| A
empresa investe milhões e constrói
um datacenter de última geração,
com ambiente antifogo, sala-cofre, enlace duplicado
de telecomunicações, máquinas
modernas. No fim, a tarefa de salvar o dado de
um servidor no outro, para ter contingência
e segurança, falha na parte mais fraca:
as pessoas. Sem boa gestão de pessoas
e de processos, o técnico se esquece de
adicionar no sistema aquela informação
importante; ou o mercado leva embora o profissional
bem capacitado. Antes de investir milhões
no datacenter moderno, o diretor de TI precisa
pensar em detalhes assim, com toda a aparência
de pouca importância.
A mesa-redonda foi coordenada por Wilson Moherdaui,
diretor editorial da Plano Editorial, e por Márcio
Simões, diretor de redação.
Participaram: Enrique Schamann, gerente de TI da
Ceva Logistics; Geraldo Francisco do Espírito
Santo Júnior, diretor de TI do Habib’s;
Heitor Jacques Hendges, gerente de TI da Hertz
Medicamentos; João Donizeti dos Santos,
gerente-geral de infra-estrutura de TI da Votorantim;
Márcio Bechara Poletti, gerente de TI da
Melitta; Waldemar Ruggiero Júnior, superintendente
executivo do departamento de processamento e comunicação
de dados do Banco Bradesco.
IH — Qual modelo vocês
usam para gerenciar o datacenter?
João — O datacenter da Votorantim é terceirizado.
Nunca houve problema de falta de energia, de
incêndio. As indisponibilidades que tivemos
estavam relacionadas com pessoas e processos.
Não temos que descuidar das questões
de segurança, de redundância, contingências,
sites de backup. Mas eu acho que, no momento,
o aspecto importante é a questão
de processos e pessoas. Nós cobramos muito
a gestão. Exigimos que nosso fornecedor
esteja alinhado com metodologias e práticas
do mercado, como os indicadores do ITIL e as
questões de governança do Cobit.
Márcio — Na Melitta, em 2003, fizemos
uma análise de vulnerabilidades e identificamos
aspectos no datacenter que deveriam ser melhorados.
A parte da tecnologia é fácil, é só ter
dinheiro para fazer o investimento. A questão
de processos e pessoas é a mais complicada.
Das indisponibilidades que tivemos na Melitta,
pouquíssimas foram por causa da tecnologia;
foram falhas de processos. Mexemos bastante em
processos. Recentemente fizemos um estudo para
ver qual seria o modelo adequado de ERP e datacenter.
Antes de contratar um fornecedor, levantamos
os processos internos para verificar a demanda
do negócio hoje, e a demanda para o futuro.
Uma das empresas que investigamos mostrou ter
uma equipe bem estruturada, com bom processo.
Mas, para economizar, optamos por fazer internamente.
A Melitta está dispersa geograficamente,
o que facilita; a gente pegou os dois prédios
principais e um está se transformando
na contingência do outro.
IH — Você identifica problemas que
talvez não tivesse se o datacenter fosse
terceirizado?
Márcio — Eu acredito que a gente
ganha o conhecimento. Pegaremos as melhores práticas
e adaptaremos à Melitta. Mas vamos começar
esse procedimento do zero. Se fizesse com um
fornecedor, eu ganharia essa etapa. Mesmo pondo
na ponta do lápis esse período
de aprendizado, as contas não fecham;
precisamos manter nossas despesas num patamar
mais baixo. No futuro, podemos contratar um parceiro,
colocar os servidores fora. Passamos seis meses
fazendo estudos para ver o que a Melitta precisava.
A Melitta não é muito grande, nem
tem a demanda de um banco. Nesse estudo vimos
vários ambientes de contingência
com infra-estrutura fantástica, mas quando
ela precisou ser acionada não funcionou;
e o erro estava no processo. Fizemos um investimento
para o porte da Melitta.
Enrique — Nosso processo foi parecido com
o da Melitta. Há uns anos tínhamos
uma sala com alguns servidores e servidores espalhados
pelo Brasil. Investimos na criação
de um datacenter e começamos a ver os
problemas. Por mais que tivéssemos toda
a infra-estrutura e a aparelhagem, os problemas
continuavam nos processos. Melhoramos os processos
e o datacenter começou a funcionar. Em
2006 e 2007, avaliamos alguns datacenters para
instalar um ERP. Como na Melitta, vamos optar
pela solução caseira. Eu sou a
favor, pelo conhecimento que a equipe ganha.
