornecedores ainda não sedimentaram
a verticalização de soluções.
Não há padrões nos sistemas.
Quando você faz um sistema de informação,
seja interno ou externo, tem dois focos. O maior é a
estrutura de informação: o nome
do paciente, sexo, doença. Essa é perene.
A pele do sistema e a forma com que ele se comunica é que
muda de acordo com os processos. Se não
tiver a estrutura padronizada, o custo dos terceiros é muito
alto. Por isso que customizar o ERP custa muito
dinheiro: os nossos sistemas de informação
não estão dentro de padrões.
O melhor seria tentar padronizar isso dentro
da área pública. Todo mundo sairia
ganhando com isso.
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