E com equipe própria e processos bem definidos,
teremos um controle melhor dos aplicativos. Se
tiver algum problema, a equipe própria
age mais rápido; o terceiro vai seguir
o SLA [o contrato a respeito da qualidade mínima
aceitável para o serviço]. A despesa
também é maior quando se terceiriza.
Quando se duplica o datacenter é para
ter contingência. Para fazer isso, é preciso
mapear o mínimo que a empresa precisa
para continuar trabalhando. Com base nesse mapeamento,
a gente avalia e cria outro datacenter interno.
IH — Vocês
dois diriam que isso tem a ver com o tamanho
da empresa?
Enrique — No meu caso, não. A Ceva
no mundo terceiriza o serviço. Hoje a
terceirização ou a não-terceirização
são duas linhas de pensamento. E com a
estrutura que a Ceva tem aqui no Brasil, a equipe
de TI, as margens do negócio e o investimento
em tecnologia, a terceirização é inviável.
Márcio — Quando nós fizemos
essa avaliação, percebi que os
executivos acreditavam que fazer internamente
era um investimento imediato. Eles sabem quanto
vai custar e a gente adapta a estrutura. Contratar
um terceiro significa despesa mensal e isso onera
nosso negócio. Existem empresas que atendem
bem empresas do porte da Melitta. Uma empresa
até otimizou a solução para
chegar na nossa viabilidade financeira. Mas é difícil
mostrar para o executivo. Enquanto ele não
vê a necessidade, fala: para que eu gasto
tanto em contingência se nunca uso? Como
a gente não tem órgãos reguladores
obrigando a contingência, isso vai entrando
na cabeça dos executivos conforme a gente
consegue doutriná-los.
Geraldo — O Habib’s tem 320 lojas
no Brasil, com três a quatro pontos de
vendas por loja. Há três anos começamos
um trabalho parecido com o do Márcio,
na Melitta, de buscar onde estavam os problemas
de continuidade de negócio. A diretoria
disse: tem que estar tudo duplicado. Quando a
gente colocou o custo no papel, era inviável.
Terceirizar o datacenter também ficava
mais caro. O Habib’s foca em preço
baixo com produto de boa qualidade, então
qualquer custo operacional mensal influencia
no resultado da empresa. Optamos por fazer internamente.
Usamos uma empresa do grupo, um call center,
que tem um datacenter próprio. Hoje temos
um datacenter de 12 anos e que está no
limite operacional. E estamos construindo um
datacenter em outro local, onde teremos um espaço
mais adequado e comunicação. Também
não somos uma empresa muito grande.
IH — A situação é diferente
no Bradesco, que segue as regras de vários órgãos
reguladores?
Waldemar — Nós acabamos de finalizar
a construção do terceiro datacenter.
Temos um datacenter de produção,
localizado na Cidade de Deus, em Osasco, e o
datacenter de contingência em Alphaville,
a 20 quilômetros de distância; com
conexão online entre os dois. No terceiro
datacenter, também na Cidade de Deus,
a infra-estrutura mecânica e elétrica
ficou pronta e agora vamos levar os equipamentos.
As regras influenciam bastante na decisão
de terceirizar ou não. Na operação
dos sistemas do banco temos pouquíssima
gente terceirizada. As regulamentações
interferem nos custos e nas ferramentas. Mas
o que pega para nós é a disponibilidade.
São 3 mil agências, 5 mil pontos
de banco postal, 10 mil correspondentes bancários,
25 mil máquinas de auto-atendimento, com
um número elevado de usuários internos
e externos. Percebemos o aumento da exigência
de disponibilidade em sistemas que outrora não
tinham essa necessidade, mas que ficaram importantes
com a maturidade da informática e da automação
de processos. Temos de atender a exigência
da grande empresa, da pequena empresa, da pessoa
que quer crédito num sábado à noite,
da transportadora que carrega o vale-pedágio
durante a madrugada.
Heitor — Há um tempo, quando começamos
a montar a estrutura de TI, a primeira questão
era quanto de disponibilidade a empresa estava
disposta a pagar. Na época, terceirizamos.
E hoje temos um parceiro que tem metodologia
e pessoal treinado. Exigimos a documentação
atualizada e organizada; fazemos auditorias constantemente;
fazemos manutenção preventiva dos
equipamentos. Atualmente, a Hertz questiona se
quatro horas fora do ar são suficientes
para o negócio. E eu estou nessa encruzilhada:
como aumentar a disponibilidade dentro de um
custo razoável? A tendência é fazer
um contingenciamento dentro de casa, principalmente
do SAP, já que a empresa não pode
deixar de faturar e de receber. Já está claro
para a empresa que isso é o importante;
podemos sobreviver algumas horas sem e-mail.
Enrique — Determinados indicadores nos
levam a pôr em funcionamento um plano de
recuperação de desastres [DRP].
Quando se fala em contingência e recuperação é para
ver quanto tempo a empresa pode ficar indisponível
ou em quanto tempo é preciso recuperar
o sistema. Volto a dizer, quatro horas está OK,
mas em seis horas você precisa recuperar
o site remoto. Relacionado com isso, eu queria
fazer uma pergunta para o Waldemar: entre os
datacenters de Osasco e Alphaville, vocês
desligam tudo de um lado e ligam tudo no outro,
para ver se os processos funcionam?
Waldemar — Os dados gravados na matriz
são gravados em sincronismo em Alphaville.
A transação não termina
antes de replicar o dado no site de contingência.
A gente gasta em torno de 30% a 40% a mais de
infra-estrutura para fazer essa operação.
Pelo tipo do negócio do Bradesco, é um
custo razoável. A cada seis meses, fazemos
essa chaveada para o datacenter de Alphaville:
colocamos um conjunto de negócios para
funcionar, uma agência, máquinas
de auto-atendimento, autorização
de cartão de crédito, autorização
de cartão de débito. Só o
que vale a pena efetivamente ter contingência.
IH — Qual é o papel da TI em ajudar
a montar a equação da contingência?
Waldemar — Acho que a TI pode alertar sobre
alternativas possíveis para o contingenciamento.
Se a empresa só compra por menor custo
e não faz a relação custo-benefício
em algum momento, chega uma hora que terá de
decidir por duplicar tudo — porque tudo
foi feito pela forma mais simples. Um exemplo é o
uso da fita de backup no servidor versus o armazenamento
num robô — que é mais confiável,
tem tempo menor de recuperação
e é mais caro. Se você opta por
comprar pelo menor custo, não vai comprar
o robô. Isso dificulta o trabalho de contingência,
de continuidade do negócio, de disponibilidade.
Márcio — Contingência é quanto
tempo ele pode sobreviver sem e quanto tempo
para trás eu preciso voltar. Nós
mostramos isso aos gestores. No começo,
eles queriam o tempo mais curto possível.
Conforme íamos explicando o que está por
trás de um plano de contingência,
a coisa ia se ajustando à realidade. Trabalhamos
a parte de recuperação de desastre,
e eu acabei encarregado também do plano
de gestão de crises para a Melitta do
Brasil. Acabei implantando uma nova cultura.
Na cabeça dos executivos era assim: duplica
tudo do outro lado e termina aí. Eles
não enxergavam testes, rotinas, procedimentos
e as pessoas envolvidas.
Donizeti — Esse trabalho de infra-estrutura
de datacenter backup e de contingência é difícil
de justificar. E isso depende do grau de maturidade
da empresa. No grupo Votorantim, temos empresas
com ações na bolsa e empresas sem;
as visões são diferentes. Quando
a empresa tem capital aberto, precisa seguir
algumas regras: se fizer interno, vai estar no
mesmo prédio [o que desobedece à regra].
A terceirização não reduz
custo. Ele ajuda a focar em alguma coisa diferenciada,
acelera algumas coisas na empresa, traz maturidade.
Mas, no fim das contas, não sei se faz
tanta diferença terceirizar ou não.
Geraldo — A aprovação dos
investimentos é mais complexa em empresas
de capital fechado, como a nossa. Quando falamos
em contingenciamento, montamos uma planilha para
mostrar quanto custaria cada hora dos sistemas
parados. Há dois anos, fizemos um ranking
de investimentos a longo prazo e começamos
por onde afetava mais o negócio. Foi a
forma de conduzir o investimento, de conseguir
a aprovação interna de como e de
quando fazer a redundância.
Heitor — Para nós, as quatro horas
de SLA durante o mês são boas. Mas
no último dia do mês tudo tem de
funcionar. O cálculo é simples:
quanto eu perco de faturamento no último
dia do mês versus quanto eu gasto para
o sistema estar disponível.
IH — Quem gerencia datacenters próprios,
tem dificuldade para reter o pessoal e manter
os processos funcionando?
Donizeti — Quando se compra um serviço,
isso deixa de ser um problema seu. Você compra
um SLA e quem tem que se preocupar em reter pessoas é o
provedor. Quando o mercado está aquecido, é mais
difícil reter pessoas. E se você tem
um bom profissional, o mercado vem e leva esse
profissional, principalmente no mundo ERP e no
SAP. Quando tínhamos estrutura própria,
realmente era complicado gerir e reter pessoas.
Márcio — Para a gente é uma
preocupação. Até porque
esse pessoal está cada vez mais qualificado
e a gente não tem como dar espaço
para ele crescer. Às vezes, se ele vai
para um terceiro, acaba sendo compartilhado como
outros clientes. Para o profissional é melhor,
mas para a gente é mais difícil.
Acho que a solução é ter
as cosias bem documentadas, escritas, para depender
menos de pessoas.
Heitor — Um dos motivadores para a terceirização
na Hertz foi a questão da documentação.
Também é complicado manter o pessoal
constantemente atualizado. Muitas vezes temos
uma demanda pontual por um conhecimento X. Você vai
treinar o pessoal para fazer uma coisa pontual?
Tendo um parceiro, ele consegue alocar aquele
recurso. Hoje, nós temos posições
de pessoas para administrar o ambiente de infra-estrutura;
não é personalizado. A metodologia
de documentação suporta o turnover.
Volta e meia mudamos os administradores de rede
de uma forma tranqüila e transparente. Desde
que começamos esse processo, já estamos
no quarto administrador.
Geraldo — A gente tem essa dificuldade.
Quando você treina uma pessoa e a pessoa
fica boa, o mercado vem e rouba. Nós conseguimos
um valor considerável para treinar o pessoal
de tecnologia e conseguimos manter esse pessoal.
A gente também tem boa documentação
e a gerência de mudanças garante
que o site de contingência estará igual
ao original. Um ponto que temos dificuldade é a
informação que pára no processo,
como uma solicitação que não
vai para dentro do sistema de suporte. Isso tem
a ver com o treinamento, a documentação
e a quantidade de sistema que os administradores
têm de tratar. Há uns anos, cada
administrador cuidava de 30 a 32 sistemas. Hoje,
cada administrador cuida de 50 sistemas. Em 2007,
buscamos automatizar os processo para tirar um
pouco dessa responsabilidade do administrador.
IH — Treinar o profissional é uma
forma de mantê-lo na empresa?
Waldemar — O Bradesco investe fortemente
em treinamento. Temos a Fundação
Bradesco, com 40 escolas espalhadas pelo Brasil,
com 110 mil alunos. Parte desses alunos é aproveitada
no programa de trainee. Você pode ter o
processo, mas se não tiver o grupo sete
horas por dia, sete dias por semana, o processo
não funciona. A gente tem treinamentos
online e presenciais que transcendem os aspectos
técnicos de um sistema e englobam a solução
como um todo. Por exemplo, tem uma solução
de VPN que envolve o fornecedor de VPN, o de
sistema operacional, o de banco de dados. Quando
a solução não funciona,
você tem um grupo de especialistas para
atuar e descobrir o problema, com conhecimento
da solução que é entregue.
Esse é um aspecto importante na política
de RH. Não que a gente não perca
um ou outro profissional, mas temos a gestão
do conhecimento interno.
Enrique — A Ceva também preza pelo
desenvolvimento profissional. Alguns começaram
como estagiários e hoje são supervisores;
então as pessoas percebem que crescem.
Eu tenho casos de parceiros que não conseguem
nos atender como precisamos. Temos soluções
que deveriam estar na mão do parceiro,
mas que nós temos mais conhecimento, justamente
pelo turnover que ele tem e nós não
temos. É uma empresa de telecomunicações
que atende nossa rede externa [WAN]. Sempre que
precisamos mexer na rede, instalar um novo site, é minha
equipe que conhece a estrutura em detalhe. Aí eu
penso: para que terceirizar se eu tenho o conhecimento
dentro de casa? Obviamente, não consigo
de uma hora para outra criar toda a estrutura
de backup internamente, porque o orçamento
de RH vai lá para cima. Porém,
aos poucos eu consigo que o administrador de
redes tenha um backup, que o administrador de
banco de dados tenha um backup.
Heitor — Há um ano e meio nós
implementamos a solução de Blackberry
[computadores de mão]. Usamos de forma
maciça a tecnologia e, inclusive, conseguimos
monitorar o ambiente, acessar máquinas
remotas, reiniciar servidores, tudo pelo Blackberry.
Eu não sei se houve um turnover no fornecedor
do Sul, mas, cada vez que eles vão instalar
a solução num cliente novo, ligam
para a gente e pedem para a gente dar um suporte
na instalação. Esses dias queriam
que eu deslocasse um técnico meu.
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